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E o socialismo está com você na sala?

O meme virou tendência nas redes sociais: um psicanalista pergunta ao paciente, deitado num divã, se a entidade imaginária que o aterroriza está presente na sala. Tenho me lembrado dessa imagem sempre que ouço alguém argumentar com o bicho-papão do socialismo.

Donald Trump apostou nas críticas ao socialismo como pilar de sua retórica política para atacar os oponentes democratas. Nem o muito moderado Joe Biden escapou, como se fosse a reencarnação de Stalin, andasse sempre com "O Capital" de Karl Marx debaixo do braço e quisesse enviar inimigos para os Gulag. Da assistência na saúde ao pacto ambiental, Trump catalogava tudo como ideias socialistas e comunistas.

No Brasil, Bolsonaro também fez do antissocialismo um eixo central de sua estratégia de comunicação.

No seu discurso de posse, em 2019, disse que aquele era "o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo", referindo-se ao PT e ao seu líder.

O problema é que Lula, que se identifica como um "socialista democrático", nunca governou como um socialista na definição clássica do termo, um estágio pré-comunista, que implica a defesa da ruptura com o capitalismo, planejamento central da economia e estatização dos meios de produção.

Olhando de fora, Lula é claramente um político de centro-esquerda, que se alinha com os ideais sociais-democratas, promove a economia de mercado e defende a justiça social através de políticas sociais de redistribuição.

A estratégia fez escola e, como não podia deixar de ser, o autodeclarado anarcocapitalista Javier Milei usou essa cartilha e escolheu o socialismo como inimigo público a abater.

Agora, na corrida presidencial em Portugal, o mesmo argumento repete-se até à náusea. O radical de direita André Ventura diz travar uma batalha existencial contra o socialismo —e até que "o socialismo mata". Uma alucinação: o seu adversário é tão centrado, moderado e conciliador que muitos o criticam por ser "a esquerda que a direita gosta".

Socialismo, o insulto favorito do momento, é um saco sem fundo para onde se atira tudo o que seja vagamente humanista. Quer subir salário mínimo ou pensões? Socialista. Melhor escola e a saúde públicas? Olha aí o socialista! Preocupa-se com a desigualdade, os direitos humanos, o racismo? Perigoso socialista!

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Em inglês, há um nome para esta estratégia —chama-se "red-baiting", ou assédio vermelho. Não tem aderência à realidade, mas causa impacto. É a falácia lógica do "Reductio ad Stalinum": visa desacreditar a validade do argumento lógico de um oponente, acusando-o de ser marxista, socialista ou stalinista.

O mesmo é válido para o outro lado do espectro político, note-se (é o "Reductio ad Hitlerum"). O conceito de fascismo é difícil de preencher, porque vai muito além do nacionalismo com autoritarismo, e muita direita populista mas não extremista é de imediato catalogada como tal.

Vivemos num tempo em que os fatos não importam, as mentiras são gulosas e os conceitos são derretidos até o estágio em que podem ser moldados. Mas se não nos entendemos em relação aos nomes das coisas e ao que representam, nunca vamos conseguir ter uma discussão séria sobre valores e democracia.

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