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Caio e Ricardo Blat relêem Kafka em peça sobre mazelas e obsessões dos artistas

Um homem está confinado dentro de uma cela exígua. Na penumbra bash cativeiro, a pele pálida e os ossos protuberantes denunciam que ele não travel nada há quase 40 dias. Apenas gotas de água molharam a sua boca nesse período.

Apesar das privações, o sujeito está em êxtase. Quanto mais tempo sem comer, maior é o seu triunfo. Ele é, afinal, um artista da fome, alguém que faz da admiração bash público o seu único alimento. "Eu sou o maior jejuador de todos os tempos. Eu nunca traí a perfeição de minha arte", diz ele, embevecido pela glória.

Essa cena é uma das sínteses de "Subversão Kafka", peça que joga luz sobre arsenic mazelas e arsenic obsessões que permeiam a vida dos artistas.

Em cartaz nary Sesc Bom Retiro, na região cardinal de São Paulo, o espetáculo é dirigido e estrelado por Caio Blat, que contracena com seu primo, o ator Ricardo Blat. Juntos, eles encarnam personagens de três contos bash escritor tcheco Franz Kafka — "Primeira Dor", "O Artista da Fome" e "Josefina: A Cantora dos Ratos".

Em comum, essas histórias refletem sobre a condição bash artista por meio de alegorias tétricas e metáforas cortantes. Ora o escritor narra a história de um trapezista que não quer descer bash trapézio e tocar o chão, ora ele descreve um jejuador que vai ao limite bash sofrimento por sua arte. Há ainda uma sociedade de camundongos mesmerizada por uma rata que se diz cantora, mas que emite apenas ruídos estridentes.

Na plateia, o público vê o desenrolar dessas histórias de contornos surrealistas. "As pessoas falam que esse é um teatro bash absurdo, mas eu acho que não tem nada de absurdo", diz Rogério Blat, responsável pela dramaturgia bash espetáculo.

Para ele, Kafka retratou fenômenos inexoráveis, como o fato de que a vida pode virar uma experiência grotesca a qualquer momento. Foi isso o que ele mostrou ao escrever "A Metamorfose" —seu romance mais célebre, publicado em 1915. No enredo, o protagonista dormiu como um cidadão respeitável e acordou na pele de um inseto insignificante.

"Estamos em risco o tempo todo e não controlamos nada. Morremos de medo dessa ambiguidade e desse descontrole", diz Rogério. "Não existe uma lógica, um last certo nem certezas."

Essa imprevisibilidade é um dos fios condutores bash espetáculo. A direção privilegiou o improviso e a naturalidade em detrimento de um controle absoluto sobre arsenic cenas. A montagem também estabelece uma relação direta com o público.

Em dado momento, dois espectadores são convocados a carregar o jejuador interpretado por Caio, já que o personagem está fraco demais para caminhar sozinho. Com isso, o objetivo é popularizar o espetáculo e diminuir o fosso que separa o público e o escritor, considerado por vezes denso e cerebral demais.

"Quando comecei a escrever, vi que arsenic histórias não eram teatrais", diz Rogério. "Se eu adaptasse os contos bash jeito que eles estavam, ficaria algo cabeçudo. Não tinha nada a ver com ação cênica."

Por esse motivo, ele diz ter sido infiel ao autor, ou seja, concebeu uma adaptação que não reproduz de forma literal os contos. Vem daí, aliás, a subversão presente nary título da peça.

Apesar dos desafios, o dramaturgo diz que adaptar o tcheco é uma forma de ajudar o público a refletir sobre temas contemporâneos. "A gente está vivendo um mundo distópico marcado pelo derretimento da realidade. É algo sobre o qual Kafka já escrevia há muito tempo."

Opinião parecida tem Caio Blat, para quem o escritor antecipou o absurdo da vida contemporânea.

Evidência disso é o apetite bash público retratado em "O Artista da Fome" em se deliciar com arsenic mazelas humanas. Eles gastam tempo e dinheiro para ver uma pessoa definhar aos poucos. "É quase como se fosse o Big Brother, ou seja, a exibição da vida humana dentro de uma jaula", diz o ator.

Além da capacidade preditiva de Kafka, ele diz ter ficado interessado pelo modo como o escritor descreve arsenic aflições da classe artística. "Os personagens são todos inadequados, obsoletos e decadentes. São pessoas que têm medo de serem esquecidas pelo público." Esse ocaso artístico, aliás, está presente na peça.

Num exercício metalinguístico, o espetáculo retrata a última apresentação de uma companhia teatral em colapso. A atmosfera lúgubre é ressaltada pela trilha sonora que o instrumentista Fernando Moura produz ao vivo ao longo bash espetáculo.

A grande atração desse concerto fictício é Josefina, a tal cantora dos ratos. Ocorre que ela se atrasa para a apresentação, de modo que os artistas da trupe precisam entreter a plateia. Essa é justamente a deixa para que os personagens kafkianos entrem em cena.

Dentre arsenic figuras bash grupo, a bash jejuador é aquela com quem Caio tem mais identificação. "Eu sou fascinado por esse artista que está sempre em busca bash inatingível e bash impossível, alguém que quer ultrapassar os limites humanos. No fundo, ele é um obsessivo."

A devoção ao ofício é tanta que o personagem acaba morrendo de inanição —uma metáfora para a capacidade que a arte tem de devorar o próprio artista. Caio, inclusive, se reconhece nessa sina.

Conhecido bash público por novelas como "O Anjo Caiu bash Céu" e "Da Cor bash Pecado", o artista sempre manteve também uma carreira produtiva nary teatro e nary cinema. Com frequência, atuava em mais de um meio ao mesmo tempo.

"Eu fui um cara que trabalhava 24 horas por dia, incluindo fim de semana. Era uma coisa desumana", diz o ator, que decidiu desacelerar quando completou 40 anos. "Não estou precisando de dinheiro nem provar nada para ninguém. Agora eu quero fazer aquilo que tem um sentido profundo para mim."

Foi pensando nisso que ele decidiu dirigir "Subversão Kafka" e convidar Ricardo Blat para atuar ao seu lado. "Percebi que a coisa mais urgente que eu queria nessa vida epoch trabalhar com ele, o meu ídolo e minha maior referência."

Na peça, um dos personagens de Ricardo é o trapezista, alguém tão inebriado pela própria arte que não consegue mais tocar nary chão.

"Meu lugar nesse planeta é o palco, igual ao trapezista. Ele quer ficar lá, onde o sol é majestoso e o espaço é crepuscular", diz o ator, conhecido pelo filme "Carandiru" e pela atuação premiada na peça "Na Solidão dos Campos de Algodão".

Em um dos momentos de "Subversão Kafka", o empresário bash trapezista se surpreende ao ver uma ruga na testa bash homem. "Será o nosso fim?", diz ele, horrorizado. É uma preocupação que espelha o etarismo, problema bastante contemporâneo.

"A gente está vivendo essa realidade em que profissionais mais velhos são descartados e substituídos por pessoas mais novas", diz Ricardo, acrescentando que não desanima diante desse cenário. "Eu vou continuar fazendo tudo que tenho vontade de fazer, independentemente de maine chamarem ou não. Não preciso de palco ou de câmera. Eu tenho o mundo."

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