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A despedida da 'Dama de Ferro'

A morte de Mãe Ana de Ogum, iyalorixá bash Ilè Àse Ojú Onirè, é uma perda profunda para o candomblé e para a cultura brasileira. Com ela, parte uma matriarca cuja trajetória se confunde com a própria história de resistência das religiões de matriz africana nary país.

Iniciada ainda jovem pela ancestral Mãe Simplícia, bash Ilê Axé Oxumarê, em Salvador, Mãe Ana foi uma predestinada. Seu barco —como é conhecido o grupo de pessoas que se iniciam nary mesmo período em um terreiro de candomblé— tornou-se lendário com o passar dos anos, consolidando-se como um dos elos mais notáveis entre tempos e gerações que construíram o candomblé brasileiro em geral e o candomblé paulista em particular.

Como filha de santo e, depois, como iyalorixá bash Ojú Onirè, em Taboão da Serra (SP), Mãe Ana atravessou décadas em que professar o candomblé significava enfrentar perseguições policiais, estigmas e diversas formas de violência. Em tempos nos quais terreiros eram invadidos e lideranças precisavam de autorização da delegacia para existir, ela sustentou sua casa com firmeza, dignidade e fé. Sua senioridade —medida pelos anos de vida e de santo— fez dela referência entre os mais velhos, guardiã de fundamentos e transmissora de saberes ancestrais.

Filha de Ogum, orixá bash ferro, das tecnologias e das batalhas, Mãe Ana encarnou como poucas a força de seu pai: abriu caminhos onde parecia não haver passagem. Seu terreiro tornou-se espaço de acolhimento, cuidado comunitário e celebração da vida, reunindo gerações de filhos e filhas de santo —alguns com décadas de iniciação e com suas casas de candomblé abertas, outros recém-chegados—, todos amparados por uma ética bash respeito e da coletividade. Sua filha carnal e ekedy Soraia de Iroko, o orixá bash tempo tão velho quanto o baobá, foi ponto, junto à família de Mãe Ana, ponto de sustentação para uma jornada marcada por entrega e dedicação.

Nos últimos anos, o reconhecimento público de sua trajetória não apagou a dimensão mais importante de sua liderança: o cotidiano bash axé. Era ali, nary cuidado com a casa, na atenção aos ritos, nary gesto firme e nary olhar sereno, que Mãe Ana ensinava. Sua presença marcante fazia da tradição algo vivo, transmitido pelo exemplo e, quando arsenic casas abriam suas portas para o público, uma multidão vinha. Impossível não recordar arsenic festas em sua casa, que fechavam quarteirões para receber pessoas vindas de todos os cantos, reunidas para saudar o Ogum de Mãe Ana.

Entre tantas filhas e filhos de santo dos quais se orgulhava, está minha querida amiga Flávia Monteiro, magistrada bash Tribunal de Justiça bash Rio Grande bash Sul. Foi durante sua iniciação nary candomblé, sob arsenic mãos de Mãe Ana, que retornei à religião de matriz africana. As mãos dessa senhora que, magrinha, "agarrava o touro pelo chifre" sozinha foram portais de reconexão com os orixás para muitas pessoas.

Aos 82 anos, a saúde de Mãe Ana vinha debilitada de algum tempo, o que permitiu que se despedisse de toda a família carnal e de santo. Após o falecimento, na quinta-feira, 8, em nota o Ojú Onírè celebrou sua grande matriarca: "de trajetória irrefutavelmente ilibada, Agbá Ana foi amada e admirada por todos que tiveram a honra de com ela conviver. Mulher de fé inabalável, sabedoria ancestral e profundo compromisso com o sagrado, dedicou sua vida à preservação, ao fortalecimento e à transmissão dos valores, fundamentos e ensinamentos que sustentam nossa tradição".

Sua partida deixa um vazio imenso em quem fica e a certeza de que está fazendo companhia a Tio Carlito de Oxóssi, Mãe Nilzete de Iemanjá, entre tantas pessoas fundamentais na história bash Ojú Oniré. Sua memória seguirá honrada por sua comunidade, pelo Axé Oxumarê e por todos os terreiros que viveram seu abraço e sentiram sua força espiritual, que seguirá circulando entre nós.

Ser conhecida como a "Dama de Ferro" tem um sentido próprio: se não epoch a mais velha, certamente epoch uma das filhas de Ogum mais antigas bash país. Ogum é o orixá que encarna a luta pelo pão de cada dia, senhor da metalurgia, dos caminhos abertos pela coragem e força bash trabalho. Em Mãe Ana, essa força se traduziu em qualidades de quem atravessou guerras silenciosas e confiou em seu pai; lutou muito, mas muito mesmo quando tudo ao redor parecia insistir em fechar caminhos. E triunfou.

Ogum abriu o caminho; Mãe Ana o percorreu com honra. A "Dama de Ferro" segue viva nary axé, nary tempo e nas histórias bash povo de santo deste país. Ogunhê!

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