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- Author, Priscila Carvalho
- Role, De Bangkok (Tailândia) para a BBC News Brasil
Há 22 minutos
Tempo de leitura: 8 min
Roupas brancas às sextas-feiras, o som dos atabaques, patuás junto ao corpo, a cabeça no chão como gesto de respeito.
Esses são alguns rituais praticados em terreiros de candomblé, umbanda e quimbanda — religiões de matriz africana que surgidas no Brasil com a vinda forçada de povos escravizados.
Mas o que muita gente não sabe — e muitos livros de história não registram — é que estes rituais têm influência do islamismo africano, já que parte dos escravizados que vieram ao Brasil seguiam esta fé.
Os malês, como ficaram conhecidos os africanos muçulmanos escravizados, vieram da região do Golfo do Benim e desembarcaram no Brasil entre os séculos 18 e 19.
De acordo com a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, docente do departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o termo malê tem origem no iorubá e está associado a muçulmano, mestre ou sábio — refletindo o reconhecimento social que esses africanos possuíam em suas regiões de origem, sobretudo no atual sudoeste da Nigéria e Benim.
Vivendo principalmente em Salvador, eles dominavam a leitura e a escrita em árabe, conheciam o Alcorão e mantinham práticas religiosas regulares — como orações, jejum e ensino religioso estruturado.
No Brasil, os malês se destacaram pelo alto grau de organização religiosa, política e intelectual.
"Por serem muçulmanos, eles se reconheciam entre si, mesmo não tendo vindo todos da mesma região. A religião criava um vínculo que facilitava a organização coletiva", explica Barbosa.
Mas essas práticas eram reprimidas pelas autoridades coloniais e depois imperiais do Brasil — onde por séculos o catolicismo foi a religião oficial e outras crenças, inclusive as de africanos não-islâmicos, foram fortemente reprimidas.
Até que, em 1835, os malês protagonizaram um dos levantes regenciais (revoltas ocorridas no Brasil durante o Período Regencial, entre 1831 e 1840) mais importantes do século 19 e uma das principais rebeliões de africanos escravizados em áreas urbanas do Brasil.
Segundo o historiador Wilher Freitas Guimarães, mestre em educação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), o movimento foi protagonizado por cerca de 600 africanos escravizados, em sua maioria muçulmanos.
Vestidos com abadás brancos e portando amuletos considerados protetores, os participantes se organizaram para enfrentar as forças do poder colonial.
O levante foi rapidamente reprimido pelas autoridades, mas é apontado por pesquisadores como um marco da resistência negra no período regencial e da presença islâmica africana na história do Brasil.
Após a revolta, o Islã passou a ser ainda mais associado ao risco de insurreição.

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Segundo o antropólogo e historiador Vitor Queiroz, o episódio gerou pânico entre autoridades e parlamentares, que temiam que o Brasil seguisse o caminho do Haiti.
A Revolução Haitiana, iniciada em 1791 na então colônia francesa de Saint-Domingue, foi a única revolta de pessoas escravizadas nas Américas que resultou na criação de um Estado independente, governado por ex-escravizados.
"Esse medo levou à perseguição dos muçulmanos, a tentativas de deportação e ao fortalecimento do controle sobre suas práticas religiosas, o que acabou reforçando o apagamento de sua presença na história oficial", explica Queiroz, coordenador do Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Outra explicação para o pouco conhecimento sobre a história dos malês no Brasil era o próprio desinteresse das elites da época nesse povo escravizado, acrescenta o antropólogo e historiador.
Fatores demográficos também contribuíram para esse silenciamento.
Com a proibição ao tráfico transatlântico de escravizados para o Brasil, em 1850, a entrada de africanos da África Ocidental, região mais islamizada, diminuiu drasticamente.
Sem reposição populacional e sob vigilância constante, essa presença foi se diluindo ao longo da segunda metade do século 19.
Mais tarde, essa herança foi ofuscada pela imigração árabe e pela consolidação de correntes islâmicas mais ortodoxas.
Símbolos islâmicos nos terreiros

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O que sobreviveu da cultura islâmica africana no Brasil se perpetuou na memória oral e nas religiões afro-brasileiras, influenciadas por três principais grupos originários: banto (vindo de Angola e Congo), jeje (do antigo Daomé) e nagô (de tradição iorubá).
Entre os exemplos mais visíveis está o uso do branco, especialmente às sextas-feiras.
Barbosa, professora da USP, explica que no Islã a cor está associada à preparação espiritual e à limpeza ritual. Segundo ela, antes da reza, há um ritual de purificação do corpo, que inclui banho e higiene.
"Os muçulmanos usam roupa branca porque era a roupa que o profeta Muhammad usava. É uma roupa que precisa estar limpa, purificada, especialmente para a oração de sexta-feira", afirma.
A presença dessa cor também aparece nos terreiros, mas não como reprodução pura e simples do rito islâmico — uma comparação com a qual é preciso cautela, diz o historiador Wilher Freitas Guimarães.
"Temos que ter o cuidado epistemológico em não associar diretamente a influência islâmica como estruturadora das práticas religiosas de matriz africana", afirma.
Segundo ele, o uso do branco nas religiões de matriz africana resulta de uma formação própria ocorrida no Brasil, na qual a participação dos africanos muçulmanos atuou como um dos componentes, e não origem exclusiva.
Outra convergência, embora Guimarães novamente aponte que não se pode falar em uma influência direta, está no uso de patuás e amuletos.
No Islã tradicional, especialmente no norte da África e Península Arábica, não se usa o termo "patuá" — mas existem as hizbs ou ta'wiz, pequenos pedaços de papel ou couro com versículos do Alcorão escritos à mão, para proteção.
Nas tradições islâmicas africanas, a escrita tem função protetiva — e muitos patuás usados no Brasil também trazem inscrições, reforçando a conexão com as forças espirituais.
"Ao escrever no patuá, [uma pessoa] aumenta o vínculo com as forças espirituais e deixa claro sua intenção, no objeto, com as forças nas quais acredita", explica Guimarães.
Barbosa aponta para outros rituais que revelam esse encontro de heranças, como o encostar a cabeça no chão como gesto de respeito, o uso de pequenas bolsas de couro junto ao corpo e até a organização comunitária dos terreiros.
André Aluize, antropólogo e sacerdote de candomblé (função conhecida também como pai de santo ou babalorixá) da nação ketu (uma das vertentes do candomblé, neste caso de origem iorubá), também pondera que não é possível fazer uma ligação direta entre certos elementos presentes em religiões afro-brasileiras e práticas islâmicas.
Para Aluize, vice-coordenador da Rede Temática Educaxé (grupo de estudos na Universidade Estadual Paulista), é melhor falar em "incorporação" e "ressignificação" desses elementos no Brasil.
O pesquisador destaca a influência islâmica, por exemplo, nas batas e adornos de cabeça utilizados nos terreiros, como os turbantes.
Outro exemplo é o atabaque. Embora o instrumento tenha origem africana, Aluize explica que ele chegou ao Brasil trazido por povos escravizados com forte identidade cultural islâmica.
Nos terreiros, os atabaques não são apenas instrumentos musicais, mas entidades sagradas, indispensáveis para a realização dos rituais, ressalta o antropólogo.
A violência em comum
Mais do que falar em sincretismo, especialistas sugerem olhar para essa convergência como resultado de um diálogo forçado entre tradições submetidas à violência da escravidão.
Aluize propõe que a relação entre o Islã e as religiões afro-brasileiras seja compreendida em dois momentos principais.
O primeiro tem a ver com a ancestralidade africana comum, anterior à formação histórica das religiões organizadas.
"Independentemente do tempo histórico, das convenções, territorialidades, dogmas e doutrinas, a noção de sagrado e as relações com ele têm origem no continente africano", destaca Aluize.
O segundo ocorre com a chegada forçada dos malês ao Brasil, quando suas práticas e concepções religiosas passam a dialogar com outras tradições africanas já presentes no território.
Para a professora Francirosy Campos Barbosa, da USP, o termo "mistura" não contempla a complexidade do encontro de culturas e crenças ocorrido no Brasil.
"Não é uma fusão equilibrada, mas uma aproximação construída por pessoas africanas escravizadas, que precisavam criar estratégias para manter vivas suas crenças", explica.
Assim, elementos do Islã, especialmente aqueles ligados à espiritualidade africana, não sobreviveram como religião organizada, mas foram fragmentados e reinterpretados.
Para Guimarães, não se trata de afirmar a continuidade de um rito islâmico, mas de reconhecer uma adaptação estratégica.
"Talvez seja mais produtivo falar em sobrevivência religiosa. Não foi uma mistura livre, mas uma adaptação calculada para continuar existindo em um ambiente de repressão", afirma.
Sacerdote de candomblé, o antropólogo André Aluize avalia que muitas comunidades de terreiro já veem de forma positiva as influências do islamismo, entendendo-o como parte da formação das religiões afro-brasileiras.
Contribui para isso o crescimento recente de pesquisas acadêmicas sobre religiosidades de matriz africana no Brasil, que ajudam a reconhecer a "plurietnicidade" na origem dessas tradições, ele aponta.
Para o público geral, reconhecer a presença islâmica africana na formação religiosa e cultural do Brasil ajuda a ampliar a leitura sobre a escravidão para além da violência física e do trabalho forçado, dizem os entrevistados.
Segundo Barbosa, há pouco espaço para compreender os africanos escravizados como pessoas letradas e organizadas. A escassez de estudos e a presença limitada da revolta dos Malês nos livros didáticos, segundo a pesquisadora, refletem esse processo de invisibilização.
Para ela, o resgate dessa história ajuda a revelar a contribuição do Islã para a história brasileira.
"Infelizmente, há o estigma de um Islã terrorista, que oprime mulheres. Não há o devido conhecimento sobre os muçulmanos, sua história rica de conhecimento e expansão. Com os africanos, pior ainda, porque vivemos em um país racista. Difícil vermos religiosos negros sendo protagonistas", lamenta a antropóloga.

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