
Crédito, Getty Images
- Author, Matt McGrath
- Role, repórter de meio ambiente
- Author, Esme Stallard
- Role, repórter de ciências e clima, BBC News
Published Há 22 minutos
Tempo de leitura: 5 min
Os manguezais presentes nas zonas litorâneas do planeta protegem milhões de pessoas contra tempestades e absorvem imensos volumes de gases do efeito estufa. E, agora, eles estão revertendo seu declínio de forma inesperada, segundo os cientistas.
As árvores dos mangues vinham sofrendo rápido declínio há décadas. Elas foram cortadas para a construção de casas e a instalação de fazendas de criação de peixes.
Mas um novo estudo demonstra que, desde 2010, o crescimento dos mangues pelo mundo vem superando as perdas anuais. Isso se deve ao fortalecimento das proteções legais em diversos países e ao aumento da consciência das pessoas sobre a sua importância, especialmente após desastres como o tsunami de 2004 no Oceano Índico.
Mas o principal fator, segundo os pesquisadores, é a notável capacidade natural de regeneração desses ambientes, quando os seres humanos deixam de destruí-los.

Crédito, Chaideer Mahyuddin/AFP via Getty Images
Os mangues são heróis pouco reconhecidos do meio ambiente.
Eles armazenam até cinco vezes mais dióxido de carbono por área que as florestas terrestres. E suas raízes emaranhadas também podem reduzir a velocidade das ondas e proteger comunidades litorâneas contra marés de tempestade e tsunamis.
As mesmas raízes oferecem um berçário perfeito para muitas espécies de peixes e outros animais marinhos, protegendo-os contra os predadores e fornecendo enormes quantidades de alimento.
Mas todos estes benefícios ficaram seriamente ameaçados no século passado. O aumento da criação de peixes, da agricultura e a expansão das cidades litorâneas levaram muitos manguezais a serem derrubados e rapidamente removidos.
Entre os anos 1980 e 2010, mais de 12 mil quilômetros quadrados de manguezais foram destruídos na Ásia, África e no continente americano. Esta área corresponde a duas vezes o tamanho do Distrito Federal (DF).
Mas o novo estudo mostra uma reversão desta tendência, especialmente ao longo da última década. Agora, a perda líquida total (a área de mangue perdida e não substituída) desde os anos 1980 foi reduzida para cerca de 849 km².
O trabalho de restauração das últimas décadas ajudou as florestas degradadas a se recuperarem, mas a grande mudança veio da expansão natural dos manguezais em muitas partes do mundo, após a queda do desmatamento.
Com isso, as áreas de mangue se estabilizaram na Indonésia e cresceram em Mianmar, dois dos países com maior quantidade de manguezais do mundo.
Na Indonésia, o tsunami de 2004 parece ter ajudado a mudar a mentalidade das pessoas sobre a importância dos manguezais, o que reduziu a derrubada de árvores para a criação de peixes.
"Algumas ilhas eram cobertas de mangues", conta Zhen Zhang, da Universidade Tulane, nos Estados Unidos, o principal autor do estudo.
"Depois do tsunami, aquelas ilhas permaneceram muito bem protegidas, o que aumentou a consciência da população sobre a importância de preservar os manguezais."
Uma mudança de consciência pública similar ocorreu em Mianmar, após a passagem do ciclone Nargis, em 2008, e a proibição nacional do desmatamento, em 2016.
A tecnologia também fez parte do processo, segundo os pesquisadores.
Neste estudo, foi empregado um sistema diferente de formação de imagens via satélite, para mapear as florestas com mais detalhes. Ele mostrou muito mais árvores novas do que os estudos anteriores.
As imagens vieram dos satélites Landsat, "que são muito sensíveis às mudanças das copas das árvores e fornecem observações globalmente consistentes, que as avaliações anteriores não encontravam", explica a professora Elizabeth Robinson, diretora do Instituto de Pesquisa Grantham, em Londres. Ela não participou do estudo.
"Este é um avanço considerável em relação às avaliações globais anteriores", contou ela à BBC News.
Em muitos países, incluindo o Brasil, novos manguezais tomaram conta das margens dos rios e litorais oceânicos, devido à grande quantidade de nutrientes nos seus sedimentos.
Mas este desenvolvimento se deveu à destruição das florestas e à mineração no interior do continente, que podem ter levado nutrientes do solo, como o nitrogênio, para os cursos d'água, beneficiando os manguezais ao longo dos rios.
"Esta é uma boa notícia para os manguezais", explica Pete Bunting, da Universidade de Aberystwyth, no Reino Unido, um dos autores do estudo. "Existem mais manguezais do que pensávamos e eles estão demonstrando sua resiliência."
"Mas esta só é realmente uma boa notícia se não houver completa desordem rio acima."
A pesquisa também demonstra que a combinação de restauração e queda da destruição dos manguezais foi um sucesso, mas não de maneira uniforme em todo o mundo. Por isso, a África central e oriental aparece como foco de destruição no estudo.
"O delta do rio Níger é o símbolo dos impactos da poluição sobre os manguezais", afirma Bunting.
"A poluição causada pelo petróleo trouxe impactos em massa. E, se você olhar no Google Earth, poderá ver linhas retas atravessando os manguezais, onde ficam os oleodutos."

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Os ciclones tropicais continuam sendo uma ameaça séria. Eles são responsáveis por algumas das perdas mais significativas de manguezais registradas pelo estudo, todos os anos, da Austrália até o mar do Caribe.
Ainda assim, os autores da pesquisa concordam que a recuperação é uma boa notícia.
"Estamos seguindo na direção certa, pois você pode ver uma tendência muito clara de redução do nível de perda", explica Zhen Zhang à BBC.
O estudo também descobriu que muitos dos manguezais existentes estão se fortalecendo. Desde os anos 1980, a proporção de manguezais com dossel fechado (os mais ricos e densos em carbono) aumentou em cerca de 20%.
"Por isso, acho que estamos no caminho certo", conclui Zhen.

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