O presidente dos EUA, Donald Trump, veste terno azul-escuro e gravata vermelha enquanto fala ao microfone em um palco com um grande letreiro da Nasa ao fundo, em letras vermelhas, em 30 de maio de 2020

Crédito, Getty Images

    • Author, Bernd Debusmann Jr
    • Role, Correspondente da BBC News na Casa Branca
  • Há 25 minutos

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A primeira viagem ao espaço profundo – muito além da órbita da Terra – desde 1972 ocorre em um momento crucial da Presidência do americano Donald Trump.

Assim, uma bem-sucedida missão Artemis, que enviará quatro astronautas à Lua nesta quarta-feira (1º/4), pode dar impulso ao governo Trump.

Os benefícios potenciais são grandes: uma vantagem competitiva em relação à China, a possibilidade de uma corrida por recursos lunares e um raro momento de unidade nacional.

Oficialmente, a missão — que levará a tripulação mais longe no espaço do que qualquer pessoa já foi — é um passo intermediário, segundo a Nasa (agência espacial americana), rumo a uma base lunar permanente e, eventualmente, ao planeta Marte.

'Estrelas e listras no planeta Marte'

Embora o interesse dos EUA em retornar à Lua seja anterior à sua entrada na política, Trump criou diretamente o que viria a ser o programa Artemis em seu primeiro mandato (2017-2021), ao prometer "lançar astronautas americanos para fincar estrelas e listras (em referência a bandeira americana) no planeta Marte".

Ele também viu oportunidades militares e criou um novo braço do Pentágono, a Força Espacial.

Em seu segundo mandato, no entanto, o objetivo de Trump mudou para a Lua. Em dezembro do ano passado, ele assinou uma ordem executiva que prevê o retorno dos EUA à Lua até 2028 e o estabelecimento de uma base permanente no local até 2030.

A ordem afirma que a superioridade americana no espaço é uma medida da visão nacional e da força de vontade do país, contribuindo para sua força, segurança e prosperidade.

A ordem executiva não mencionou a concorrência lunar com a China, um fator que o administrador da Nasa, Jared Isaacman, destacou publicamente.

"Nos encontramos diante de um verdadeiro rival geopolítico, que desafia a liderança americana na disputa pela supremacia espacial", disse Isaacman em um evento da Nasa em 24 de março.

"Desta vez, o objetivo não são bandeiras e pegadas", acrescentou. "Desta vez, o objetivo é permanecer. Os EUA nunca mais abrirão mão da Lua."

Batalha por influência ideológica na Terra

Durante a corrida espacial na Guerra Fria (1947-1991) com os soviéticos, o objetivo de chegar à Lua era quase inteiramente geopolítico.

Com os EUA e a Rússia envolvidos em uma disputa por influência ideológica na Terra, o espaço se tornou mais uma arena para demonstrar superioridade tecnológica, algo que, para os EUA, se tornou cada vez mais urgente após o lançamento soviético do Sputnik, em 1957 — o primeiro satélite do mundo — causar impacto no país.

Sputnik 1, uma esfera metálica polida com quatro antenas de rádio externas, sobre um fundo preto

Crédito, Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images

Legenda da foto, O lançamento soviético do Sputnik em 1957 — o primeiro satélite do mundo — foi um alerta para os EUA

O então presidente dos EUA, John F. Kennedy, tornou a missão explicitamente política, tanto em público quanto em privado.

"Isso é importante por razões políticas", disse Kennedy em uma conversa gravada na Casa Branca em 1962, posteriormente desclassificada, com o administrador da Nasa, James Webb. "Isso é, gostemos ou não, uma corrida."

A nova corrida pela Lua envolve os EUA e a China, além dos planos em constante mudança para colocar astronautas na superfície lunar nos próximos anos.

A exploração da Lua pode ter um ângulo econômico potencialmente lucrativo num momento em que os dois países travam disputas comerciais.

Sean O'Keefe, ex-gestor da Nasa, afirmou à BBC que os países que pousarem na Lua terão a vantagem de explorar e desenvolver os recursos disponíveis.

"Depois de todos esses anos pensando que a Lua não passava de um monte de poeira, nós entendemos que ela tem uma quantidade enorme de hélio-3", disse O'Keefe, acrescentando que o elemento pode ser potencialmente usado para operar compactos reatores nucleares com uma certa durabilidade.

"Isso abre uma série de oportunidades."

Além disso, a Lua tem água em estado sólido, o que pode ser usado para foguetes de propulsão, e também tem terras raras como lítio, platina e outros materiais essenciais para eletrônicos e tecnologias de energia limpa.

No planeta Terra, o mercado de terras raras é dominado pelas operações chinesas de mineração, algo tido como um ponto de preocupação do governo Trump.

O valor desses recursos disponíveis na Lua ainda não foi calculado, mas pode ser gigantesco. O hélio-3 sozinho atualmente é negociado por mais de US$ 20 mil por grama (cerca de R$ 103 mil), sendo um dos recursos mais valiosos da Terra.

'Corrida ao ouro na Lua'

Clayton Swope, veterano do Diretório de Ciência e Tecnologia da CIA (agência de inteligência dos EUA) e ex-conselheiro de assuntos espaciais no Congresso americano, compara a "corrida ao ouro na Lua" à expedição de Lewis, Clark e Sacagawea pelo Oeste americano no início dos anos 1800.

"Nós não sabíamos direito o valor da porção ocidental dos EUA, do Noroeste-Pacífico, mas nós sabíamos que estavam lá", afirma Swope.

"Parte da missão lunar é tentar descobrir o valor daquilo. Nós não podemos colocar um preço ou um punhado de dólares na Lua, mas não podemos escapar da competição e da rivalidade com a China."

O governo Trump certamente vê o espaço como outra arena para os EUA exercerem seu domínio.

"Sob as políticas de 'América Primeiro' do presidente Trump, os EUA vão liderar a humanidade no espaço e entrar em uma nova era de feitos transformadores na tecnologia e na exploração espacial", afirma Liz Huston, porta-voz do governo americano.

A geração de Trump cresceu em meio às imagens do astronauta Neil Armstrong dando em julho de 1969 os históricos primeiros passos na Lua, que também estão marcados na consciência coletiva.

A pegada humana de Neil Armstrong na superfície da Lua, em preto e branco

Crédito, NASA/Newsmakers

Legenda da foto, A geração de Trump cresceu com imagens do astronauta Neil Armstrong dando seus históricos primeiros passos na Lua em julho de 1969

Em 1969, os EUA viviam um período conturbado.

Soldados americanos lutavam e morriam numa impopular guerra no Vietnã. Havia tensões relacionadas à luta por direitos civis. Os assassinatos do reverendo Martin Luther King e do político Robert Kennedy ainda eram sentidos pelo país. E a divisiva figura de Richard Nixon ainda ocupava a Casa Branca.

Apesar das divisões políticas, estima-se que algo entre 125 milhões e 150 milhões de americanos tenham assistido ao pouso da Apollo 11 na Lua, num raro momento de orgulho nacional num período difícil da história americana. A população dos EUA estimada em 1969 era de 202 milhões de pessoas.

Gráfico resume como será missão artemis

Foguete e nave da missão artemis

Orgulho nacional

Alguns especialistas afirmam que a missão Artemis poderia replicar isso em 2026, num momento em que os americanos estão novamente polarizados e em guerra com outro país.

"O espaço é uma das poucas áreas que americanos com diferentes visões políticas pode curtir e assistir juntos", diz Esther Brimmer, pesquisadora sênior especialista em políticas para o espaço do think tank (centro de estudos e debates) Council of Foreign Relations.

"O programa espacial é algo com que muitos americanos cresceram e que é visto como um ponto de orgulho", acrescenta Brimmer. "É bastante unificador em termos de impacto social."

A Artemis II, da Nasa, é retirada do Vehicle Assembly Building, no Centro Espacial Kennedy da Nasa, enquanto a bandeira dos EUA aparece em primeiro plano

Crédito, Joe Raedle/Getty Images

Legenda da foto, "O programa espacial é algo com o qual a maioria dos americanos cresceu e vê como motivo de orgulho", disse Esther Brimmer, pesquisadora sênior no Council on Foreign Relations

O astrofísico David Gerdes tinha cinco anos quando Armstrong caminhou na Lua.

"Uma das minhas primeiras memórias é terem me deixado ficar acordado além da minha hora habitual de dormir, cochilando sob um cobertor em frente à nossa TV em preto e branco, assistindo Walter Cronkite reportando o pouso da Apollo 11", conta Gerdes, atualmente professor na Case Western Reserve University, em Ohio, nos EUA.

"Muitas e muitas pessoas de todas as idades foram inspiradas pela tecnologia, pela bravura e pelo espírito dos astronautas."

Por um momento, Gerdes acrescenta, aquilo transcendeu divisões partidárias.

"De fato, eu espero que o retorno à Lua por um grupo mais diverso de americanos do que aqueles que participaram da missão na década de 1960 possa realmente ajudar a unir o país."