
Crédito, Archivo Particular
- Author, Daniel Pardo
- Role, Da BBC News Mundo
Published Há 23 minutos
Tempo de leitura: 5 min
Querer retirar a Colômbia do sistema internacional de organizações multilaterais ou buscar legalizar o porte de armas, por exemplo, são algumas das propostas que o distanciam da direita liberal que governou o país por décadas.
De la Espriella, um advogado criminalista de 47 anos, herda dessa direita tradicional elementos como a defesa ferrenha da propriedade privada, o ceticismo em relação ao envolvimento do Estado na economia e a base eleitoral — localizada sobretudo nas áreas abastadas e urbanas da Colômbia andina.
Mas tão relevante quanto isso é o que o também membro e doador do Partido Republicano, nos EUA, identifica na nova direita inspirada por Donald Trump: a busca por segurança a qualquer custo, a desconfiança em relação a fronteiras abertas e o desprezo pelo mundo globalizado e liberal, representado por direitos como inclusão, aborto e casamento homossexual.
Não é por acaso que, como o americano, o colombiano proponha "uma nova ordem" para seu país.
Ninguém, talvez nem mesmo De la Espriella, imagina como será seu governo, não apenas porque ele, pragmático e imprevisível, costuma mudar suas opiniões em função de suas necessidades, mas também porque terá na oposição uma esquerda organizada no Congresso e nas ruas.
A Colômbia parece já ter vivido episódios como este, mas a partir de 7 de agosto entrará em terreno desconhecido.
Afinal, o que representa Abelardo "o Tigre" De La Espriella — e como ele se compara às direitas que governaram o país até a chegada de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda?

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Mais 'iliberal' do que direitista
De la Espriella é chamado com frequência de político de extrema direita, mas ele gosta de dizer que é independente e representa a "coerência extrema".
Isso porque seu grande inimigo, segundo ele, é — como no caso de Javier Milei, presidente da Argentina — "a casta", o "establishment tradicional", apesar de ele próprio ter se destacado como advogado de personagens polêmicos e midiáticos.
O principal traço de seu perfil ideológico é a ênfase na Segurança: ele propõe construir megaprisões, fortalecer as Forças Armadas e acabar com as negociações de paz com grupos armados.
Nesse sentido, ele se assemelha a Álvaro Uribe, presidente entre 2002 e 2010, mas com o componente visual que as novas direitas — por exemplo, Nayib Bukele, em El Salvador — introduziram: De la Espriella se apresenta em seus comícios com colete à prova de balas e um vidro blindado ao seu redor.

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Em termos econômicos, ele adota uma linha semelhante à da direita tradicional, ainda que mais radical — ou ao menos mais vocal: redução do Estado, impostos baixos e apoio ao empresariado.
Depois, há o aspecto cultural — aquele que as novas direitas fortaleceram em sua cruzada contra o wokismo, o feminismo e o liberalismo, e que as direitas tradicionais também compartilham, mas não consideravam prioritário, em parte por seu caráter mais liberal.
De la Espriella, criador de um produto alinhado aos tempos das redes sociais e da inteligência artificial, declara-se contrário ao aborto, à eutanásia e à adoção homoparental. Na campanha, chegou a se gabar de seu órgão reprodutor, atacar jornalistas mulheres e desqualificar um candidato homossexual.
Mais do que de direita, De la Espriella pode ser qualificado como iliberal. E isso é, de fato, o que mais o distancia das direitas tradicionais colombianas.

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Mais uribista que Uribe
O historiador Germán Mejía Pavony publicou no ano passado Entre a Liberdade e a Ordem, um livro que conta a história da direita na Colômbia.
Para ele, ser de direita na Colômbia perdeu o sentido com a criação da Frente Nacional, um acordo vigente entre 1958 e 1974 pelo qual os partidos Liberal e Conservador se revezaram no poder para conter a violência. Na prática, isso representou a consolidação de uma centro-direita liberal e tecnocrática como fundamento do Estado.
"Com a Frente Nacional, a política se desideologizou e ser de direita ou esquerda deixou de fazer sentido. Hoje a direita voltou. É uma palavra antiga que se tornou nova pela conjuntura política", afirma.
"A versão atual é muito mais desavergonhada em seu ataque às instituições. Seus líderes se elegem por meio do voto, dizem aceitar a Constituição, mas a moldam à sua imagem e semelhança para esvaziar a divisão de poderes", diz, em referência a Bukele.
Na década de 1920, existiu na Colômbia um movimento denominado "Los Leopardos", que, em meio ao auge do fascismo italiano, defendeu a defesa implacável da religião, da família nuclear e de posições homofóbicas.
Pelo seu caráter iliberal, esse é o único antecedente que Mejía encontra para o perfil de De la Espriella.

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O especialista sustenta que a chegada de Petro ao poder, em 2022 — a primeira de um esquerdista "puro" —, ampliou o espectro de movimentos com espaço no sistema político e "reativou a direita como conceito".
Mas a ascensão de De la Espriella também tem a ver com uma certa cooptação do uribismo — o movimento de direita mais importante da história recente— pelo sistema político tradicional, diz Yann Basset, cientista político da Universidade do Rosario: "O uribismo se aburguesou, tornou-se o partido das classes altas, enquanto De la Espriella mobiliza setores populares com um discurso de meritocracia e dos 'nunca'".
De la Espriella diz representar "os que nunca roubamos um centavo do dinheiro público, os que nunca vivemos do Estado, os que nunca pedimos nada de graça".
E com isso também busca se distanciar de uma direita tradicional que controlou o que na Colômbia chamam de "o establishment".
"Essa nova direita recupera o discurso do trabalho duro que o Centro Democrático (o partido de Uribe) perdeu ao se tornar um partido de herdeiros políticos", diz Basset.
"Sou o Uribe de 2002 (de sua primeira vitória), mais litorâneo e mais bacana", diz De la Espriella. "Represento a verdadeira doutrina uribista (…) mais moderna e atualizada", afirma.
Mais uribista que Uribe, e adaptado aos tempos do algoritmo, de Donald Trump e da crise da ordem liberal.

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