Homem olhando um aplicativo de negociação em seu smartphone no escritório em casa. Ele é fotografado de costas, de modo que apenas suas mãos no celular aparecem em foco nítido, enquanto a parte de trás dos ombros e as telas do escritório ficam em foco suave

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A análise feita pela BBC identificou um padrão consistente de picos de movimentações
    • Author, Nick Marsh
    • Role, BBC News
  • Há 4 minutos

  • Tempo de leitura: 9 min

Ao longo do segundo mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, operadores do mercado vêm apostando milhões de dólares pouco antes de ele fazer anúncios importantes.

A BBC analisou dados de volume de negociações em diversos mercados financeiros e os cruzou com algumas das declarações mais relevantes de Trump com impacto sobre os mercados (e os valores negociados).

A análise feita pela BBC identificou um padrão consistente de picos de movimentações que ocorrem horas, às vezes minutos, antes de uma publicação em redes sociais ou de uma entrevista à imprensa se tornar pública.

Alguns analistas dizem que isso apresenta características de uso ilegal de informação privilegiada, quando operações são feitas com base em informações que não estão disponíveis para o público em geral.

Outros afirmam que o quadro é mais complexo e que alguns investidores se tornaram mais hábeis em antecipar as intervenções do presidente (sem, portanto, se valer de informações privilegiadas).

A seguir, cinco dos exemplos mais significativos identificados pela BBC.

9 de março de 2026: 'A guerra [no Irã] está praticamente concluída'

Alguns dos maiores movimentos ocorreram em operações com petróleo no mercado futuro.

Nove dias após o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, Trump afirmou à CBS News, emissora parceira da BBC nos EUA, em entrevista por telefone, que o conflito estava "praticamente concluído".

Um gráfico de barras e um gráfico de linha, intitulados “Volume de negociações de petróleo dispara antes de entrevista à CBS derrubar os preços”, mostram o volume de negociações e o preço por barril dos contratos futuros do petróleo Brent na noite de segunda-feira, 9/03/2026. O gráfico de linha mostra que os contratos futuros de Brent eram negociados pouco abaixo de US$ 100 por barril às 18h00, mas caíram acentuadamente após a divulgação da entrevista de Trump, atingindo US$ 85 às 19h39, antes de uma leve recuperação para US$ 90 às 20h00. Fonte: Bloomberg

Os horários aqui estão de acordo com o fuso do meridiano de Greenwich (GMT, 3 horas à frente do horário de Brasília).

  • 18h29: apostas no petróleo disparam
  • 19h16: Trump diz que a guerra está praticamente concluída
  • 19h17: Cotação do petróleo cai 25%

A primeira vez que o público tomou conhecimento da entrevista foi às 19h16, quando um jornalista publicou sobre o assunto na rede social X (antigo Twitter).

Operadores do mercado reagiram à notícia de que o conflito poderia terminar muito antes do esperado, vendendo contratos, o que fez o preço cair cerca de 25%.

No entanto, dados de mercado mostram que houve um forte aumento nas apostas na queda do preço do petróleo às 18h29, 47 minutos antes da publicação do jornalista.

Os operadores que fizeram essas apostas teriam lucrado milhões de dólares com essa movimentação dos preços do petróleo.

23 de março de 2026: 'resolução completa e total das nossas hostilidades'

Em 23/3, apenas dois dias depois de ter ameaçado "aniquilar" as usinas de energia do Irã, Trump publicou na rede Truth Social que os EUA havia mantido "CONVERSAS MUITO BOAS E PRODUTIVAS" com o Irã sobre uma "RESOLUÇÃO COMPLETA E TOTAL" das hostilidades.

Foi uma grande surpresa para os especialistas em diplomacia e operadores do mercado.

Um gráfico de barras e um gráfico de linha, intitulados “Negociações de petróleo voltam a disparar antes de publicação de Trump sobre o Irã movimentar os preços”, mostram o volume de negociações e o preço por barril dos contratos futuros do petróleo Brent na manhã de segunda-feira, 23/03/2026

O gráfico de linha mostra que os contratos futuros de Brent eram negociados pouco abaixo de US$ 113 por barril às 10h30, mas caíram acentuadamente após a divulgação da entrevista de Trump, atingindo US$ 97 às 11h08, antes de uma leve recuperação para US$ 104 às 11h30.

Horários no fuso do meridiano de Greenwich (GMT, 3 horas à frente do horário de Brasília):

  • 10h48 – 10h50: apostas em queda do petróleo disparam
  • 11h04: Donald Trump faz um post sobre "resolução total" das hostilidades
  • 11h05: petróleo cai 11%

Imediatamente, as bolsas subiram e o preço de referência do petróleo nos EUA, que vinha em alta, recuou de forma acentuada.

Como a BBC reportou à época, 14 minutos antes da publicação do presidente houve um número incomumente elevado de apostas sobre o preço do petróleo nos EUA.

O mesmo padrão foi observado em operações com contratos de petróleo Brent, o outro principal indicador de referência.

As negociações pareciam "anormais, com certeza", disse um analista de petróleo à BBC na ocasião.

9 de abril de 2026: pausa do 'Dia da Libertação'

Para além da guerra no Oriente Médio, há outros exemplos de atividade de negociação que levantaram suspeitas.

Em 2 de abril de 2025, Trump anunciou o que chamou de "Dia da Libertação" (Liberation Day, em inglês), um amplo pacote de tarifas sobre produtos de praticamente todos os países do mundo.

As bolsas ao redor do mundo despencaram.

Mas, uma semana depois, quando Trump anunciou uma "pausa" de 90 dias nas tarifas para todos os países, exceto a China, os mercados acionários dispararam.

O índice de referência S&P 500 subiu 9,5%, um dos maiores ganhos em um único dia desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Os horários aqui estão novamente de acordo com o fuso GMT (três horas à frente do horário de Brasília).

  • 17h00: operadores começam a fazer grandes apostas na alta do mercado acionário
  • 17h18: Trump anuncia pausa nas tarifas
  • 17h19: mercado de ações começa uma alta histórica

Mais uma vez, um padrão de negociações incomuns aconteceu esses eventos, com um número excepcionalmente alto de apostas antes do anúncio em um fundo que acompanha o S&P 500. O número de contratos negociados saltou para mais de 10 mil por minuto logo após as 17h. Mais cedo naquele dia, esse número estava na casa das centenas.

Alguns operadores apostaram mais de US$ 2 milhões (cerca de R$ 10 milhões) na alta do mercado naquele dia, mesmo após sete dias consecutivos de queda. A forte disparada pode ter gerado um lucro de quase US$ 20 milhões (cerca de R$ 100 milhões).

Mais tarde, naquela semana, vários senadores democratas dos EUA escreveram à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) pedindo que o órgão regulador investigasse se os anúncios do presidente "beneficiaram pessoas próximas à sua administração e aliados, às custas do público americano".

Questionado pela BBC se havia analisado essas alegações, um porta-voz da SEC se recusou a comentar.

A Casa Branca, por sua vez, não respondeu a um pedido de comentário da BBC sobre qualquer uma das atividades de negociação incomuns analisadas neste relatório.

3 de janeiro de 2026: Maduro é capturado

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, segura a espada de Simón Bolívar enquanto se dirige a membros das Forças Armadas

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Um usuário ganhou US$ 436.000 (cerca de R$ 2,2 milhões) apostando que Nicolás Maduro deixaria o cargo até o final de janeiro
  • Dezembro de 2025: conta Burdensome-Mix é criada
  • 2 de janeiro de 2026: conta aposta US$ 32 mil (cerca de R$ 160 mil) na queda de Maduro
  • 3 de janeiro de 2026: Maduro é capturado e Burdensome-Mix ganha US$ 436 mil (cerca de R$ 2,2 milhões)

O crescimento recente dos mercados de previsão online também tem atraído atenção de observadores.

Plataformas baseadas em blockchain — uma espécie de banco de dados descentralizado que usa criptografia para registrar transações —, como Polymarket e Kalshi, oferecem aos usuários a possibilidade de especular sobre temas que vão do clima e do beisebol à política externa dos EUA.

Donald Trump Jr., filho do presidente americano, é investidor da Polymarket e integra seu conselho consultivo. Ele também atua como conselheiro estratégico da Kalshi e foi procurado pela BBC para comentar.

Em dezembro de 2025, um usuário criou na Polymarket uma conta chamada Burdensome-Mix. Em 30 de dezembro de 2025, fez sua primeira aposta de que o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deixaria o cargo até o fim de janeiro de 2026.

Entre 30 de dezembro de 2025 e 2 de janeiro de 2026, a conta apostou em um total de US$ 32,5 mil (cerca de R$ 160 mil).

Quando Maduro foi capturado por forças especiais dos EUA e retirado do poder no dia seguinte, a conta Burdensome-Mix ganhou US$ 436 mil (cerca de R$ 2,2 milhões).

Pouco depois, a conta mudou de nome de usuário e não fez mais apostas.

28 de fevereiro de 2026: ataques ao Irã

  • Fevereiro de 2026: seis contas são criadas na Polymarket e posteriormente apostam que ataque ao Irã ocorreria até 28 de fevereiro
  • 28 de fevereiro de 2026: EUA e Israel atacam o Irã e contas ganham US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 6 milhões)

Segundo o site de análise de blockchain Bubblemaps, seis contas foram criadas na Polymarket em fevereiro.

Todas fizeram apostas de que um ataque dos EUA ao Irã ocorreria até 28 de fevereiro de 2026. Quando os ataques foram confirmados por Trump, nas primeiras horas daquele dia, as contas lucraram, juntas, cerca de US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 6 milhões).

Cinco desses seis usuários não fizeram mais apostas desde então, mas a atividade recente de uma das contas indica que ela posteriormente ganhou US$ 163 mil (cerca de R$ 820 mil) ao apostar corretamente em um cessar-fogo entre EUA e Irã até 7 de abril de 2026, anunciado pelos países naquele dia.

A Polymarket afirmou à BBC que "estabelece, mantém e aplica os mais altos padrões de integridade de mercado", acrescentando que trabalha "de forma proativa" com reguladores e autoridades para isso.

Em março deste ano, tanto a Polymarket quanto a Kalshi anunciaram novas regras para combater o uso de informação privilegiada.

Os mercados de previsão estão sob a jurisdição da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC, na sigla em inglês).

A CFTC não respondeu a um pedido de comentário da BBC, mas seu presidente disse recentemente a um comitê do Congresso que a agência tem "tolerância zero" com fraude e uso de informação privilegiada.

Também veio à tona que a Casa Branca enviou um e-mail interno a funcionários no mês passado, alertando para que não utilizem informações privilegiadas para fazer apostas em mercados de previsão.

O porta-voz Davis Ingle disse à BBC, na ocasião, que "qualquer insinuação de que autoridades do governo estejam envolvidas nesse tipo de atividade sem evidências é infundada e irresponsável".

Difícil de provar

O uso de informação privilegiada é ilegal para a maioria dos americanos desde a aprovação da Lei de Valores Mobiliários de 1933.

A legislação foi ampliada em 2012 para incluir autoridades do governo dos EUA, embora até hoje ninguém tenha sido processado com base nessa norma.

Paul Oudin, professor especializado em direito da regulação financeira na ESSEC Business School, na França, afirma que as regras são difíceis de aplicar.

"As autoridades financeiras não levam adiante um processo se não conseguem identificar a fonte da informação", diz Oudin.

Nenhuma das autoridades financeiras dos EUA contactadas pela BBC reconheceu as acusações de uso de informação privilegiada.

"É possível haver grandes operações em um ativo financeiro que indicam claramente que alguém tinha acesso prévio ao que Donald Trump estava prestes a anunciar", afirma Oudin.

"No entanto, há uma grande probabilidade de que ninguém seja processado", acrescenta.

Gráficos de Tommy Lumby