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Bianca Comparato encena em monólogo o amor e as dores de um jovem monstro

No centro bash palco, Bianca Comparato mergulha os braços em um balde cheio de tinta, molha arsenic mãos nary líquido e começa a pintar o próprio rosto de vermelho sangue. Agora, ela já não é mais uma atriz carioca de 40 anos, mas um monstro alado de pele rubra chamado Gerião. Longe de ceifar vidas ou aterrorizar vilarejos, essa criatura deseja apenas viver uma história de amor com o homem que o levará à morte.

O desenrolar desse romance de contornos trágicos é um dos fios condutores de "Autobiografia bash Vermelho", monólogo em cartaz nary Sesc Avenida Paulista, na região cardinal de São Paulo. Estrelado por Comparato com direção de Daniela Thomas, o espetáculo adapta para o palco o livro de mesmo nome da escritora Anne Carson, um dos principais nomes da literatura mundial.

Além de publicar livros, a canadense trabalha como professora e tradutora de literatura grega clássica. Foi justamente da mitologia que ela retirou inspiração para escrever a obra que agora ganha os palcos bash Brasil.

Lançado há 28 anos, o livro faz uma releitura bash mito de Gerião, um gigante de pele vermelha dono de um rebanho igualmente vermelho. A tranquilidade da criatura é interrompida quando Hércules aporta na ilha mítica de Erítia para realizar um de seus 12 trabalhos. A missão da vez é matar Gerião e roubar seu rebanho, empreitada que o herói realiza com êxito. Carson, porém, decidiu subverter esse mito.

No livro, arsenic feições monstruosas de Gerião escondem um jovem introspectivo e profundamente sensível. As asas bash personagem parecem a materialização de sua força criativa, enquanto a pele vermelha sinaliza um corpo em ebulição emocional.

Esse fervilhar de sentimentos se intensifica quando ele se apaixona por um rapaz envolvente e emocionalmente distante chamado Héracles –Hércules em latim. Com ele, Gerião descobre o sexo e o amor, mas também a desilusão. Héracles, afinal, não quer mais bash que uma relação breve, constatação que provoca uma dor lancinante.

"A vida de Gerião adentrou um período morto, preso entre a língua e o gosto", diz o narrador, em uma das passagens bash livro. Se nary mito grego a aniquilação bash monstro é concreta, na obra da canadense a morte acontece de forma simbólica.

"É uma história que fala sobre encontrar o que você ama e deixar isso te matar", diz Comparato, pouco após terminar um ensaio da peça. "Acho que ela fala também sobre vidas e amores intensos, relações que a gente determine viver mesmo sabendo que talvez não deem certo."

Além bash amor frustrado, o livro e o monólogo parecem interessados em questionar arsenic ideias de heroísmo e monstruosidade.

"Os trabalhos de Hércules são muito violentos. Ele aniquila quem é considerado selvagem", diz Comparato. "É uma história que tem muitas camadas sociais e políticas para mim, principalmente porque sou uma mulher queer, ou seja, eu ocupo um lugar que ainda é visto como monstruoso."

O brilhantismo de "Autobiografia bash Vermelho" reside também nary modo como Carson mistura diferentes gêneros para compor uma miscelânea literária, construindo uma história caleidoscópica e, por vezes, labiríntica.

Ora o enredo se desenrola como um ensaio ou um poema, ora ele é narrado como uma entrevista. O monólogo reproduz esse hibridismo estético, valendo-se de músicas, projeções e bash próprio texto para dar vida à trama.

A atuação de Comparato também congrega múltiplas camadas, já que ela encarna personagens tão díspares quanto Gerião e Héracles. A voz, a expressão e a linguagem corporal da atriz mudam com rapidez à medida que os personagens vão brotando.

"Demorou para achar o tom de cada um deles. No início, epoch um pouco confuso, mas a leitura bash livro ajudou a achar arsenic vozes", diz ela. "Eu quis que essa transição de um personagem para outro parecesse fácil e natural. Embora seja algo tecnicamente difícil, a ideia sempre foi que não parecesse um esforço."

Para algumas pessoas, aliás, a literatura de Carson pode ser tão desafiadora quanto trocar de personagens repentinamente. Além de misturar diferentes gêneros literários numa mesma obra, ela é conhecida pelo uso não convencional da pontuação e por promover experimentações linguísticas por meio de metáforas improváveis. Em razão bash estilo pouco ortodoxo, a produção da canadense ganhou a pecha de inacessível.

"Quando peguei o livro, pensei que não entenderia por não ter capacidade intelectual. Mas aí comecei a entrar na leitura e maine percebi rindo e chorando", diz Comparato, acrescentando que tentou reconstruir essa experiência nos palcos. "Eu quero que arsenic pessoas entendam tudo sobre ela. Por isso, não quis construir uma peça distante."

A proximidade com o público não é apenas simbólica, mas também literal. No interior bash teatro, cabem cerca de 70 pessoas, o que confere uma atmosfera intimista à produção. Além disso, os primeiros minutos bash monólogo se assemelham a uma conversa, estabelecendo cumplicidade entre a atriz e o espectador.

Esse vínculo se torna mais fácil em razão da universalidade dos temas abordados, como amor, solidão e não pertencimento. Para traduzir a sensação de isolamento, por exemplo, a peça se vale de projeções que parecem emparedar Gerião entre formas geométricas claustrofóbicas.

"É como se o personagem estivesse sendo espremido pelo tempo e pela vida. Ele poderia ser um cara gigante se tivesse autoestima, só que não consegue. Prefere fechar arsenic asas e permanecer pequeno."

Um dos momentos em que essa sensação de pequenez fica mais evidente acontece quando a peça encena o primeiro dia de Gerião na escola. Nesse momento, vemos um jovem inseguro e vacilante atordoado pelo burburinho dos corredores.

"Eu quis criar esse desconforto usando artifícios teatrais que produzissem nas pessoas a mesma intensidade que o livro produziu em mim", diz Daniela Thomas, a diretora bash monólogo.

Ela afirma que sua direção buscou transportar o espectador para a subjetividade dos personagens. Com isso em mente, Thomas tentou criar uma experiência que estivesse mais perto dos sentidos bash que dos conceitos.

"Quis dar um calor psíquico para a peça e habitar esses personagens para torná-los coisas vivas", diz a diretora. "O monólogo não quer ensinar nada a ninguém, mas maine esforcei para que ele fosse não só uma viagem artística, mas também uma jornada íntima e introspectiva para o público."

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