A Groenlândia deveria ser sobre quem vive lá. Mas para as potências globais, virou sobre quem projeta poder a partir dela.
Quando estratégia militar encontra liderança
Servi cinco anos como oficial do Exército brasileiro. Aprendi coisas que espero nunca usar em uma guerra: como terreno define movimento, como gargalo define suprimento, como linha de comunicação define sobrevivência e como ocupação define negociação.
Essas lições não ficaram no quartel. Elas também complementaram minha visão sobre liderança. Terreno, no fim, é uma metáfora poderosa: quem não controla o terreno, não controla o jogo.
E terreno, no século XXI, não é apenas físico. Pode ser econômico, político, tecnológico e simbólico.
Mas a Groenlândia está em guerra? Deveríamos ameaçar aliados com força militar? Essa seria a forma certa de liderar?
Perguntas assim incomodam. E deveriam. Porque tocam na essência da liderança.

Entendo os argumentos, mas não o método
Há argumentos legítimos de segurança nacional. O degelo do Ártico está abrindo uma nova rota marítima, um corredor que reduz em até 40% o tempo de viagem entre Europa e Ásia. A China aumentou investimentos na região por meio da sua "Rota da Seda Polar". A Rússia reforçou bases militares no Ártico e hoje controla passagens estratégicas no Estreito de Bering. E os Estados Unidos, desde 1941, mantêm na Groenlândia a Base de Thule, essencial para o monitoramento de mísseis intercontinentais.
Ou seja: não é fantasia geopolítica. É um tabuleiro novo que está emergindo e os países estão se posicionando.
O que me incomoda não é o diagnóstico: é o método.
Ameaçar aliados, ignorar soberania de um povo e usar força como primeira opção não é estratégia.
É coerção.
E coerção não constrói estabilidade. Constrói conflito.
A história ensina: ocupar terreno é fácil. Difícil é manter. É impossível, é manter sem legitimidade.
O terreno moral também importa
Disputas territoriais expõem não só estratégias, mas também princípios. E, quando princípios entram em cena, a régua costuma mudar conforme a conveniência de quem está olhando.
Parte do debate internacional condena ameaças territoriais externas, mas relativiza invasões de propriedade privada internamente. E o inverso também acontece: há quem condene invasões internas, mas relativize ameaças externas.
O problema não é o posicionamento, é a incoerência. Porque território, seja físico, econômico ou simbólico, revela quem somos como ser humano, como chefe de família, como profissional, como político. E só então, como líder. Porque liderança sem caráter não se sustenta.
E incoerência destrói credibilidade mais rápido do que qualquer erro estratégico.

O mapa corporativo também existe
Sem comparar geopolítica com negócios (porque não são a mesma coisa), vivi algo parecido no mundo corporativo. Quando cheguei ao McDonald's, o "mapa do Brasil" era complexo: operação própria em algumas regiões, franqueados em outras, áreas subaproveitadas e zonas de fricção silenciosa.
Centralizar teria sido a opção óbvia: tomar controle, impor comando, ocupar território. Mas adotamos outro método. Ceder territórios, comprar regiões, unificar áreas e reorganizar comando. No final, isso gerou simbiose, não disputa.
Demorou três anos. E o resultado não ficou no PowerPoint. Isso ajudou a criar as condições para que a empresa se valorizasse mais de 300%. As vendas cresceram 80%. O Ebitda subiu 400 pontos base. O turnover e o absenteísmo caíram pela metade. A satisfação do cliente melhorou mais de 20 pontos percentuais.
Por quê? Porque os franqueados executavam melhor nas regiões deles, e nossa operação própria se concentrava no que sabia fazer melhor. Criamos sinergia. Agregamos valor para todos, especialmente para o cliente.
Alguém poderia argumentar: "Mas se vocês tivessem ocupado todo o território dos franqueados, talvez tivessem obtido resultados ainda maiores. E poderiam ter atingido isso em seis meses, não em três anos."
Para quem pensa assim, eu digo: teria feito da mesma forma. Porque é o jeito certo, é o jeito justo e é o jeito sustentável de fazer as coisas. É o que eu acredito. E, para mim, isso é inegociável.
Liderar também é sobre o caminho
A Groenlândia não é um caso distante. É um lembrete. O gelo está derretendo, o tabuleiro está surgindo e as potências estão se movimentando. Mas a pergunta não é quem chega primeiro ao mapa. É como se chega.
Porque história — militar, empresarial ou humana — nunca premiou apenas quem ocupou o terreno certo. Premiou quem conseguiu fazer isso sem destruir alianças no caminho.
Território importa. Poder importa. Mas, no fim, o terreno moral também importa. E, no século XXI, quem ignora essa dimensão pode até conquistar. Mas não governa. Não sustenta. Não lidera.
O Ártico está derretendo. Os mapas estão mudando. E ficará claro que a disputa não é apenas sobre gelo, rotas ou minerais. É sobre liderança.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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1 semana atrás
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