Pessoas deslocadas atravessam uma ponte que liga o sul do Líbano ao resto do país. A ponte em Qasmiyeh foi gravemente danificada por um ataque aéreo israelense. Foto de 17 de abril de 2026

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Pessoas deslocadas começaram a retornar para suas casas no sul do Líbano após o anúncio do cessar-fogo no país
    • Author, Paul Adams
    • Role, Correspondente diplomático da BBC News
  • Há 10 minutos

  • Tempo de leitura: 7 min

Com não um, mas dois cessar-fogos em vigor no Oriente Médio, o cenário está agora preparado para um avanço histórico?

Os cessar-fogos — no Irã e no Líbano — são ambos descritos como "instáveis" (como cessar-fogos geralmente são), mas à medida que o clamor da guerra diminui mais uma vez, este é um momento repleto de oportunidades. E riscos.

À primeira vista, o anúncio na noite de quinta-feira (16/4) de uma pausa de 10 dias nos combates entre Israel e o Hezbollah, partido político xiita e grupo armado com forte influência no Líbano apoiado pelo regime iraniano, é uma vitória para o Irã.

Teerã exigiu um cessar-fogo no Líbano alegando que as negociações com os EUA não poderiam progredir sem ele.

Com a pausa agora em vigor, o Irã respondeu declarando o Estreito de Ormuz "completamente aberto".

Como demonstrou a maratona de negociações do último fim de semana em Islamabad, capital do Paquistão, o progresso foi de fato possível, mesmo com a continuidade dos combates no Líbano (com Israel apenas evitando novos ataques a Beirute).

Mas tanto o Irã quanto o Paquistão insistiram que o Líbano deveria ser incluído no acordo de paz.

Isso agora aconteceu, para a fúria dos israelenses que vivem perto da fronteira norte do país, que acreditam que seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, cedeu à pressão americana em vez de garantir que o Hezbollah nunca mais dispare um míssil contra o país.

Para alguns em Israel, o cessar-fogo beneficia diretamente o Irã, permitindo que o inimigo mortal de Israel dite o curso dos acontecimentos.

"O cessar-fogo, na prática, dá o aval de Israel à situação que o país vinha tentando evitar: legitimar a ligação entre o Irã e o teatro de operações libanês", escreveu Shirit Avitan Cohen, do popular jornal de direita Israel Hayom, nesta sexta-feira (17/4).

"Ontem, o Hezbollah também recebeu a confirmação definitiva de que seu mestre, e o do Líbano, ainda mantém o controle e continua a ditar o que acontece na região."

Na verdade, todos os atores envolvidos nesses conflitos sobrepostos saem ganhando com o acordo mais recente.

Para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a liderança iraniana, é uma oportunidade de reivindicar o mérito pelo cessar-fogo.

Netanyahu pode apontar para o fato de que as tropas israelenses permanecem em solo libanês, enquanto o governo libanês, após meses de tentativas, agora negocia diretamente com Israel.

O Hezbollah, que afirma que respeitará o cessar-fogo (enquanto insiste que ainda tem o "dedo no gatilho"), não foi derrotado e afirma que não será desarmado.

"Não até que haja um cessar-fogo adequado, um verdadeiro. Não até a retirada israelense. Antes do retorno dos prisioneiros, antes do retorno dos deslocados internos e antes da reconstrução. Até lá, não é possível falar sobre as armas do Hezbollah", disse o líder sênior do Hezbollah, Wafiq Safa, à BBC na quinta-feira.

Wafiq Safa sentado em uma cadeira, vestindo casaco preto e olhando para o lado da câmera. Ele é um homem de meia idade, com barba e cabelos grisalhos aparados

Legenda da foto, Wafiq Safa, membro de alto escalão do grupo xiita Hezbollah, falou à BBC

Lina Khatib, do instituto Chatham House, com sede em Londres, afirma que o cessar-fogo abre caminho para que Israel e Líbano continuem suas negociações diretas, mas que os obstáculos para um acordo de paz entre os dois são enormes.

"A questão é muito complexa", diz ela. "Tem a ver com a demarcação de fronteiras, o desarmamento do Hezbollah e a retirada de Israel do território libanês."

Israel e Líbano estão tecnicamente em estado de guerra desde 1948 e os dois países não mantêm relações diplomáticas.

Mas, longe de fortalecer a posição do Irã na região, Khatib argumenta que as conversas diretas desta semana em Washington entre os embaixadores israelense e libanês iniciaram o processo de retirar o Líbano das mãos do Irã.

"O equilíbrio de poder regional está se deslocando para longe do Irã", diz ela. "Agora, o país não poderá mais usar o Líbano como moeda de troca."

Donald Trump

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Legenda da foto, Donald Trump afirmou que um acordo com o Irã está 'muito próximo'

Mas muito ainda depende do que acontecer no outro processo diplomático, entre os EUA e o Irã.

Reduzir o que os Estados Unidos e Israel consideram o "comportamento maligno" do Irã no Oriente Médio estará na agenda de Washington, caso a segunda rodada de negociações em Islamabad, amplamente esperada, aconteça.

Para Israel, em particular, é vital que o apoio do Irã ao Hezbollah, ao Hamas e aos Houthis no Iêmen seja contido, pondo fim a décadas em que o "Eixo da Resistência" iraniano pôde ameaçar e hostilizar o Estado judeu.

O Irã não abrirá mão facilmente do que considera uma ferramenta vital de influência regional.

Mas esse é apenas um dos formidáveis desafios que se apresentam.

Os outros temas — o destino do programa nuclear iraniano e o futuro do Estreito de Ormuz — exigirão negociações.

Trump, como sempre, está se esforçando para parecer que tem o controle da situação, dizendo que um acordo com o Irã está "muito próximo", que a guerra está indo "às mil maravilhas" e afirmando a repórteres que o Irã já concordou em entregar cerca de 440 kg de urânio altamente enriquecido (o presidente gosta de chamá-lo de "poeira nuclear"), supostamente enterrado sob os escombros de uma instalação em Isfahan, terceira maior cidade do Irã, bombardeada no ano passado.

O Irã não comentou publicamente essa ousada afirmação, mas um funcionário não identificado, citado pela agência de notícias Mizan, ligada ao judiciário, disse que "nunca houve qualquer negociação sobre qualquer tipo de material nuclear com os Estados Unidos".

Mas qualquer acordo sobre a questão nuclear também precisará de uma promessa do Irã de nunca construir uma arma nuclear, bem como de um acordo sobre por quanto tempo o país estaria disposto a suspender o enriquecimento de urânio.

E há ainda a outra arma do Irã, sempre presente no arsenal do país, mas que só recentemente foi utilizada: o fechamento do Estreito de Ormuz.

O Irã afirma desejar um novo conjunto de protocolos para regular o tráfego marítimo através da passagem, substituindo o atual controle por uma estrutura legal que reconheça o que considera seu direito soberano, juntamente com Omã, de controlar o que entra e sai do Golfo.

Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Aragchi, saudando o cessar-fogo no Líbano, afirma que o estreito está "completamente aberto durante o restante do período de cessar-fogo" — ou seja, durante a próxima semana.

Há uma ressalva: espera-se que as embarcações utilizem o que Aragchi chamou de "rota coordenada, conforme já anunciado pela Organização de Portos e Assuntos Marítimos da República Islâmica do Irã".

Isso parece se referir a novas rotas, muito mais próximas do território continental iraniano, ao norte das duas faixas de separação de tráfego em uso antes da guerra.

Ainda não se sabe com que rapidez isso aliviará o gargalo de navios presos no Golfo.

Trump afirma, em seu estilo tipicamente enfático, que o estreito está "totalmente aberto e pronto para passagem livre", e os mercados parecem ter reagido positivamente. Mas os capitães de navios permanecem cautelosos, e Trump diz que o bloqueio americano aos portos iranianos segue em vigor por enquanto.

Apesar desses desenvolvimentos positivos, é seguro dizer que há muito terreno a ser percorrido pelos negociadores.

O último grande acordo com o Irã, o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês) de 2015, levou cerca de 20 meses para ser negociado e abordou apenas a questão nuclear. Trump retirou os Estados Unidos do acordo em 2018, levando-o ao seu colapso.

Trump adora projetar a imagem de um negociador rápido, raramente olhando para trás para ver o que seus acordos realmente alcançaram — se é que alguma coisa.

Apesar de toda a pompa em torno de suas duas cúpulas com o líder norte-coreano Kim Jong-un, em 2018 e 2019, os encontros, na verdade, alcançaram muito pouco. Pyongyang continua a desenvolver seu programa nuclear.

Mas, após os tumultuosos eventos das últimas seis semanas, algum tipo de processo diplomático está agora em andamento e recebeu um impulso com o cessar-fogo no Líbano.

Será suficiente para impedir um eventual retorno à guerra? Nem mesmo Trump sabe.