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Duelo entre EUA e China derrama bilhões de dólares no Brasil

A contenção, pensada pelos EUA para frear a China, acelerou a China. Empresas chinesas sob sanção elevaram o gasto com pesquisa e desenvolvimento em 52,9% e os pedidos de patente em 57,6% em relação ao período anterior às restrições.

A DeepSeek é o caso mais visível. Em janeiro de 2025, a empresa lançou modelos de linguagem com desempenho comparável ao do ChatGPT o1 em testes de matemática e programação. Uma rodada oficial de treino do DeepSeek-V3 custou cerca de US$ 5,6 milhões, conta de 2,788 milhões de horas de processamento em GPUs H800 a US$ 2 a hora, segundo o relatório técnico da própria empresa. O número não cobre pesquisa anterior nem infraestrutura.

A consultoria SemiAnalysis estimou o gasto mais amplo em servidores em torno de US$ 1,6 bilhão. O modelo R1, aberto sob licença MIT, saiu de 20 a 50 vezes mais barato de usar que o o1, segundo a Reuters. Em abril de 2026, a DeepSeek mostrou uma prévia do V4 rodando em chip chinês Ascend, da Huawei. A China saiu do improviso por software e começou a casar modelo doméstico com hardware doméstico.

É nesse vácuo que o Brasil entra. A China precisa diversificar suas fontes de minerais críticos para não repetir a dependência da Austrália, com quem brigou entre 2020 e 2022.

O Brasil oferece uma alternativa geograficamente distante e politicamente não alinhada. O subsolo brasileiro casa com a demanda industrial chinesa. Pelo levantamento do USGS de 2026, o país tem 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, o segundo maior volume do mundo, atrás apenas da China. São os elementos que viram ímã permanente em motor de carro elétrico e turbina eólica.

A produção ainda é pequena, duas mil toneladas em 2025, perto de 0,5% do total global, e mais de 60% do que o Brasil exporta segue para a China, num fluxo que cresceu 48,6% no primeiro semestre de 2025.

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Em nióbio, o Brasil é dono do jogo: 104 mil toneladas em 2025, cerca de 93% da produção mundial. As reservas de lítio subiram para 540 mil toneladas, e a mina Grota do Cirilo, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, opera com um dos custos mais baixos do planeta, perto de US$ 318 a tonelada.

Em grafite, que responde por metade da massa de uma bateria de íon-lítio, a China controla cerca de 75% da oferta mundial, o que dá valor estratégico ao grafite que sai da Bahia e do Ceará.

O valor dessas reservas subiu por um motivo que não está no subsolo. Em abril de 2025, a China apertou os controles de exportação de terras raras. Em outubro, ampliou as restrições. Em novembro, suspendeu por um ano a leva de outubro, mas manteve a de abril.

Em junho de 2026, segundo a Reuters, parte dos minerais críticos chineses seguia difícil de conseguir por causa de licenças travadas, e os controles sobre o fosfeto de índio, usado em chips ópticos para data centers de IA, já desorganizavam cadeias de fornecimento. Cada aperto desses joga o comprador global na busca por quem não está sob controle de Pequim. O Brasil é um dos poucos nessa lista.

A BYD, maior fabricante de carros elétricos do mundo, mostra a profundidade dessa integração. A empresa comprou direitos de lavra de lítio em 852 hectares no Vale do Jequitinhonha e ergue um complexo em Camaçari, na Bahia, com R$ 5,5 bilhões de investimento, a 12 horas de estrada das áreas de mineração.

O primeiro carro 100% elétrico saiu da linha em 1º de julho de 2025, ainda em fase de testes. A operação plena chega em 2026, quando a montadora pretende fabricar ou comprar no Brasil metade das peças. Great Wall Motors, GAC, Chery e JAC seguem o mesmo caminho. No primeiro semestre de 2024, fabricantes chineses já respondiam por 91% dos elétricos e híbridos importados pelo país.

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Essa aproximação ganhou moldura de Estado. Em novembro de 2024, durante a visita de Xi Jinping ao Brasil e a cúpula do G20 no Rio, os dois países elevaram a relação ao nível mais alto do vocabulário diplomático chinês e assinaram 37 acordos.

Em maio de 2025, a viagem de Lula a Pequim trouxe R$ 27 bilhões em investimentos e documentos que falam dos próximos 50 anos de parceria. O comércio entre os dois países bateu recorde de US$ 171 bilhões em 2025, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, e a China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009.

A geografia também está sendo reescrita por obra física. O megaporto de Chancay, no Peru, construído pela China por US$ 3,6 bilhões e inaugurado em 2024, encurta em cerca de dez dias a viagem da costa do Pacífico sul-americano até a Ásia.

Em estudo, uma ferrovia bioceânica de mais de US$ 70 bilhões ligaria o Atlântico brasileiro a esse porto e cortaria cerca de 12 dias de frete para o interior do país. Mesmo no papel, o projeto mostra a escala da aposta chinesa na América do Sul.

O Brasil virou o maior destino global do investimento chinês em 2025, com US$ 6,1 bilhões, alta de 45% sobre 2024 e número recorde de projetos, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. A agência de financiamento ao desenvolvimento dos Estados Unidos, a DFC, colocou US$ 11 bilhões em todo o Hemisfério Ocidental desde que foi criada.

A empresa de energia State Grid investe US$ 3,4 bilhões numa linha de transmissão de 1.500 quilômetros para levar energia limpa do Nordeste ao centro do país, a primeira aplicação da tecnologia chinesa de ultra-alta tensão nas Américas, prevista para 2029.

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Com 88,2% da matriz elétrica vinda de fontes renováveis em 2024, o Brasil consegue refinar minério e fabricar bateria com uma pegada de carbono que poucos concorrentes alcançam. Esse mesmo trunfo abre a porta do hidrogênio verde: no Porto do Pecém, no Ceará, uma missão brasileira já testou e aprovou na China um eletrolisador de grande porte para produção em escala.

Desde março de 2023, um acordo de compensação direta entre real e yuan permite que empresas dos dois países fechem negócios sem passar pelo dólar. A moeda norte-americana ainda domina perto de 88% das transações cambiais globais.

O Brasil decidiu não barrar a Huawei no 5G, apesar da pressão norte-americana. E a empresa chinesa anunciou um centro de pesquisa de R$ 1 bilhão em São Paulo. O programa de satélites CBERS, uma parceria com a China desde 1988, prepara o CBERS-6 com radar capaz de enxergar a Amazônia através das nuvens, capacidade que o país nunca teve.

A força do Brasil está em ser cortejado pelos dois lados ao mesmo tempo. O presidente Lula repete que ninguém vai impedir o país de desenvolver a relação com a China e que não entra em guerra fria com ninguém. Enquanto recebe capital chinês na mineração, o Brasil fechou com a DFC US$ 580 milhões para um projeto de níquel e cobalto no Piauí.

No Congresso, o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, o PL 2780/24, passou na Câmara em 6 de maio de 2026 e foi para o Senado, ainda sem virar lei. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões, valor modesto diante dos US$ 48 bilhões que a China colocou só no seu fundo de semicondutores.

O supercomputador de 5 mil GPUs prometido para 2026 ainda não teve operação confirmada. E a vantagem agrícola, que o Brasil sempre tratou como trunfo, ficou volátil. Em maio de 2026, a Casa Branca anunciou que a China compraria ao menos US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas americanos. A compra efetiva ficou abaixo do prometido e a China seguiu preferindo a soja brasileira, com 73,6% do mercado de importação chinês em 2025.

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Em 1º de junho de 2026, o Tesouro Nacional lançou uma rodada do Eco Invest Brasil para mobilizar até R$ 50 bilhões em cadeias estratégicas, do processamento de minerais críticos às baterias e à química verde.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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