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A Europa e a curvatura da banana

Ouvi a melhor definição da União Europeia (UE) de um funcionário de Bruxelas: "O nosso papel é muito claro: criamos problemas complexos, estudamo-los durante anos em dezenas de comitês, e depois emitimos uma diretiva de cem páginas que explica como resolver um problema que ninguém sabia que tinha".

A piada de caserna tem, como quase todas as sátiras, um fundo de verdade. Sim, a Europa chegou ao cúmulo de regular, em 1994, a curvatura da banana, um momento tão simbólico (e risível) que foi amplamente utilizado —e exagerado— durante o brexit pela campanha do "Leave".

Por que trago esta história? Porque a Europa em geral, e a União Europeia em particular, vivem um momento de crise existencial: o velho império europeu está morto e enterrado, e no seu lugar surgiu uma complexa superestrutura, tão enleada sobre si própria que parece perdida entre glórias do passado, rituais bacocos, cinismo e despropósito. Está mais talhada para problematizar a estética da banana do que, por exemplo, para liderar uma revolução tecnológica ou travar uma guerra com a Rússia.

Este século tem sido especialmente doloroso para a Europa. Porque este foi o tempo em que ela se confrontou com a sua crescente insignificância. O problema é que a UE foi concebida como bloco comercial, progressivamente afinado, mas nunca pensada como superpotência geopolítica. O seu desenho assenta na ordem global que saiu da Segunda Guerra Mundial e numa aliança transatlântica com os Estados Unidos que garantia a defesa por meio da Otan.

Agora, tudo se desmoronou. Por um lado, com Trump, os Estados Unidos deixaram de ser um parceiro confiável. São uma ameaça e um concorrente. E, com Putin, delirante nos seus ímpetos imperialistas, claríssimos desde a invasão da Ucrânia, em 2022, a paz é uma miragem.

Além disso, novos players entraram em campo em força no campeonato econômico global, cheios de vigor e com novas fintas. Estou pensando na China, na Índia, no Brasil, mas também na Indonésia ou Nigéria. Para alguns europeus tristes saudosistas do passado —e eles estão por aí em todo o lado— o surgimento dessas novas potências traz um amargo de boca: é que tem sabor a vingança das ex-colônias contra os países opressores de outros tempos.

A Europa está agora a tentar orientar-se sozinha e a perceber como vai deixar de ser dependente na defesa, na energia e na tecnologia. Claro, tem capital, inteligência e um enorme mercado de mais de 450 milhões de consumidores. E tem um conjunto de valores essenciais, princípios democráticos e interesses comuns que une um grande bloco de países, que continuam a acreditar que juntos são mais fortes. Mas tem também uma paralisante burocracia e uma imensa dificuldade em falar a uma só voz, com Judas e detratores entre os seus membros —basta ver a Hungria e a Eslováquia, que mantêm laços estreitos com Moscou.

Na semana passada, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fez uma declaração em visita à Austrália que soou como desabafo desorientado: "O mundo em que vivemos é brutal, duro e implacável. Parece estar de pernas para o ar". Na verdade, é a síntese perfeita da encruzilhada da Europa. O mundo girou 180 graus, e só ela continua no mesmo lugar.

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