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Em defesa da regulação, e até do fim, do Airbnb

Tenho lugar de fala para falar dos impactos econômicos do Airbnb porque morei cinco anos em Lisboa.
A capital portuguesa é um dos cases mais emblemáticos de como o alojamento local (como eles chamam por lá) pode destruir uma cidade por dentro.
Antes, um pouco de história: Lisboa saiu cambaleando de um resgate financeiro internacional em 2011.
O governo precisava de dinheiro externo, e rápido. A solução foi "vender" o país para o investidor estrangeiro.

Criou-se o chamado Golden Visa: um caminho para a residência e o passaporte tuga em troca de um investimento acima de 500 mil euros no país.
De 2012 a 2023, o país arrecadou US$ 6,8 bilhões com o programa. Deu certo: só que não.
O dinheiro poderia ir para a construção de empresas e geração de empregos.
Só que ele foi parar no mercado imobiliário.
De acordo com o Serviço de Imigração e Fronteiras de Portugal, 90% dessa bolada foi usada para a compra de imóveis.

Milionários russos, chineses, brasileiros, americanos, investidores de toda natureza, compraram prédios e quarteirões inteiros e fizeram a festa.
Os bairros mais históricos (e turísticos) da cidade viraram commodities.
A freguesia de Santa Maria Maior, por exemplo, chegou a registrar 67% de unidades em alojamento local. A da Misericórdia, 50%.
Pense nisso. Em metade dos imóveis disponíveis, não morava ninguém com endereço fixo.

Eu passava por Alfama, onde o fado nasceu, e via postes e portas de prédios com fileiras de cadeados pequenos do lado de fora.
Aquelas caixinhas de metal penduradas nas grades, com chaves dentro, indicavam: aqui tem uma colmeia de Airbnb.
Check-in rápido e sem precisar encontrar nenhum ser humano.
Era o símbolo físico do problema. Uma cidade que havia virado produto.

Esse turismo massivo e descontrolado desconfigurou bairros inteiros de Lisboa.
Como a hospedagem temporária dava mais retorno financeiro, muitos proprietários passaram a não renovar os contratos de aluguel vigentes.
Os senhorios mais 'bonzinhos' começaram a dobrar ou triplicar o valor dos arrendamentos.
O metro quadrado da cidade disparou e a gentrificação chutou as portas das casas, expulsando os locais.
Aprendeu-se que a hospedagem temporária sem regulamentação gera conflitos de vizinhança, muda relações urbanas e afeta a oferta de habitação para quem vive na cidade.

O governo português, há dois anos, acabou com o Golden Visa para quem comprasse imóveis. Mas era tarde demais...
Dan Jørgensen, Comissário da União Europeia para a Energia e Habitação, estimou recentemente que os preços da habitação em Portugal estejam sobrevalorizados em 25%.
É a porcentagem mais elevada de todos os países do Bloco Europeu.
E é o que acontece quando um Estado decide que uma cidade não é para as pessoas que moram nela, mas para quem passa por ela dois dias e vai embora.

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