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A Groenlândia não é sobre gelo, é sobre liderança

A Groenlândia deveria ser sobre quem vive lá. Mas para as potências globais, virou sobre quem projeta poder a partir dela.

Quando estratégia militar encontra liderança

Servi cinco anos como oficial do Exército brasileiro. Aprendi coisas que espero nunca usar em uma guerra: como terreno define movimento, como gargalo define suprimento, como linha de comunicação define sobrevivência e como ocupação define negociação.

Essas lições não ficaram no quartel. Elas também complementaram minha visão sobre liderança. Terreno, no fim, é uma metáfora poderosa: quem não controla o terreno, não controla o jogo.

E terreno, no século XXI, não é apenas físico. Pode ser econômico, político, tecnológico e simbólico.

Mas a Groenlândia está em guerra? Deveríamos ameaçar aliados com força militar? Essa seria a forma certa de liderar?

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Perguntas assim incomodam. E deveriam. Porque tocam na essência da liderança.

21.jan.2026 - Donald Trump pede 'negociações imediatas' pela Groenlândia em Davos
21.jan.2026 - Donald Trump pede 'negociações imediatas' pela Groenlândia em Davos Imagem: Denis Balibouse/REUTERS

Entendo os argumentos, mas não o método

Há argumentos legítimos de segurança nacional. O degelo do Ártico está abrindo uma nova rota marítima, um corredor que reduz em até 40% o tempo de viagem entre Europa e Ásia. A China aumentou investimentos na região por meio da sua "Rota da Seda Polar". A Rússia reforçou bases militares no Ártico e hoje controla passagens estratégicas no Estreito de Bering. E os Estados Unidos, desde 1941, mantêm na Groenlândia a Base de Thule, essencial para o monitoramento de mísseis intercontinentais.

Ou seja: não é fantasia geopolítica. É um tabuleiro novo que está emergindo e os países estão se posicionando.

O que me incomoda não é o diagnóstico: é o método.

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Ameaçar aliados, ignorar soberania de um povo e usar força como primeira opção não é estratégia.

É coerção.

E coerção não constrói estabilidade. Constrói conflito.

A história ensina: ocupar terreno é fácil. Difícil é manter. É impossível, é manter sem legitimidade.

O terreno moral também importa

Disputas territoriais expõem não só estratégias, mas também princípios. E, quando princípios entram em cena, a régua costuma mudar conforme a conveniência de quem está olhando.

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Parte do debate internacional condena ameaças territoriais externas, mas relativiza invasões de propriedade privada internamente. E o inverso também acontece: há quem condene invasões internas, mas relativize ameaças externas.

O problema não é o posicionamento, é a incoerência. Porque território, seja físico, econômico ou simbólico, revela quem somos como ser humano, como chefe de família, como profissional, como político. E só então, como líder. Porque liderança sem caráter não se sustenta.
E incoerência destrói credibilidade mais rápido do que qualquer erro estratégico.

18.jan.2026 - Soldados da Dinamarca em exercício militar na Groenlândia
18.jan.2026 - Soldados da Dinamarca em exercício militar na Groenlândia Imagem: SIMON ELBECK/AFP

O mapa corporativo também existe

Sem comparar geopolítica com negócios (porque não são a mesma coisa), vivi algo parecido no mundo corporativo. Quando cheguei ao McDonald's, o "mapa do Brasil" era complexo: operação própria em algumas regiões, franqueados em outras, áreas subaproveitadas e zonas de fricção silenciosa.

Centralizar teria sido a opção óbvia: tomar controle, impor comando, ocupar território. Mas adotamos outro método. Ceder territórios, comprar regiões, unificar áreas e reorganizar comando. No final, isso gerou simbiose, não disputa.

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Demorou três anos. E o resultado não ficou no PowerPoint. Isso ajudou a criar as condições para que a empresa se valorizasse mais de 300%. As vendas cresceram 80%. O Ebitda subiu 400 pontos base. O turnover e o absenteísmo caíram pela metade. A satisfação do cliente melhorou mais de 20 pontos percentuais.

Por quê? Porque os franqueados executavam melhor nas regiões deles, e nossa operação própria se concentrava no que sabia fazer melhor. Criamos sinergia. Agregamos valor para todos, especialmente para o cliente.

Alguém poderia argumentar: "Mas se vocês tivessem ocupado todo o território dos franqueados, talvez tivessem obtido resultados ainda maiores. E poderiam ter atingido isso em seis meses, não em três anos."

Para quem pensa assim, eu digo: teria feito da mesma forma. Porque é o jeito certo, é o jeito justo e é o jeito sustentável de fazer as coisas. É o que eu acredito. E, para mim, isso é inegociável.

Liderar também é sobre o caminho

A Groenlândia não é um caso distante. É um lembrete. O gelo está derretendo, o tabuleiro está surgindo e as potências estão se movimentando. Mas a pergunta não é quem chega primeiro ao mapa. É como se chega.

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Porque história — militar, empresarial ou humana — nunca premiou apenas quem ocupou o terreno certo. Premiou quem conseguiu fazer isso sem destruir alianças no caminho.

Território importa. Poder importa. Mas, no fim, o terreno moral também importa. E, no século XXI, quem ignora essa dimensão pode até conquistar. Mas não governa. Não sustenta. Não lidera.

O Ártico está derretendo. Os mapas estão mudando. E ficará claro que a disputa não é apenas sobre gelo, rotas ou minerais. É sobre liderança.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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