Não é a primeira vez que essa disputa de versões ocorre, e tem impactado o mercado de petróleo — que subiu de cerca de US$ 70 para US$ 110 ao longo do conflito, gerando uma crise energética sem precedentes.
Recentemente, a primeira postagem de Trump falando sobre possíveis negociações com o Irã para encerrar a guerra provocou uma reação imediata. Em poucos minutos, o preço do barril caiu quase US$ 15, mesmo que a interrupção da guerra não tenha se concretizado.
Trump diz que EUA e Irã tiveram conversas “produtivas” e adia ataques a infraestrutura iraniana enquanto negociações continuam. — Foto: Reproduçao/Redes sociais
Para o Instituto de Estudos de Energia de Oxford (OIES), o episódio ilustra o peso que declarações políticas podem ter sobre um mercado altamente sensível a notícias sobre conflitos e riscos de interrupção na oferta de petróleo.
Segundo ele, Washington tem buscado “soluções criativas diariamente para manter o preço do petróleo estável”.
Esse tipo de estratégia tende a aumentar a volatilidade das cotações no curto prazo, mas também revela a preocupação das autoridades em conter os impactos econômicos da guerra.
Tensão no Oriente Médio mexe com o petróleo
Quando surgem declarações que indicam negociações, possíveis tréguas ou mediação internacional, a tensão dos investidores diminui e, com isso, o temor de problemas no transporte de petróleo também recua, explica Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
“A expectativa de que as tensões diminuam já é suficiente para que os preços caiam imediatamente. Mesmo que nada tenha mudado efetivamente na produção ou na logística de distribuição.”
- 🔎 Isso acontece porque o petróleo é um insumo central para combustíveis, transporte e geração de energia. Quando seu preço oscila por causa de decisões políticas ou novos capítulos do conflito, o efeito se espalha pela economia e acaba chegando ao bolso de consumidores em diferentes países — inclusive no Brasil.
Com a sinalização de continuidade da guerra e da possibilidade de novas tensões na região, o mercado voltou a revisar suas expectativas. O resultado foi uma nova alta nas cotações, com o petróleo subindo de US$ 87,8 para US$ 91,98.
Veja o histórico do preço do barril de petróleo Brent durante a guerra no Oriente Médio — Foto: Arte/g1
Retórica vira estratégia geopolítica
O peso das declarações políticas também foi analisado por Javier Blas, colunista de energia e commodities da Bloomberg. Ele descreve a estratégia adotada por Donald Trump como uma forma de “jawboning”.
- 🗣️ O termo é usado para caracterizar tentativas de influenciar o comportamento do mercado por meio de discursos públicos.
Para Blas, essas declarações ajudaram a evitar movimentos mais bruscos de alta, mesmo diante de preocupações com a oferta global de petróleo. Mas quando as declarações não se confirmam ou são contestadas, o movimento se inverte.
É o que aponta o analista Pedro Galdi, da AGF, ao destacar que o conflito tem sido marcado por versões divergentes entre os envolvidos.
“O presidente dos EUA sinaliza que está ocorrendo avanços nas negociações, por outro lado fontes do Irã desmentem”, diz Galdi.
Segundo ele, esse desencontro de informações dificulta a leitura do que está acontecendo e mantém o mercado em constante ajuste. Em um momento, prevalece a expectativa de trégua. No seguinte, o risco de continuidade da guerra volta a ganhar força.
Para o analista, essa dinâmica explica por que o petróleo segue sob influência de movimentos especulativos.
Expectativas ganham peso sobre a oferta
Esse padrão de reação — com quedas após sinais de negociação e altas quando essas sinalizações perdem força — ajuda a entender a rapidez com que o mercado tem reagido a declarações políticas.
Segundo Bassam Fattouh, diretor do Oxford Institute for Energy Studies (OIES), esse tipo de dinâmica ganhou força porque os instrumentos tradicionais para lidar com crises no petróleo têm alcance limitado.
Medidas mais concretas, como o uso de estoques estratégicos ou a adoção de sanções e regulações, costumam levar tempo para produzir efeitos e nem sempre conseguem resolver interrupções no fornecimento de grande escala.
O presidente dos EUA, Donald Trump, responde a uma pergunta durante uma coletiva de imprensa no Trump National Doral Miami — Foto: REUTERS/Kevin Lamarque

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