O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, falando ao telefone celular

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    • Author, Katya Adler
    • Role, Editora de Europa, BBC News
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Ele afirmou, em uma postagem no X, que o objetivo da sua visita era "fortalecer a proteção de vidas".

Ele soube aproveitar sua viagem ao Golfo para demonstrar publicamente o valor e a viabilidade comercial da experiência militar adquirida pelo seu país no campo de batalha, particularmente em relação aos combates com drones.

A Ucrânia afirma ter assinado acordos com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar — três países atingidos por mísseis e drones iranianos nas últimas semanas.

Seu objetivo é compartilhar conhecimentos e tecnologia de drones, estreitar alianças e se beneficiar de intercâmbios comerciais com países ricos e aliados dos Estados Unidos — e, com um pouco de sorte, também dos acordos de defesa.

"Queremos ajudar [os Estados do Golfo] a se defenderem", declarou Zelensky. "E continuaremos formando este tipo de aliança com outros países."

Pressão energética

A primeira impressão era que os impactos do conflito no Irã seriam muito negativos para a Ucrânia.

A guerra no Oriente Médio ameaçava desviar a já vacilante atenção do presidente americano, Donald Trump, dos esforços de paz entre Moscou e Kiev. E, ao mesmo tempo, injetava dinheiro nos cofres russos que financiam a guerra e estavam se esvaziando rapidamente.

Moscou conseguiu vender mais petróleo para mais países, a preços mais altos. Afinal, os navios que transportam o produto do Oriente Médio não conseguem chegar aos seus clientes globais, cruzando o estreito de Ormuz, vizinho ao Irã.

Trump renovou uma exceção às sanções americanas, permitindo que os países comprem petróleo russo sancionado devido ao aumento vertiginoso dos preços no mercado mundial.

Quanto mais dinheiro tiver a Rússia, por mais tempo poderá se prolongar a guerra na Ucrânia. E, teoricamente, com mais intensidade.

Mas Kiev vem desafiando constantemente as expectativas internacionais, desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. E, agora, surge uma nova surpresa.

A Ucrânia joga com destreza para tentar transformar o impacto da guerra no Irã em vantagem, enquanto procura manter o máximo possível de força, frente às possíveis e esperadas negociações de paz com Moscou.

Zelensky se reúne com o vice-governador da região de Meca, o príncipe Saud bin Mishaal bin Abdulaziz, durante sua visita à Arábia Saudita.

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Legenda da foto, A Ucrânia demonstra aos países do Golfo sua perícia no campo de batalha

No final de abril, Trump declarou que confiava em poder atingir uma "solução" sobre a Ucrânia de forma "relativamente rápida", após uma conversa "muito boa" com o presidente russo, Vladimir Putin.

"Acredito que 'algumas pessoas' tenham dificultado para que ele chegasse a um acordo", afirmou o presidente americano.

Esta não é a primeira vez que Trump faz comentários positivos sobre Putin, ao mesmo tempo em que critica Zelensky, implícita ou explicitamente, por não assinar um cessar-fogo.

Até o momento, não se materializou nenhuma "solução". Enquanto isso, Zelensky se dedica a fortalecer a Ucrânia o quanto pode. E o oportunismo parece ser uma das suas armas mais poderosas.

Em abril, o presidente ucraniano voltou a visitar a Arábia Saudita. Ele afirma que o país enfrenta o mesmo tipo de ataques com mísseis balísticos e drones iranianos que a Ucrânia recebe da Rússia.

Uma das armas mais poderosas de Moscou é o drone de ataque Shahed-136, de longo alcance e baixo custo, projetado pelo Irã, além da sua própria versão atualizada, o drone Geran.

Um drone Shahed pode custar entre US$ 80 mil e US$ 130 mil (cerca de R$ 400 mil a R$ 650 mil). Mas Zelensky afirma que ele pode ser interceptado com sistemas que custam apenas US$ 10 mil (cerca de R$ 50 mil).

Este valor é muito inferior ao dos mísseis tradicionais de defesa aérea, que custam milhões de dólares.

Mulher vestida de rosa, em meio às ruínas após um ataque russo na Ucrânia

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Legenda da foto, Enquanto prosseguem os ataques russos contra a Ucrânia, Donald Trump declarou acreditar em um cessar-fogo 'relativamente rápido'

A Ucrânia assinou em abril dois importantes acordos de cooperação com aliados europeus em matéria de defesa.

Um deles foi com a Noruega, no valor de US$ 8,6 bilhões (cerca de R$ 43 bilhões), como parte de um pacote de ajuda de US$ 28 bilhões (cerca de R$ 140 bilhões) até 2030.

O outro foi com a Alemanha. O acordo inclui "diversos tipos de drones, mísseis, software e modernos sistemas de defesa", no valor de US$ 4,7 bilhões (cerca de R$ 23,5 bilhões).

Em relação aos Estados do Golfo, Zelensky afirmou esperar seu apoio na defesa da Ucrânia frente à Rússia.

Este apoio é especialmente importante porque, no momento, os Estados Unidos dispõem de menos material militar para vender aos europeus a fim de ajudar a Ucrânia, já que Washington vem esgotando seus estoques no Oriente Médio.

"Fazemos isso todo o tempo", declarou Trump, questionado sobre o redirecionamento de armas. "Às vezes, tiramos de um lugar e usamos em outro."

"Gostaríamos que os Estados do Oriente Médio também nos dessem a oportunidade de nos fortalecermos", declarou recentemente Zelensky ao jornal francês Le Monde.

"Eles dispõem de certos mísseis de defesa aérea que não temos em quantidade suficiente. Gostaríamos de fazer um acordo a este respeito."

Atacar a infraestrutura

A Ucrânia também aprendeu uma lição importante com o conflito no Irã, para aplicá-la no seu território: o impacto devastador de atacar as instalações de exportação de petróleo do seu oponente.

Por isso, a infraestrutura energética da Rússia passou a ser um alvo prioritário para os drones de longo alcance fabricados na Ucrânia.

Zelensky afirma que a Rússia está sofrendo perdas "críticas" no seu setor energético, da ordem de bilhões de dólares, mesmo com o recente aumento dos preços mundiais do petróleo.

Os dados sobre a exportação de petróleo indicam que a alta dos preços, aliada à flexibilização das sanções americanas, impulsionou a receita de Moscou, na terceira semana da guerra no Irã, em até 2,3 vezes seus níveis de dezembro a fevereiro.

Mas, na quarta semana, os ataques com drones ucranianos contra a infraestrutura petrolífera reduziram a receita da Rússia em US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões), eliminando cerca de dois terços da receita obtida na semana anterior.

Outra vantagem para a Ucrânia das repercussões da guerra no Irã foi a luz verde finalmente obtida no final de abril para um empréstimo de US$ 105 bilhões (cerca de R$ 525 bilhões), respaldado pela União Europeia. Kiev afirmou que precisava urgentemente deste valor para adquirir e produzir equipamento militar no próximo ano.

Vladimir Putin e Donald Trump se cumprimentam sorrindo, durante um encontro em 2025

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Legenda da foto, 'Acredito que algumas pessoas tenham dificultado para que ele chegasse a um acordo', afirmou Donald Trump sobre Vladimir Putin

O então primeiro-ministro da Hungria, país membro da UE, bloqueou o empréstimo durante meses.

Viktor Orbán é aliado do Kremlin, mas a Hungria tem agora um novo líder, após a categórica derrota do governo nas eleições húngaras de abril. E Péter Magyar é decididamente menos favorável à Rússia.

Os eleitores manifestaram sua raiva pela guerra no Irã, que fez os custos da energia dispararem. Este fator contribuiu para a queda de Orbán, permitindo finalmente a liberação do empréstimo da UE para a Ucrânia.

Com estas "vitórias" de Kiev, aliadas à informação divulgada pela Ucrânia de que estaria matando mais soldados inimigos do que os 30 mil que seriam recrutados pela Rússia mensalmente, Zelensky já não se sente em desvantagem e pode estar em melhor posição para buscar um acordo de paz com a Rússia.

A sensação de urgência na Ucrânia vem de muito tempo atrás. As pessoas estão cansadas e sofrendo.

O recrutamento de novos soldados tem sido um sério desafio e os que estão no campo de batalha estão desesperados para voltar para casa.

Falta de respeito?

E sobre as negociações para estabelecer um cessar-fogo sustentável, promovidas com grande alvoroço pelo governo Trump antes do Natal?

Antes da eleição presidencial, Donald Trump declarou diversas vezes que colocaria fim ao conflito na Ucrânia em 24 horas. Mas, depois que assumiu o poder, sua promessa não se tornou realidade.

Uma pista importante é acompanhar os movimentos dos enviados de paz designados por Trump: seu genro Jared Kushner e o ex-magnata do setor imobiliário Steve Witkoff.

Foi proposta repetidamente uma viagem de ambos para Kiev, mas eles estão ocupados com o Oriente Médio. E Zelensky declarou que considera sua ausência uma "falta de respeito".

O presidente ucraniano afirma que as negociações de paz continuam em nível "técnico", mas receia que não ocorram avanços reais antes do final do conflito no Irã, o que ninguém sabe quando irá ocorrer.

Cabe destacar que Kushner e Witkoff nunca visitaram Kiev oficialmente.

Eles foram à capital russa no fim do ano passado, quando ganharam impulso as negociações para o cessar-fogo, e novamente em janeiro.

Witkoff esteve em Moscou oito vezes. Ele costumava fazer muitos negócios privados na Rússia e se reuniu com Putin em diversas ocasiões.

O governo Trump nega manter qualquer tipo de viés em favor da Rússia. Mas a Ucrânia e outros países europeus ficaram perturbados ao lerem a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSS, na sigla em inglês), publicada no final do ano passado.

O documento evita claramente qualificar a Rússia como ameaça para a segurança, diferentemente de como os aliados europeus de Washington na Otan consideram Moscou.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, vestido de preto, ao lado do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman Al Saud

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Legenda da foto, Seu recente sucesso no Golfo indica que Zelensky talvez já não se sinta na defensiva no momento de negociar a paz com a Rússia

A NSS destaca a importância de pôr fim à guerra na Ucrânia, mas o enfoque não se concentra em estabelecer a paz duradoura para Kiev.

Na verdade, o objetivo declarado no documento é garantir "a estabilidade estratégica" e uma possível associação com a Rússia, liberando recursos para outras prioridades dos Estados Unidos.

Esta postura do governo Trump agrada muito ao Kremlin. Na época da publicação, o porta-voz da Rússia, Dmitry Peskov, alardeou que a NSS, "é coerente, em grande parte", com a visão de Moscou.

Durante o mandato de Trump, os Estados Unidos não criaram, nem mantiveram, sanções econômicas contundentes contra a Rússia que pudessem realmente fazer diferença e obrigar o Kremlin a se sentar à mesa de negociações, sem apresentar uma lista de exigências impossível de aceitar para Kiev ou seus aliados europeus.

Além disso, a ajuda militar e econômica dos Estados Unidos para a Ucrânia se esgotou praticamente por completo. Em vez disso, a Europa vem comprando dos Estados Unidos o material militar que é enviado para Kiev.

Mas, agora, até este abastecimento corre riscos, devido ao conflito com o Irã.

Perspectivas de paz

Para convencer a Rússia a negociar a paz, o consenso indica que os Estados Unidos são a única potência capaz de fazer Moscou ceder.

Putin não dá sinal de pôr fim às hostilidades por vontade própria no futuro próximo, pelo contrário. Com o mundo distraído com a guerra no Irã, Moscou intensificou seus ataques contra a população e a infraestrutura civil da Ucrânia.

A questão é se estas ações constituem um último arrebato antes que o presidente russo se sente à mesa de negociações ou uma amostra da sua determinação contínua e implacável.

Na sede da UE, em Bruxelas, a maioria suspeita que se trate da segunda opção.

A economia russa pode enfrentar dificuldades, devido às sanções internacionais, mas não foi dizimada. E, agora, está firmemente em pé de guerra.

Pôr fim ao conflito não será fácil. Isso leva os países europeus a recear que, mesmo que se consiga a paz na Ucrânia, a Rússia tente rapidamente desestabilizar algum outro lugar da Europa, atacando até mesmo um país da Otan.

A Holanda, a Alemanha e a própria Otan consideram esta hipótese como uma possibilidade, até mesmo provável.

E, por fim, existe o orgulho e a ambição de Putin. Estaria ele disposto ou capaz de realmente levantar as mãos e admitir a derrota na Ucrânia?

"Se a Rússia tivesse um governo racional, colocaria fim à guerra", afirmou o professor Luke Cooper, pesquisador de relações internacionais da London School of Economics. Ele também é diretor do programa da Ucrânia no consórcio de organizações em favor da paz PeaceRep.

"A economia está estagnada ou em recessão", explica Cooper.

"A Rússia está enviando para morrer um número enorme de homens que poderiam estar trabalhando, a economia civil privada sofre com a imposição da economia de guerra... e o que a Rússia conseguiu? Uma pequena porção de território ucraniano."

"O cessar-fogo, sem dúvida, seria vantajoso se incluísse o alívio das sanções", prossegue o professor. "Mas Putin não pensa nestes termos."

"Tudo gira em torno das decisões de uma só pessoa, com ambições imperiais, que dirige um sistema autocrático."

O ceticismo da Ucrânia

Enquanto Kiev continua esperando pelo envolvimento dos Estados Unidos, muitas autoridades ucranianas, privadamente, demonstram ceticismo sobre a possibilidade de que o governo Trump tome, algum dia, as medidas desejadas por elas para garantir a paz.

Elas também se questionam se, mesmo no caso de um cessar-fogo, os Estados Unidos ofereceriam garantias de segurança incontestáveis, que são desejadas para evitar que a Rússia simplesmente retorne à Ucrânia algum dia.

Para o assessor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, Mark Cancian, "é difícil imaginar um conjunto de garantias de segurança que os ucranianos considerem suficientemente confiáveis para assinar um acordo de paz, com a concordância da Rússia, dos Estados Unidos e dos países europeus".

Mas "não há tempo a perder" para os líderes da Europa.

A maioria deles acredita que seria perigoso, para a segurança continental como um todo, que a Rússia sentisse ter obtido uma vitória na Ucrânia, segundo Tom Keatinge, diretor do Centro de Finanças e Segurança do Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês).

Apesar da guerra no Oriente Médio, Keatinge afirma que Trump, com sua fama de ser impaciente, poderia deixar de se concentrar no Irã a qualquer momento, se persistirem as dificuldades para chegar a um acordo com Teerã.

Se isso acontecer, ele poderá retomar rapidamente a questão da Rússia e da Ucrânia. E, por este motivo, Keatinge defende que os europeus deveriam tomar, agora, medidas muito mais decisivas na Ucrânia do que fizeram até o momento.

Com o uso repetido da frase "todo o tempo que for necessário", quando o assunto é ajudar a Ucrânia, os críticos perdem muito tempo acusando os líderes europeus de "gerenciar" a guerra, em vez de buscar agressivamente a paz para Kiev.

Zelensky, Trump e várias outras autoridades, sentados em torno de uma mesa de madeira na Casa Branca

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Legenda da foto, Privadamente, muitas autoridades de Kiev demonstram ceticismo sobre a possibilidade de que os Estados Unidos, durante o mandato de Donald Trump, chegue a tomar as medidas desejadas por elas garantir a paz na Ucrânia

Apesar de todos os discursos, das visitas a Kiev e do dinheiro gasto em armas para a Ucrânia, quando a questão é mostrar real firmeza em relação a sanções econômicas contundentes, "os europeus ficam esperando os americanos", segundo Keatinge.

"Eles agem com muita timidez, mas a UE é um bloco comercial enorme."

Bruxelas, agora, trabalha no seu 21° pacote de sanções contra a Rússia. Mas o que acontece com os quase US$ 245 bilhões (cerca de R$ 1,2 trilhão) em ativos congelados do Banco Central da Rússia sob jurisdição da UE, principalmente na Bélgica?

Ao negar a destinação desse dinheiro para ajudar a Ucrânia (alegando considerações legais e de reputação), os líderes da UE conceberam o empréstimo de US$ 105 bilhões, com dinheiro dos contribuintes europeus.

Keatinge defende que os líderes europeus poderiam agir contra a Rússia com muito mais impacto. Mas "eles simplesmente não estão dispostos, ou suficientemente unidos, para pisar fundo no acelerador e pôr fim à guerra".

Os líderes europeus desejam sinceramente que o sofrimento na Ucrânia termine e que haja uma paz justa e duradoura nas suas fronteiras. Mas também é verdade que o cessar-fogo no conflito forçaria a tomada de algumas decisões incômodas.

Há menos países favoráveis a acelerar a adesão da Ucrânia à UE, por exemplo, do que eles gostariam de admitir.

E, em relação à chamada Coalizão dos Dispostos, chefiada pela França e pelo Reino Unido e comprometida a agir como "força de segurança" na Ucrânia em caso de término das hostilidades, quais países realmente enviariam tropas em terra e por quanto tempo?

Esta é uma questão especialmente importante se as forças da coalizão não contarem com o apoio aéreo dos Estados Unidos.

No final de abril, Trump chamou de "ridículo" o que ele considera ódio entre Putin e Zelensky.

Washington parece ter subestimado a importância das vendas de tecnologia de drones pela Ucrânia no Golfo. E também não aceitou (ao menos, publicamente) a oferta pública de Zelensky, de compartilhar os conhecimentos de Kiev sobre drones com o governo americano.

Mas o líder ucraniano, vestido de preto, não pareceu se abalar com estes detalhes. Ele segue ocupando as manchetes, esperando que a Ucrânia não caia no esquecimento e que Washington volte a concentrar sua atenção naquela parte do mundo o mais rápido possível.