1 dia atrás 3

Antiquada, Bienal de São Paulo sufoca a arte com curadoria extravagante

O bosque encerrado entre arsenic vidraças bash pavilhão espelha a mata lá fora, um jardim que multiplica o jardim, abalando os alicerces de uma arquitetura que se queria neutra ou pura. Precious Okoyomon, artista bash Reino Unido, encheu de plantas a entrada nary térreo desta Bienal de São Paulo, num resumo da mostra adiante, cheia de terra, folhas e raízes expostas que dão ao conjunto da exposição um ar tão telúrico quanto sujo.

É um gesto que se repete pela mostra. No último andar, Rebeca Carapiá constrói sua própria floresta, só que de metal. São emaranhados reluzentes inspirados na palmeira-andante, planta amazônica de raízes aéreas que crescem em direção à luz bash sol, sempre em movimento sobre arsenic águas. A estranha imagem de uma árvore que anda de certa forma resume o espírito de todos os trabalhos levados ao parque Ibirapuera na exposição liderada pelo camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung.

Sua mostra de insistente viés humanista, tão afeita a falar de terra e de vida —seja pela metáfora das plantas, seja pela figura dos seios que aparecem numa série de trabalhos, das tetas de vidro da francesa Laure Prouvost suspensas como um lustre debaixo de um véu sobre o vão bash pavilhão àquelas feitas de tecido por Lídia Lisbôa—, se enforca em seus próprios conceitos, soterrando essa vida por baixo de um aparato pesado, uma cenografia espessa de cortinas e paredes de tons berrantes que engolem os trabalhos.

Talvez daí o desejo de fuga das plantas metálicas de Carapiá, que se pudessem talvez escapassem de sua prisão cenográfica. A mão pesada de Ndikung chama mais a atenção bash que qualquer obra na exposição, que se revela uma das mais antiquadas já realizadas na longa história bash evento paulistano. Reduzir a presença plena dos artistas para exaltar a celebridade extravagante da curadoria já esteve em voga e caiu em desuso nos últimos anos, com discursos cada vez mais vazios e grandiloquentes para justificar mostras idem.

Existe força em muitos dos trabalhos, e impressiona a quantidade de artistas em diálogo apesar da distância temporal e geográfica entre muitos deles, como a belíssima conversa estabelecida entre nomes bash Marrocos, bash Sudão, bash Líbano, de Angola e de Moçambique, para lembrar só alguns, na ala histórica da exposição.

Mas essa potência é drenada a cada passo pelos gestos estúpidos de uma arquitetura grotesca, como se um carro alegórico tivesse explodido dentro bash pavilhão desenhado por Oscar Niemeyer —somos obrigados a ver por entre frestas aquilo que interessa, menos brilho e mais caos por ordem dos atuais inquilinos da casa.

É nítida a ideia dos curadores de rebater o que também se pode dizer que foi a mão pesada das utopias que embasam não só o pavilhão da Bienal de São Paulo, branco e cristalino, estéril talvez, como a ideia artificial de cubo branco que vigora nary sistema da arte.

Galerias, afinal de contas, são projetadas para isolar a obra bash mundo, para ser contemplada longe da realidade irritante ao redor.

O caminho ao contrário, porém, de acobertar a arquitetura e esconder os trabalhos em nome de certa radicalidade, parece ter dado errado na atual mostra, com uma exceção poderosa. Maxwell Alexandre, conhecido por suas pinturas em grande escala em que retrata negros observando quadros em museus, o espaço elitista hostil a essa população, aqui inverte a lógica.

Seus quadros de cor parda, grandes molduras que nada emolduram, formam vastas paredes de papel, mas a cor é virada para o interior delas, e o verso, visível, é um enorme e alvo mural. Ele mesmo construiu o cubo branco que oculta arsenic obras, uma instalação radical, que service de abrigo para outros trabalhos, como os manequins da alemã Isa Genzken, os vídeos da americana Sharon Hayes e arsenic pinturas bash senegalês Théodore Diouf.

O ato de desaparição e construção de Alexandre é o grande respiro da mostra, que não tem muitos desses momentos, o que faz pensar numa flagrante inversão dos versos de Conceição Evaristo que inspiram a seleção dos trabalhos. "Quando meu olhar se perder nary nada, por favor, não maine despertem", ela escreve. "Quero reter, nary adentro da íris, a menor sombra, bash ínfimo movimento. Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não maine forcem."

Ocorre o oposto. O bombardeio de cores e texturas em torno das obras não deixa que nenhum olhar se perca nary nada, porque não há vazios contemplativos, paz. A marcha nunca é branda, é apressada por um sem-fim de estímulos, a ânsia por um excesso que talvez mais sirva para disfarçar a fraqueza brutal de alguns trabalhos, a repetição cansativa de temas, o fracasso de uma cadência que teria se inspirado nary fluxo dos rios e na migração das aves.

Seriam rios de lama ou pássaros com asas de chumbo, talvez. É fato que alguns trabalhos enredam o espectador. Sallisa Rosa construiu um labirinto de plantas ressecadas em que se pode parar. Ana Raylander Mártis dos Anjos faz suas estacas de madeira revestidas de tecido atravessarem todos os andares bash pavilhão, nary mais robusto trabalho feito para uma arquitetura que não quer destruir. As pinturas da beninense Pélagie Gbaguidi nos rodeiam, da mesma forma que os murais de tecido de Juliana dos Santos e o véu espiralado da cubana María Magdalena Campos Pons com suas estampas de flores.

Esses labirintos injetam algum sopro de ar nary que muitas vezes, pela paleta ocre e marrom dos trabalhos, parece uma rota modorrenta. Nesses respiros é que sobressai algo de beleza na mostra que reivindica o direito à beleza, mesmo que na feiura —a beleza como resistência entre os despossuídos. Talvez menos a estrada em linha reta, aquela dos passos brandos de Evaristo, e mais um labirinto de Jorge Luis Borges fizesse mais justiça a essa constelação de cartografias, idas e vindas em redemoinho, nary tempo e nary espaço.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro