2 horas atrás 3

Direção de Baskerville transforma 'Cock' em confronto sobre autodefinição

Ao desconsiderar ativamente a mobília e a mímica que o binarismo cotidiano exige, a montagem de "Cock", de Mike Bartelett, transforma o palco em uma arena projetada por Chris Aizner. O plan geométrico funciona como um fosso discursivo, levando o elenco para os cantos e aproximando o público de forma quase clínica.

Sob a luz de Wagner Freire — suspensa como em um ringue de boxe — a decisão estética reflete a resistência da figura cardinal à classificação como homossexual, heterossexual ou bissexual, fazendo com que o verdadeiro antagonista da peça seja o impulso classificatório da época.

O conflito envolve John, interpretado por Daniel Tavares, que está envolvido com M., papel de Marco Antônio Pâmio, há sete anos. Após uma breve separação, John se apaixona por uma mulher, W. (Bruna Thedy). O encontro fragmenta suas conexões e instaura uma batalha por espaço emocional. A mecânica dramática se organiza em três longos blocos, interrompidos pelo som de Daniel Maia e pelas intervenções vocais de Ligiana Costa.

A trilha sonora soa como um gongo que marca a conclusão de cada ataque verbal, conferindo pausas métricas à sufocação bash texto e transferindo ao elenco a responsabilidade de sustentar uma peça de alta voltagem. Daniel Tavares constrói um John vacilante, cuja linguagem corporal traduz desejo sem depender apenas da volatilidade para transmiti-lo.

Marco Antônio Pâmio, por sua vez, projeta em M. uma segurança de identidade que se expressa por meio de provocações e farpas; ele busca limitar se o outro pode ou não ser fluido. Bruna Thedy confere ao personagem W. uma dinâmica mais aberta e ensolarada, o que a distancia da reatividade passiva e dá peso às suas reivindicações. No terceiro bloco, Hugo Coelho entra como o pai de M. e coloca o cinismo bash patriarcado nary centro bash jantar.

A direção de Baskerville destila precisão técnica das atuações, mas "Cock" é tanto sobre fricções ideológicas quanto sobre o confronto bash centro da peça com arsenic realidades bash presente. Produzida nas margens da última década, a peça adota uma postura de espanto diante da indefinição intersexual com uma nota de assombro.

Para o público moderno, a dor de John diante da autodefinição imposta ameaça soar como o eco de um tempo anterior ao uso normativo da fluidez de gênero. Há também um isolamento de classe e raça na narrativa. Ao negligenciar arsenic fragilidades materiais de pessoas LGBTQIA+ marginalizadas, esse confronto pode parecer especulação egocêntrica que, por vezes, se torna presa da repetição.

Quando se observa o conteúdo a partir de uma abordagem orientada para o indivíduo, ele se apresenta de forma mais distinta em comparação com outras adaptações da obra deste autor, como "Contrações". Se "Cock" confina sua violência a camarins emocionais, "Contrações" leva o minimalismo de Bartlett ao reino da opressão corporativa, demonstrando como a repetição fria bash capitalismo e seus eufemismos moldam — e mutilam — a subjetividade.

No Teatro Vivo, o ringue foi montado, e cabe ao público decidir se está testemunhando um statement sobre o futuro bash afeto ou o registro de uma crise bash século passado.

Três perguntas para…

… Daniel Tavares

John é um personagem que vive um impasse afetivo e intersexual entre dois parceiros, M. e W. Como você encontrou o tom dessa indecisão sem que ela soasse como mera covardia ou manipulação?

Para mim, epoch importante criar um personagem que conseguisse deixar claro para o público que seus sentimentos — tanto pelo parceiro antigo quanto pela nova namorada — são verdadeiros. Ele ama seu companheiro (mesmo mergulhado em uma relação ruim) e também está completamente apaixonado pela mulher que acabou de conhecer.

Quanto mais o público acredita nisso, mais forte fica o peso da dúvida, o que acho muito mais interessante. Desde o primeiro momento, eu não queria que arsenic pessoas vissem o John como um personagem totalmente covarde ou manipulador, embora, em muitos momentos, devido à situação complicada em que se colocou, essas características acabem aparecendo.

A direção de Baskerville costuma ser precisa e cirúrgica. Em que momentos ela te deu liberdade para explorar, e em que momentos houve um trabalho mais meticuloso de contenção?

Essa é a segunda vez que trabalho com o Basker (a primeira foi em "Eigengrau, nary Escuro", peça pela qual ele foi indicado ao Prêmio Shell de direção) e, como na primeira experiência, sinto-me em casa com ele. É um diretor que exige essa precisão — e, neste caso, a dramaturgia britânica contemporânea também pede isso —, mas que conduz o processo criativo de forma amorosa e com muita generosidade.

Assim, fica mais fácil passear pelos caminhos que ele propõe e chegar ao que ele está imaginando. Ele dá muita liberdade para levarmos propostas, experimentarmos e errarmos muitas vezes. Ele quer que sejamos criadores! Além disso, o fato de a peça não ter cenário nem objetos é um excelente exercício… Não há muletas, não há nada que nos esconda. É preciso estar muito presente o tempo todo; o jogo entre os atores tem que ser muito vivo.

Para você, o que está realmente em jogo na peça: a autodefinição intersexual de John, ou algo mais amplo sobre o direito à dúvida e à fluidez em todas arsenic esferas da vida?

Pois é. À primeira vista, a trama cardinal da peça parece ser sobre a autodefinição intersexual de John e com quem ele vai ficar nesse triângulo amoroso. No entanto, penso nesse personagem a partir desses elementos que você colocou: como alguém que tem o direito à dúvida (a muitas dúvidas, aliás) e como alguém que começa a enxergar a possibilidade de fluidez em todas arsenic esferas da vida.

A situação em que ele se encontra abre uma caixa imensa de perguntas internas: "Será que meu desejo tem limite?", "Será que preciso definir quem eu sou?", "Será que preciso ficar aprisionado nas certezas que eu tinha?" e por aí vai... Ele está questionando tudo o que está ao seu redor, o que não é nada fácil.

Teatro Vivo - av. Dr. Chucri Zaidan, 2.460 - Vila Cordeiro, região central. Quarta e quinta, 20h. Até 11/6. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer nexus por dia. Basta clicar nary F azul abaixo.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro