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Consórcio de celular vale a pena ou é cilada? Especialistas explicam

O consórcio de celular tem ganhado popularidade entre brasileiros que buscam formas de adquirir smartphones topo de linha sem recorrer a financiamentos com juros elevados. À medida que o preço dos aparelhos premium ultrapassa com folga a faixa dos R$ 10 mil, o consórcio aparece como uma opção sem juros, baseada em planejamento e parcelamento previsível. Segundo dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), o segmento de eletroeletrônicos e bens móveis duráveis registrou avanço de 10,2% no total de participantes ativos no encerramento de 2025, em comparação ao ano anterior.

Por outro lado, a modalidade envolve custos indiretos, como taxas de administração, e tem prazos e regras que impactam diretamente o custo-benefício. Para entender se contratar um consórcio de celular realmente vale a pena, o TechTudo conversou com cinco especialistas: Cristiane Canton, coordenadora do curso de Ciências Contábeis da Afya; Nathália Rodrigues, especialista em educação financeira; Ariane Scacalossi, especialista em consórcios do Klubi; Bruno Boris, sócio fundador do Bruno Boris Advogados; e Marcos Poliszezuk, sócio fundador do Poliszezuk Advogados.

 Reprodução/Freepik Planejar a compra de um celular premium via consórcio virou tendência entre brasileiros. A modalidade promete parcelas sem juros, mas esconde taxas que podem pesar no bolso. Especialistas explicam os riscos — Foto: Reprodução/Freepik

Nesta matéria completa, eles explicam como funciona o consórcio de celulares na prática, quais são os custos reais envolvidos e para quem a modalidade de fato faz sentido. Confira os assuntos abordados no índice a seguir.

  • Como funciona o consórcio de celular?
  • O consórcio é mais barato? A conta que a propaganda não faz
  • Vale esperar para comprar? O problema da obsolescência
  • Como funciona a contemplação? E qual é o risco real de demora?
  • Para quem o consórcio faz sentido e para quem é cilada?
  • Riscos jurídicos e contratuais: o que o consumidor precisa saber antes de assinar?
  • Alternativas ao consórcio: o que os especialistas recomendam?
  • Então, vale ou não vale?

Como funciona o consórcio de celular?

O consórcio de celular segue a mesma lógica dos demais tipos da modalidade: um grupo de pessoas contribui com parcelas mensais para formar um fundo comum, e todo mês alguns participantes recebem o crédito para realizar a compra. Esse crédito pode ser concedido via sorteio ou via lance, ou seja, antecipando parcelas para aumentar as chances de contemplação.

A contadora Cristiane Canton resume: trata-se de um “autofinanciamento coletivo”, em que o participante contribui mensalmente até ser contemplado e receber a carta de crédito para comprar o bem. Na prática, o consumidor escolhe o valor e o prazo, paga as parcelas e participa dos sorteios. Quem quiser antecipar a contemplação pode dar lances, ou seja, adiantar parcelas. Ao ser contemplado, recebe a carta de crédito, que funciona como pagamento à vista.

 Reprodução/Vivo No site de consórcio da Vivo, você consegue simular o valor e ainda descobre como ficariam as parcelas — Foto: Reprodução/Vivo

Um exemplo concreto de como essa dinâmica funciona está no consórcio de celular da Klubi, que opera em parceria com a Vivo. Pelo simulador disponível no site, é possível escolher créditos de diferentes valores e ver as parcelas projetadas.

Para um crédito de R$ 6.000, por exemplo, as parcelas começam a partir de R$ 341 por mês em 24 vezes. O valor é consideravelmente mais baixo do que as parcelas de um empréstimo pessoal para os mesmos R$ 6 mil, que podem chegar a R$ 619 mensais, dependendo da sua escolha de consórcio.

A Klubi também oferece planos diretamente em seu simulador (klubi.com.br), com créditos de até R$ 10.000 para eletroeletrônicos e parcelas fixas sem reajuste. Após a contemplação, o crédito é liberado diretamente para a loja escolhida pelo consumidor, via Pix.

Segundo levantamento interno da empresa, 69,9% de seus mais de 60 mil membros que utilizam o produto para compra de eletrônicos optam por aparelhos da Apple, com o iPhone liderando o ranking. Logo na sequência, com 18,4% das escolhas, aparecem os modelos da Samsung.

O consórcio é mais barato? A conta que a propaganda não faz

O principal argumento de venda do consórcio é a ausência de juros — e isso é verdade. Diferentemente de um financiamento bancário ou de um parcelamento no cartão de crédito rotativo, o consórcio não cobra juros compostos sobre o valor contratado. Porém, há um custo que frequentemente passa despercebido: a taxa de administração, que pode variar entre 15% e 25% sobre o valor total do crédito.

Cristiane Canton traduz isso em números. “A taxa aumenta o valor total pago, mesmo sendo diluída nas parcelas. Em um smartphone no valor de R$ 10.000 com taxa de 20%, por exemplo, o valor pago será de R$ 12.000. Ou seja, não temos juros compostos, mas não é ‘sem custo’, como podem pregar alguns consórcios", explica.

Para quem pensa em adquirir um celular premium como o Galaxy S26 Ultra, que pode custar até R$ 15.499, Cristiane também apresenta uma simulação detalhada. "Vamos considerar um cenário típico em que o valor do crédito é de R$ 15.000 a um prazo de 24 meses com uma taxa administrativa de 18% durante o período, considerando mais fundo e mais taxas de 2%. Mesmo com parcelas atrativas de R$ 750, o total pago será de R$ 18.000, ignorando reajustes que podem alavancar o valor das parcelas. Portanto, você irá pagar 20% a mais pelo celular", detalha.

 Reprodução/Freepik No consórcio, um grupo de pessoas paga parcelas mensais e forma um fundo comum — Foto: Reprodução/Freepik

Ainda assim, o consórcio pode ser mais barato que linhas de crédito com juros elevados, que podem facilmente superar 40% ao ano. Para a contadora Ariane Scacalossi, do Klubi, o cenário macroeconômico torna o consórcio um instrumento de organização financeira.

"A taxa de juros ainda segue alta no Brasil, e o crédito continua de difícil acesso. Nesse cenário, o consórcio ganha protagonismo como um instrumento acessível de organização financeira, tanto para quem busca alternativas de crédito quanto para aqueles que querem maior controle do orçamento", defende.

A questão central, porém, é outra: o tempo de espera, como afirma Nath Finanças.

"Apesar de não ter juros, o consórcio tem seu preço, nesse caso algo próximo a 20% do valor total do bem. Além disso, o consumidor corre o risco de demorar muito tempo para ser contemplado por sorteio", afirma a especialista.

Vale esperar para comprar? O problema da obsolescência

O consórcio é, por natureza, uma modalidade de compra planejada, e isso significa espera. O participante pode ser contemplado já no primeiro mês, caso seja sorteado, mas também pode aguardar até o encerramento do plano. Em um consórcio de 24 meses, isso representa dois anos até ter o crédito em mãos. Para bens como imóveis ou veículos, esse tempo raramente é um problema. Para smartphones, porém, a equação é bem diferente.

Cristiane Canton alerta para o risco da desvalorização acelerada dos aparelhos. "No caso de bens móveis como smartphones, percebemos que o consórcio tem um grande risco, que é o da desvalorização acelerada: os produtos podem perder em média de 20% a 30% do valor já no primeiro ano de uso. Assim, se considerarmos 25% de desvalorização no final do primeiro ano, um celular de R$ 15.000 passará a valer R$ 11.250", explica.

Ainda segundo Cristiane, a situação piora quando a contemplação chega tarde: “Outro problema é a possibilidade de a contemplação acontecer tarde, ou você receber crédito quando o modelo já estiver ultrapassado ou, ainda, pagar mais caro por um produto cujo preço já caiu. Diferente de um imóvel, por exemplo, a tecnologia perde valor muito rápido", completa.

 Ana Letícia Loubak/TechTudo Galaxy S26 Ultra é smartphone topo de linha mais recente da Samsung — Foto: Ana Letícia Loubak/TechTudo

Nath Finanças faz um contraponto: a carta de crédito costuma ser reajustada ao longo do tempo, o que mantém o poder de compra atualizado. Ainda assim, isso não elimina o risco de defasagem tecnológica, já que o mercado de celulares trabalha com ciclos de lançamentos anuais.

A cada 12 meses, fabricantes como Apple, Samsung e Xiaomi lançam novas gerações de aparelhos, com melhorias em câmera, processador e recursos de inteligência artificial. Quem contrata um consórcio pensando em comprar o Galaxy S26, por exemplo, pode muito bem se ver diante do Galaxy S27 ou S28 no momento da contemplação, o que significa pagar o mesmo preço por um modelo que, naquele momento, já não é mais o topo de linha.

Como funciona a contemplação? E qual é o risco real de demora?

A contemplação é o momento mais esperado por quem entra em um consórcio. É quando o participante recebe a carta de crédito e pode finalmente fazer a compra. Ela ocorre de duas formas: por sorteio, em que todos os participantes adimplentes concorrem mensalmente de forma igualitária, ou por lance, em que o participante oferta um percentual do valor do crédito para antecipar a contemplação.

No caso da Klubi, tanto pelo aplicativo próprio quanto pelo consórcio Vivo, o participante já concorre ao sorteio desde o primeiro mês. Quem quiser acelerar o processo pode adiantar mensalidades e, ao atingir o equivalente a 1/3 do valor total do plano, garante a contemplação antecipada, podendo receber o crédito a partir do terceiro mês.

 Reprodução/Freepik Contemplação do consórcio ocorre por sorteio mensal ou por lance, quando o participante antecipa parcelas — Foto: Reprodução/Freepik

Nath Finanças, porém, sinaliza que a estratégia de lances tem nuances que merecem atenção. "O consórcio pode ser vantajoso para quem tem um valor alto para dar de lance e assim receber o aparelho com um saldo devedor menor. Nesse cenário, porém, faz sentido comparar o custo com a compra do aparelho parcelado", alerta.

Ou seja, quem tem uma quantia significativa disponível para dar como lance pode acabar se deparando com uma situação em que simplesmente parcelar o smartphone no cartão, ou mesmo comprá lo à vista com aquele valor, seria mais eficiente do ponto de vista financeiro. Por isso, é muito importante a análise caso a caso.

Já para quem não pode ofertar lances e depende exclusivamente do sorteio, o risco de demora é real e pode comprometer seriamente o custo benefício, especialmente em prazos longos. A fala da especialista é enfática: "O consórcio não faz sentido para quem não pode esperar ser sorteado".

Para quem o consórcio faz sentido e para quem é cilada?

Segundo as especialistas ouvidas pelo TechTudo, o consórcio pode funcionar em alguns perfis específicos: pessoas sem disciplina para poupar, sem pressa para comprar e que encaram a modalidade como uma forma de planejamento. Cristiane Canton acredita que o consórcio pode servir como uma “poupança forçada”, desde que o consumidor entenda os custos e aceite a espera.

Por outro lado, ela é direta ao apontar quando não vale a pena: para quem precisa do celular agora, troca de aparelho com frequência ou busca o melhor custo-benefício. "Na minha opinião, para celular, honestamente, em muitos casos, não é a melhor escolha", afirma.

Enquanto o consórcio se casa bem com bens de longa duração e menor obsolescência tecnológica , como imóveis e automóveis, o ritmo acelerado do mercado de smartphones joga contra a lógica da modalidade. Para celulares, o tempo é um fator de risco, não de proteção.

"O consórcio não tem juros, mas tem um custo relevante, que pode variar de 15% a 25%. Para bens que não desvalorizam rápido pode fazer sentido. Para celulares, o tempo joga contra você. Então, em termos financeiros puros, dizemos que o consórcio atrela-se a planejamento, e smartphones atrelam-se a consumo rápido. Os dois juntos não combinam bem", resume Cristiane.

Riscos jurídicos e contratuais: o que o consumidor precisa saber antes de assinar?

Antes de aderir a qualquer consórcio, a leitura atenta do contrato é indispensável. O advogado Bruno Boris, sócio fundador do Bruno Boris Advogados, recomenda atenção especial à taxa de administração, fundos adicionais e regras de desistência. Em muitos casos, sair do consórcio pode envolver multas e demora na devolução dos valores.

"Em qualquer investimento com viés coletivo, como consórcio ou capitalização, há um desmotivador para desistir. Como forma de proteção ao grupo, multas podem ser aplicadas, e a devolução dos valores pode não ser imediata. Por isso, antes de tomar uma decisão, é importante simular a hipótese de desistência", recomenda.

 Reprodução/Freepik Todo mês há sorteios, mas nada garante quando você será contemplado. Quem tem valor para dar de lance acelera o processo. Sem essa reserva, a espera pode durar anos e comprometer o custo benefício da compra — Foto: Reprodução/Freepik

Outro ponto importante são os reajustes da carta de crédito, geralmente atrelados a índices como IPCA ou INCC. Apesar disso, o especialista considera o consórcio um instrumento seguro quando bem utilizado, já que é regulado pelo Banco Central e pela Lei 11.795/2008. Administradoras sem autorização do BC não podem operar legalmente. Por isso, verificar o registro da empresa antes de contratar é uma medida básica de proteção.

O advogado Marcos Poliszezuk, sócio fundador do Poliszezuk Advogados, relembra que a lei protege os consumidores de cláusulas abusivas ou descumprimento do contrato. "Em caso de prejuízo ou incômodo relevante, o consumidor pode buscar reclamação administrativa, notificação à montadora, atuação em órgãos de defesa do consumidor e, se necessário, ação judicial com pedido de obrigação de fazer, cessação da prática e eventual indenização por danos materiais e morais", orienta.

 Reprodução/Freepik Leitura atenta do contrato de consórcio é fundamental para evitar dores de cabeça — Foto: Reprodução/Freepik

Alternativas ao consórcio: o que os especialistas recomendam?

Para quem não se encaixa no perfil ideal do consórcio, ou simplesmente quer avaliar outras opções, os especialistas são unânimes: a compra à vista, quando possível, segue sendo a alternativa mais inteligente do ponto de vista financeiro.

"A melhor opção é pagar à vista, porque aí você terá um desconto real e mais poder de negociação. Se esse não é seu caso, considere guardar dinheiro para realizar a compra, o que terá o mesmo efeito de um consórcio, só que sem taxas. Se a parcela couber no bolso e houver limite junto ao banco, o parcelamento no cartão de crédito também pode ser interessante", orienta Cristiane.

Nath Finanças reforça a importância de entender a própria realidade financeira antes de qualquer decisão. "A melhor forma de pagamento será sempre à vista, mas é a que exige um valor alto que poucas pessoas têm. O ponto central é entender a real necessidade do aparelho e, ao mesmo tempo, qual a sua capacidade de pagamento das parcelas. Daí a importância de avaliar caso a caso, para não se deixar levar por algo que não cabe na sua realidade."

 Mariana Saguias/TechTudo Adquirir celular à vista é a melhor forma de pagamento, segundo especialistas ouvidos pelo TechTudo — Foto: Mariana Saguias/TechTudo

Outras alternativas práticas incluem aguardar datas promocionais como Black Friday e Semana do Consumidor, comprar modelos do ano anterior com desconto, adquirir aparelhos seminovos certificados, ou ainda dividir o valor em parcelas fixas no cartão de débito ou crédito com limite disponível, desde que o orçamento comporte o compromisso mensal sem necessidade de parcelamento rotativo.

Depois de ouvir contadores, educadores financeiros, especialistas em consórcio e advogados, a resposta não é simples, mas é honesta: depende do perfil do consumidor. O consórcio de celular pode ser uma alternativa legítima para quem não tem disciplina para poupar, não tem pressa na compra e está disposto a estudar bem o contrato antes de assinar. Para esse perfil, a modalidade funciona como uma espécie de poupança forçada, sem os juros de um financiamento tradicional.

No entanto, para a maioria dos consumidores que deseja um smartphone de topo de linha como o Galaxy S26 ou o iPhone 16 Pro Max, o consórcio carrega riscos que raramente aparecem na publicidade: o custo real entre 15% e 25% do valor do bem, a incerteza sobre o tempo de contemplação, a rápida obsolescência dos aparelhos e as penalidades em caso de desistência. Em termos financeiros puros, portanto, guardar dinheiro e comprar à vista continua sendo a estratégia mais eficiente.

Com informações de Kubli, Planalto.gov e Samsung.

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