Criança de pé ao lado de uma escala vertical de medição, enquanto um adulto com jaleco branco mede sua altura

Crédito, Getty Images

    • Author, Fernando Duarte
    • Role, Serviço Mundial da BBC
  • Há 24 minutos

  • Tempo de leitura: 8 min

Ao longo dos últimos 150 anos, os seres humanos vivenciaram um notável impulso do seu crescimento enquanto espécie.

Mas existem sinais de que este fenômeno pode estar chegando ao fim. E uma das possíveis razões parecem ser as mudanças climáticas.

É bem documentado que o aquecimento global aumenta os extremos climáticos, como ondas de calor e aumento da umidade.

Agora, uma equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriu que estas condições já podem estar prejudicando o crescimento das crianças antes mesmo do parto.

A equipe analisou 200 mil crianças com menos de cinco anos de idade no sul da Ásia, uma região particularmente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas.

Os pesquisadores estimaram que as crianças que, ainda na barriga da mãe, enfrentaram picos de temperatura acima de 35 °C aliados a alta umidade nos três trimestres de gravidez teriam altura 13% menor que o esperado para sua idade.

O crescimento na faixa de 0 a 5 anos é considerado um indicador importante da saúde e do desenvolvimento geral da criança. E a nossa altura final na idade adulta é determinada, em grande parte, pela genética e por outros fatores, como saúde e nutrição.

Mas o "estudo indica que o aumento do calor e da umidade, causado pelas mudanças climáticas, realmente ameaça reduzir a altura média das crianças até os cinco anos de idade no sul da Ásia", explica sua principal autora, Katie McMahon.

"O panorama global permanece incerto, mas dependerá, em grande parte, da mitigação e da adaptação nas próximas décadas", segundo ela.

"É razoável esperar resultados similares em outros países de baixa e média renda, que já enfrentam altos níveis de temperatura e umidade."

Cerca de 120 países se enquadram na faixa de baixa e média renda, segundo as avaliações do Banco Mundial.


Como está sua altura, em comparação com as pessoas de outras partes do mundo?

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O efeito sanfona

Os cientistas sabem que os seres humanos vivenciaram períodos de grandes variações de altura ao longo dos séculos, especialmente em épocas de mudanças importantes.

Um destes momentos foi a nossa transição de caçadores-coletores para a prática da agricultura, 10 mil anos atrás. Diversos estudos indicam que a mudança, inicialmente, trouxe efeitos prejudiciais à altura média dos seres humanos.

Mais recentemente, em 2004, o professor de economia Richard Steckel (1944-2026), da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, publicou um estudo marcante.

Pesquisando dados da altura de milhares de esqueletos escavados em locais de sepultamento no norte da Europa, datados do século 9° ao século 19, ele concluiu que a altura média dos seres humanos aumentou e diminuiu durante aquele período, atingindo um recorde de baixa no século 17.

Naquela época, a Europa atravessava uma série de mudanças. Uma delas foi o crescimento das cidades, que aumentou a difusão de doenças transmissíveis.

Houve também alterações da produção agrícola e até a Pequena Era do Gelo, um período de resfriamento ocorrido entre os séculos 16 e 19.

"Os homens do norte da Europa perderam, em média, 6,4 cm de altura até o século 18, que só foram totalmente recuperados na primeira metade do século 20", escreveu Steckel no seu estudo.

A pesquisadora de saúde populacional Andrea Rodriguez Martinez, do Imperial College de Londres, é autora de diversos estudos que analisam tendências da altura humana. Ela receia que as mudanças climáticas possam exercer pressões similares sobre as populações modernas.

"A ONU estimou que cerca de um bilhão de crianças em todo o mundo se encontram 'risco extremamente alto' de sofrer consequências das mudanças climáticas", explica Martinez.

"É razoável dizer que as mudanças climáticas representam uma ameaça significativa para o crescimento e a saúde das crianças, de várias formas."

Os gigantes holandeses estão encolhendo

Lionel Messi no campo de futebol, de uniforme azul e branco, em frente ao goleiro holandês Andries Noppert, de uniforme verde

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, O goleiro holandês Andries Noppert, com seus 2,03 m de altura, conversa com o argentino Lionel Messi (de 1,70 m), durante jogo válido pelas quartas de final da Copa do Mundo Masculina de 2022, no Catar

Observando o panorama ao longo do século 20, as condições de vida realmente parecem ter influência sobre a altura.

Em 2017, a NCD-RisC, uma rede de cientistas de saúde espalhados pelo mundo, publicou uma análise de dados biométricos para homens e mulheres de 200 países, nascidos entre 1896 e 1996.

Calcula-se que, naquele período, a altura média global dos homens aumentou de 1,62 m para 1,71 m. E as mulheres cresceram, em média, de 1,51 m para 1,59 m.

Mas, em alguns países, as pessoas crescem mais do que em outros.

Os homens iranianos, por exemplo, ficaram 16,5 cm mais altos, enquanto as mulheres sul-coreanas ganharam 20,2 cm. E, no outro lado do espectro, as mulheres de Madagascar cresceram apenas 1,5 cm no último século e os homens paquistaneses ganharam 1,27 cm.

Qual o motivo desta disparidade?

"As variações de altura são explicadas, em grande parte, pela genética, mas também por uma combinação de fatores nutricionais, ambientais e socioeconômicos", explica Martinez.

Estes fatores incluem o acesso a alimentos nutritivos e água potável, além dos avanços da medicina que aumentaram nossa capacidade de enfrentar doenças.

Existem também dados que indicam que o crescimento médio dos seres humanos pode estar se estabilizando, pelo menos em alguns dos países com a população mais alta do mundo.

Os holandeses são o povo mais alto do planeta. Isso se deve às melhorias históricas do padrão de vida do país e ao acesso aos avanços da medicina e alimentos de alta qualidade.

"Sua história mostra uma clara relação entre o ambiente onde se vive e as populações mais altas e saudáveis", explica a professora de saúde e sociedade Kristina Thompson, da Universidade de Wageningen, na Holanda.

Os homens nascidos na Holanda em 1980 atingiram, em média, 183,9 cm aos 19 anos de idade. Mas este número caiu para 182,9 cm entre os homens nascidos em 2001.

Entre as mulheres holandesas, a média caiu de 170,7 cm para 169,3 cm.

Um dos motivos, segundo declaração emitida pelo CBS, é a "imigração de novos habitantes com altura menor e seus filhos nascidos aqui". Mas o organismo destaca que a queda da altura também foi verificada entre crianças com os dois pais de origem holandesa.

"Ainda não se sabe ao certo o que causou esta redução", segundo Thompson. "A qualidade da alimentação diminuiu? A obesidade infantil está prejudicando o crescimento?

Como fica o Brasil no ranking da altura das pessoas?

Segundo o estudo, o homem brasileiro tem, em média, 1,73 m e a mulher, 1,60 m. Ambos registraram o mesmo crescimento desde 1914: 8,6 cm.

Entre os homens, o Brasil ficou em 68° lugar entre os países pesquisados, acima de nações como Portugal, México e Chile, e abaixo da Romênia, Argentina e Jamaica.

Já a mulher brasileira alcançou a 71ª posição, mais alta do que a mulher turca, argentina ou chinesa, e mais baixa do que as espanholas, israelenses e inglesas.

A disparidade compromete

Não é surpreendente saber que os países mais desenvolvidos do planeta dominam as primeiras posições do ranking de altura global. Mas esta classificação pode sofrer alterações.

No final do século 19, os Estados Unidos estavam em terceiro lugar entre as pessoas mais altas do mundo, segundo dados do NCD. Mas, atualmente, os americanos não aparecem nem mesmo no top 20.

Na pesquisa publicada pela revista eLife em 2016, os Estados Unidos ficaram em 37° lugar entre os homens e em 42°, entre as mulheres.

E não é que os americanos tenham encolhido. Os homens nascidos nos Estados Unidos em 1996 são, em média, 6 cm mais altos que seus ancestrais, nascidos um século antes. A questão é que o resto do mundo cresceu com maior rapidez.

O economista americano John Komlos é pioneiro na história antropométrica, o estudo das dimensões humanas ao longo dos séculos. Ele culpa as disparidades socioeconômicas do país surgidas ao longo do tempo, especialmente o acesso à assistência médica nas últimas décadas.

"Os Estados Unidos ficaram para trás de países que adotaram políticas de bem-estar promovidas pelo Estado, que permitem que até as pessoas mais pobres possam levar seus filhos ao médico", explica ele.

Komlos também deposita parte da culpa no aumento dos índices de obesidade observados nos Estados Unidos desde meados do século 20, especialmente entre crianças e adolescentes.

Dados do governo americano demonstram que os hábitos alimentares nos Estados Unidos melhoraram nas duas últimas décadas, mas ainda indicam que mais da metade dos americanos com menos de 18 anos come mal, em termos nutricionais.

"O que o passado nos mostrou é que, se você quiser que uma população aumente de estatura ou continue crescendo, você precisa alimentá-la adequadamente desde o início", explica o economista.

Bebê sendo pesado em uma balança em uma maternidade de Karachi, no Paquistão

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, As ondas de calor e o aumento da umidade podem já estar prejudicando o crescimento das crianças no sul da Ásia

A história das duas Coreias — e das duas Alemanhas

Outro exemplo surpreendente da influência das condições de vida sobre o crescimento vem da península coreana, que foi dividida pela guerra dos anos 1950 em Coreia do Norte e do Sul.

Um estudo realizado em 2011 por pesquisadores da Universidade Sungkyunkwan de Seul, na Coreia do Sul, demonstrou que as pessoas nascidas no norte são, em média, 8 cm mais baixas que seus prósperos vizinhos do sul.

Uma disparidade similar, ainda que menos pronunciada, foi encontrada em comparações entre pessoas nascidas na Alemanha, no período em que o país ficou dividido em dois (1949-1990). Os alemães-ocidentais eram, em média, cerca de 1 cm mais altos que seus vizinhos do leste.

Nós paramos de crescer?

Existem evidências de que o crescimento humano pode ter atingido seu pico ou se estabilizado em alguns países desenvolvidos. Mas este fenômeno poderá ser compensado pela aproximação dos países em desenvolvimento.

Por isso, embora as condições socioeconômicas ainda possam melhorar em partes do mundo que estão ficando para trás, existe a suspeita cada vez maior de que as mudanças climáticas induzidas pelo homem podem ser um obstáculo.

"As pessoas que vivem em níveis maiores e cada vez mais altos de umidade e calor, muitas vezes, enfrentam as maiores barreiras para a adaptação às mudanças climáticas", segundo Katy McMahon.

"Para as pessoas que trabalham em ambiente externo, como na agricultura, e com pouco ou nenhum acesso a ar-condicionado, as mudanças climáticas provavelmente irão ampliar os efeitos negativos que observamos."