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Democracia foi paixão e tema de estudo de José Álvaro Moisés

Desde muito jovem, José Álvaro Moisés queria entender a sociedade em que vivia. Além do futebol e do cinema, era essa a obsessão do adolescente nascido em Campinas em 1945.

Foi essa curiosidade enorme que levou Moisés —morto nesta sexta-feira (13), aos 80 anos— ao estudo de ciências sociais na USP, onde ingressou em 1966. Neste mesmo ano, como integrante da Ação Popular, organização de resistência à ditadura, ele foi preso e passou uma semana no Dops, em São Paulo.

Concluiu o curso em 1970 e tornou-se nas décadas seguintes um dos mais respeitados cientistas políticos do país. Alguns nomes foram decisivos para sua formação, como as antropólogas Eunice Durham e Ruth Cardoso, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e, principalmente, o cientista político Francisco Weffort (1937-2021).

Entre os cânones que o guiaram, estão Karl Marx, Alexis de Tocqueville e Norberto Bobbio.

São poucos os acadêmicos no país que estudaram e debateram a democracia com tanta afinco quanto Moisés, que se tornou professor titular de ciência política da USP.

"A democracia foi sua paixão como acadêmico e, em igual medida, como intelectual público. Tendo chegado à idade adulta sob o autoritarismo, entender como o sistema democrático podia se enraizar e agir para que assim fosse eram coisas inseparáveis. O acadêmico tratou a questão olhando para as expectativas e opiniões dos brasileiros comuns. O intelectual militante apostou na força da sociedade organizada", diz Maria Hermínia Tavares, cientista política como o amigo e colunista da Folha.

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Os livros mais relevantes de Moisés são análises da democracia sob diferentes ângulos. Lançou "Lições de Liberdade e de Opressão", em que detalhava a importância do movimento sindical do final dos anos 1970 na luta contra a ditadura. O prefácio do livro, publicado em 1982, tinha a assinatura de Luiz Inácio Lula da Silva, expoente desse novo sindicalismo.

Dois anos antes, Moisés havia participado da fundação do Partido dos Trabalhadores. A relação com o PT, porém, foi sofrendo desgastes gradativamente.

Na eleição presidencial de 1989, o cientista político defendeu que o partido se posicionasse como uma esquerda rigorosamente democrática, distante do "socialismo real" representado pelos soviéticos. Para Moisés, não foi isso que ocorreu, o que acentuou seu afastamento.

Em 1995, foi convidado para assumir a secretaria de Apoio à Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso . Ao aceitar o cargo, selou seu afastamento da legenda de Lula, mas jamais se filiou ao PSDB, partido de FHC.

Neste mesmo ano, Moisés lançou "Os Brasileiros e a Democracia", talvez sua obra mais relevante. Discutia as transições democráticas em diversos países e, com base em uma ampla pesquisa, analisava o comportamento da população diante da política. O livro também mostrava os obstáculos das políticas públicas do país que dificultavam a legitimação democrática.

Depois dos anos em Brasília, retomou a vida acadêmica, foi voz atuante na imprensa e participou de movimentos pró-democracia.

Em entrevista ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), no ano passado, Moisés demonstrou preocupação com a situação do país. "Eu diria que o Brasil tem democracia, ela sobreviveu com um esforço enorme, agora tem alguns furos que, se não forem resolvidos, no médio prazo, vai levar a crises mais agudas do que a que nós tivemos agora."

Para Maria Tereza Sadek, professora sênior da USP, Moisés foi um dos mais importantes cientistas políticos do país. "É uma perda imensa", diz ela, também cientista política.

Sadek conta que, nos últimos meses, Moisés organizava um livro em homenagem a Weffort. Resta torcer para que alguém dê continuidade ao trabalho, que se tornaria um tributo a dois mestres que viveram para entender o Brasil e sua democracia.

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