Escrevo este texto olhando para uma relíquia familiar. Todos os anos, nesta data, pego nela. É uma agenda de 1974, onde a minha mãe apontava, a letra miudinha, os seus compromissos e os desenvolvimentos do namoro com o meu pai. No dia 25 de Abril, as palavras manuscritas agigantam-se a vermelho: "Dia da Revolução, Grande Dia de Portugal". Cumpria-se um sonho. Com 19 anos, a minha mãe percebia bem o quão importante era para ela e para o país aquele golpe militar que punha fim a quase 50 anos de ditadura, a mais longa da Europa, ao qual a população aderiu com cravos na mão e ardor pela liberdade.
Os meus amigos brasileiros costumam dizer-me que invejam a revolução portuguesa. Enquanto a transição democrática em Portugal aconteceu com carros blindados e botas da tropa, no Brasil foi feita suavemente, com pezinhos de lã. O fim da ditadura brasileira implicou uma abertura lenta, gradual e pactuada, uma suavidade acomodatícia que evitou choques, ruturas radicais e também limpezas profundas. Os brasileiros terminaram um regime autoritário de 21 anos como se fosse apenas um aviso de fim de festa. Como o ambiente estranho que fica numa pista de dança quando muda o ritmo para convidar a sair, mas a música continua a tocar sem mandar ninguém para casa.
A revolução portuguesa teve os seus excessos, é um fato, até se conseguir a consolidação da democracia, que só chegou com a Constituição de 1976. Como acontece sempre, cometeram-se erros e abusos. Há quem cite a tirada que diz que "uma revolução não é um convite para jantar", mas eu não aprecio Mao Tse-tung. Prefiro pensar que, apesar de tudo, foram certamente muito menos injustiças cometidas do que o sofrimento infligido a vários povos (incluindo os das colônias) durante cinco décadas.
Para a esmagadora maioria dos portugueses, há um antes e depois deste "dia inicial inteiro e limpo", como lhe chamou a poetisa Sophia de Melo Breyner, que celebramos sábado passado com desfiles e flores. Mas, mais importante do que a conquista da liberdade, é o que fazemos com ela.
Portugal e o Brasil avançaram ambos muitíssimo nestes anos pós-ditadura. Hoje são nações incomparavelmente mais desenvolvidas: reduziram a enorme pobreza e as desigualdades, baixaram a mortalidade infantil e o analfabetismo, universalizaram a saúde e a educação. Mesmo assim, tanto André Ventura, líder do Chega (da ultradireita), como o ex-presidente Jair Bolsonaro elogiam com frequência os tempos das ditaduras. Em ambos os casos, é preciso muita desonestidade para olhar para o notável caminho percorrido e dizer que correu tudo mal.
O problema é que as pessoas querem, legitimamente, sempre mais. Querem tudo aquilo a que têm direito. Depois das ditaduras, prometeram-nos igualdade, prosperidade, segurança: uma vida boa. Mas, nos dois países, essa vida boa só chegou para alguns, poucos. É precisamente este ressentimento com um futuro prometido e não atingido que alimenta os populismos. Ele é o combustível político dos dias de hoje. Enquanto os partidos políticos moderados e democráticos não encontrarem forma de completar estas transições inacabadas e entregarem o que falta cumprir, os populistas terão sempre terreno fértil para florescer com promessas inebriantes.

German (DE)
English (US)
Spanish (ES)
French (FR)
Hindi (IN)
Italian (IT)
Portuguese (BR)
Russian (RU)
2 horas atrás
3
/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/A/7/bLDrFWRRudApqTEdAeDQ/molduras-g1-1-.jpg)


/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/Y/Y/dAOi9yQcSAHkAJQvZ6YQ/lula.jpg)

:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/l/g/UvNZinRh2puy1SCdeg8w/cb1b14f2-970b-4f5c-a175-75a6c34ef729.jpg)

:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_08fbf48bc0524877943fe86e43087e7a/internal_photos/bs/2024/o/u/v2hqAIQhAxupABJOskKg/1-captura-de-tela-2024-07-19-185812-39009722.png)








Comentários
Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro