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Apoio a Israel nos EUA entrou em colapso, mas há pouca dissidência na mídia brasileira

Por décadas, nos Estados Unidos, o apoio absoluto a Israel foi um consenso inabalável. A única discussão envolvendo Israel no período eleitoral era para ver qual candidato se dizia "mais pró-Israel" do que o outro.

Todos os presidentes reafirmaram a premissa de que é obrigação dos EUA sempre financiar, armar, proteger e até mobilizar forças em defesa de Israel. Obama forneceu as armas que bombardearam Gaza em 2014 e em 2016 firmou um acordo de US$ 38 bi em ajuda militar por dez anos. Joe Biden e Donald Trump financiaram e armaram a destruição de Gaza depois dos ataques de 7 de Outubro.

No ano passado, Trump se juntou a Israel no bombardeio ao Irã. E agora, Trump e Israel lançaram uma guerra regional perigosíssima que foi descrita corretamente tanto pelo New York Times quanto pelo Financial Times como sendo causada por Israel.

Os dois países já bombardeiam implacavelmente Teerã e outras cidades, matando centenas dos civis iranianos que afirmam querer "libertar". Os EUA caminham para fazer com o Irã o que fizeram com Iraque, Vietnã, Afeganistão, Síria e Líbia: não a libertação, mas a aniquilação.

Por mais de 50 anos, figuras proeminentes nos Estados Unidos morriam de medo de criticar Israel ou questionar a devoção americana ao país, sob o risco de uma destruição reputacional garantida. Qualquer um que questionasse Israel logo era tachado de antissemita pelo poderoso lobby sionista. Por anos, essa tática funcionou.

Mas tudo mudou nos últimos dois anos, especialmente entre os americanos mais jovens. Eles viram, pela primeira vez, a verdadeira face de Israel e da devoção dos EUA a ele. E eles odeiam o que veem. O apoio a Israel nos EUA simplesmente colapsou.

Hoje, todos os grupos demográficos, exceto os conservadores com mais de 50 anos, voltaram-se contra Israel. Essa mudança, antes impensável, reflete-se na oposição veemente de líderes conservadores americanos às guerras israelenses, incluindo nomes como Tucker Carlson, Megyn Kelly e —antes de seu assassinato— Charlie Kirk.

O colapso é tão extremo que os dados mais recentes do Gallup, reportados pelo Financial Times este mês, mostram que, pela primeira vez desde que o instituto começou a monitorar o sentimento, há mais americanos que simpatizam com os palestinos do que com os israelenses. Um relatório interno recente do Partido Democrata concluiu que o apoio de Biden e Harris à guerra em Gaza custou-lhes a eleição.

As razões não são difíceis de compreender. O mundo passou dois anos assistindo diariamente Israel incinerar famílias e crianças em Gaza e em outros países do Oriente Médio —tudo pago pelos contribuintes americanos. Tribunais internacionais e inúmeros estudiosos de genocídio —muitos deles judeus e israelensesconcluíram que Israel é culpado de genocídio em Gaza.

No entanto, embora o debate sobre Israel tenha finalmente se tornado mais permissível nos EUA, ele permanece estranhamente asfixiado na grande mídia brasileira. Há pouco mais de dois anos, nestas mesmas páginas, critiquei duramente esse viés pró-Israel extremado, com foco particular na Globo.

Essa tendência apenas piorou, e os exemplos citados na época continuam a se repetir. E ainda no Brasil, até mesmo jornalistas judeus antissionistas como Breno Altman podem ser processados por grupos pró-Israel.

A direita brasileira também mantém uma reverência verdadeiramente bizarra por Israel e por cada nova guerra americana e israelense. Bolsonaristas adoram desfilar declarando quão poderoso e justo é bombardear os "inimigos" —da Venezuela e Iraque ao Iêmen e Irã—, mas, aparentemente, nunca querem lutar pessoalmente ou que seu próprio país pague por nenhuma dessas guerras que glorificam.

O filósofo escocês Adam Smith alertou há 250 anos — em seu livro de 1776, "A Riqueza das Nações"— que as pessoas sempre estarão prontas para apoiar e celebrar guerras, derivando delas um senso distorcido de excitação e propósito, desde que mantidas a uma distância segura dos combates. A direita brasileira é soberba em aplaudir as guerras alheias, e igualmente soberba em garantir que não arcará com nenhum de seus custos ou fardos.

Independente de qualquer outra verdade, o jornalismo básico exige a inclusão de todas as perspectivas razoáveis; do contrário, é apenas propaganda bruta. A opinião pública em grande parte do mundo voltou-se bruscamente contra Israel e suas guerras conjuntas com os EUA. Já passou da hora do jornalismo brasileiro dar voz e destaque a esse dissenso.

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