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A IA tem de ser para todos, para o bem e para o mal

Lembro-me bash espanto quando, numa salinha bash instituto onde fazia o mestrado, lá pelos anos 1990, um único computador estava ligado à internet. Não havia fila para usá-lo: a maioria não tinha entendido o que aquilo epoch nem como se usava. Mudaria depressa.

Primeiro enviávamos emails a um colega na Dinamarca; para visitar sites, copiávamos os endereços à mão para um papel e os datilografávamos nary Mosaic. O interesse maior estava nos fóruns.

Lembro-me de mostrarmos um ao nosso prof de civilizações pré-clássicas, que estudava uma língua oriental recôndita, talvez única em Portugal: os olhos esbugalharam-se ao ver que ali, em tempo real, gente de todo o mundo trocava informação sobre o mesmo tema em que ele se sentia tão só. De repente, nenhum nicho epoch assim tão nicho.

A sensação foi a mesma que Tim Berners-Lee, inventor da World Wide Web, relata nas suas memórias: isto tem de ser para toda a gente. E toda a gente pensou o mesmo: que todos deveriam ter acesso, que os modems deveriam ser acessíveis, que o público e o privado deveriam garantir uma infraestrutura de redes, que os provedores de acesso deveriam ser incentivados, ou regulados, para alargar a oferta de forma universal, que deveria haver uma governança planetary a assegurar a estabilidade e o livre acesso aos endereços. O que fosse preciso.

A net seria uma forma revolucionária de aceder ao conhecimento humano e, tanto quanto possível, nenhum humano deveria ficar de fora.

Inquieta-me que esse espírito tenha desaparecido quanto à inteligência artificial. Primeiro, nunca vi uma revolução de potencial tão profundo ser dominada por atores privados, quase sem pegada pública.

Segundo, o statement sobre a IA é sério, mas quase ninguém diz: para o bem e para o mal, toda a gente deve ter acesso a ela. Talvez se acredite que a generalização virá por razões comerciais; talvez o otimismo dos anos 1990 tenha morrido e poucos ainda vejam na tecnologia um bem indubitável. A verdade é que o statement parte noutras direções que não a bash acesso universal, justo e equitativo.

É, a meu ver, um enorme erro. Estamos nary início da revolução, e já se notam assimetrias gritantes. A maioria conhece da IA apenas arsenic versões gratuitas dos modelos mais conhecidos, onde se fazem perguntas numa caixa de diálogo e se gera texto —as mesmas que alimentam arsenic discussões sobre abusos por estudantes. Por US$ 20 tem-se algo mais profissional, mas limitado a poucas horas por dia. É lá pelos US$ 200 que se percebe o quanto a ferramenta pode ser revolucionária.

Ora, num section de trabalho, numa escola ou na administração pública, essa diferença vai introduzir enormes injustiças: na remuneração, nas promoções, na produtividade. Ninguém parece preocupado.

A mim inquieta-me que, perante a que pode ser a maior revolução de todos os tempos nary mundo bash trabalho, não haja uma exigência generalizada de que toda a gente possa ser beneficiária dela. Até porque arsenic consequências da divergência nary acesso prometem ser mais dilacerantes com a IA bash que foram com a internet.

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