No magnífico romance "O Homem que Amava os Cachorros", de 2009, o escritor cubano Leonardo Padura traça um grande afresco do fracasso do socialismo real, por meio das histórias entrelaçadas de três personagens: Leon Trótski, dirigente da Revolução de 1917, forçado ao exílio pela implacável perseguição de Josef Stálin; o espanhol Ramon Mercader, militante comunista que penetra no refúgio do líder revolucionário russo no México para assassiná-lo; e o escritor cubano Ivan Cárdenas, personagem de ficção, que nos conta a história dos dois primeiros.
Trótski e Mercader vivem tragédias épicas: o primeiro, líder de massas, é atropelado pela degradação da Revolução Russa das promessas igualitárias em sangrenta máquina totalitária; o outro, revolucionário comunista, se transforma em assassino a serviço de Moscou após o esmagamento da república espanhola pelos fascistas de Francisco Franco.
Cárdenas, o narrador, tem um destino menos heroico: o fracasso de seu projeto de se tornar escritor, tragado pelo lento desmoronar das promessas da Revolução Cubana e pelo amargo cotidiano na ilha de Fidel Castro. No final, morre soterrado quando vem abaixo o teto de sua casa decrépita
—como são, de verdade, as casas da maioria dos cubanos forçados à reiterada penúria.
O destino de Ivan Cárdenas, personagem de romance, vem à mente a cada descrição do dia a dia de privações enfrentadas pelos habitantes de carne e osso da ilha caribenha nos dias que correm. O sistema socialista cubano agoniza, sob impacto do desumano embargo imposto por Donald Trump, que cortou o acesso do país ao petróleo importado. Mas seria um equívoco atribuir o desastre presente à medida decretada pelo truculento presidente americano, ou mesmo ao bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem ao regime castrista desde 1962.
O fracasso econômico de Cuba se deve em larga medida ao desenho e à administração do modelo socialista; e à maneira como, desde os anos 1990, reformas para flexibilizá-lo foram concebidas e implementadas.
Assim, o cientista político Carmelo Mesa-Lago, da Universidade de Pittsburgh, especialista em assuntos cubanos, rejeita as explicações antagônicas segundo as quais tudo se deveria ou ao "embargo" ou ao "comunismo". Para ele, a adoção de um modelo ineficiente —baseado no controle estatal da atividade econômica— e reformas mal desenhadas são a causa central do desastre. Mas o embargo, o colapso da Venezuela e os choques econômicos globais são poderosos fatores secundários.
De fato, experiências de reformar o socialismo real só foram bem-sucedidas quando significaram transitar para formas peculiares de economias de mercado, sob forte coordenação estatal —que de socialismo pouco têm—, como ocorreu no Vietnã e na China. O que nunca se mostrou possível foi avançar em reformas políticas que garantissem o pluralismo e o respeito às liberdades fundamentais, muito menos a democracia representativa.
Na agonizante Cuba, que já retrocedeu até nos ganhos reais em saúde e educação, o que sobra do socialismo real é o aparato repressor que sustenta o governo de partido único.
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