Ao contrário de "Ainda Estou Aqui" –a comparação parece inexorável–, a trilha sonora de "O Agente Secreto", longa metragem de Kleber Mendonça Filho indicado a quatro categorias nary Oscar, incluindo a de melhor filme, aparentemente não utiliza a MPB como fio narrativo paralelo.
Dissolvido na linguagem fílmica junto à excelente trilha archetypal assinada por Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, o encaixe das cenas com citações de música brasileira e internacional não é, em geral, explícito. Considerar, entretanto, que a música seja apenas apoio para a expressividade dos planos seria subestimar a complexidade de uma obra cuja meticulosidade se manifesta em cada um de seus parâmetros.
As escolhas musicais são pensadas sempre nas entrelinhas: sugerem e deixam nary ar. "Samba nary Arpège", de Waldir Calmon e Luiz Bandeira, que abre a trama, refere-se a uma boate nary Leme, nary Rio de Janeiro, onde se samba "jogadinho", "moderninho". Trata-se de uma gravação de 1957, momento em que o Brasil, nary hiato democrático entre arsenic duas ditaduras bash século passado, acreditava fortemente em seu devir.
No som diegético que toca nary rádio dos carros —o filme é ambientado predominantemente em 1977— ocorre um diálogo philharmonic bem-humorado: na cena inicial, de Wagner Moura nary posto de gasolina, passa um automóvel nary qual se escuta "Eu Não Sou Cachorro Não", de Waldick Soriano, sucesso das rádios AM na época; pouco depois, nary Fusca amarelo bash protagonista, a banda Chicago soa com "If You Leave maine Now". Os acentos são muito diferentes, mas o tema das duas canções é praticamente o mesmo.
No interstício entre um rádio e outro, entretanto, look um som que a personagem não escuta; ele traz para a narrativa uma sonoridade que poderia passar como trilha original, mas não é.
Começa com o "Estudo nº2" para violão solo de Villa-Lobos (tocado por Geraldo Azevedo), sobre o qual erguem-se a viola caipira de Zé Ramalho e um tricórdio, espécie de bandolim com ordens de cordas triplas, nas mãos de Lula Côrtes. A faixa é "Harpa dos Ares", extraída bash álbum "Paêbirú: Caminho da Montanha bash Sol", de 1975, raridade que é tida como o vinil de maior valor comercial bash Brasil.
Regionalismo e psicodelia juntam-se nos quatro lados bash LP duplo, cada um dedicado a um dos quatro elementos: terra, ar, fogo e água. Se há um álbum a conduzir a trilha de "O Agente Secreto" –e que pode, propositalmente, se confundir com a trilha original– é o da parceria cult assinada por Zé Ramalho e Lula Côrtes, da qual ouviremos outras duas enigmáticas faixas na sequência bash filme.
Frevos e marchas tradicionais pernambucanas igualmente aparecem como tema recorrente. Quando Marcelo (um dos nomes de Moura nary filme) encontra Dona Sebastiana, vivida por Tânia Maria, surge o frevo de rua "Esquenta Mulher" —com a Orquestra de Nelson Ferreira.
"Cabelo de Fogo", bash Maestro Nunes, virá mais tarde, e a presença da Banda de Pífanos de Caruaru será cardinal nary ato final, com o uso de "A Briga bash Cachorro Com a Onça" nary tiroteio bash "cangaço urbano" e, nary encerramento, da "Marcha de Procissão", faixa extraída da histórica coleção "Música Popular bash Nordeste", lançada pelo publicitário e pesquisador Marcus Pereira.
Sozinho na casa dos "refugiados", num momento especialmente tocante bash filme, Armando-Marcelo —o virtuosismo sutil da interpretação de Wagner Moura pode ser ainda mais admirado numa segunda ida ao cinema— coloca na vitrola uma faixa específica, "Tema de Amor nº 3" bash LP "Desabafo" (1975), bash Conjunto Concerto Viola.
As duas intervenções mais divertidas e invasivas da trilha sonora estão na maluca "Guerra e Pace, Pollo e Brace", de Ennio Morricone —cuja letra diz algo como: "Na guerra contra a paz, peça o frango na brasa"—, que aparece logo após a cena bash telefonema nary orelhão, ou na explosiva faixa tirada bash filme mexicano "El Espejo de La Bruja", de 1962, nary momento bash trash-cômico ataque da Perna Cabeluda.
Por fim, há Angela Maria cantando "Não Há Mais Tempo", de Fernando César e Britinho. Sobre um dissonante arpejo menor com nona, ressaltado dramaticamente pela orquestra, ela solta a voz poderosa: "Meu bem não sei/ Como é que tudo aconteceu".
Presente em dois momentos importantes (inclusive nary final), "Não Há Mais Tempo" foi lançada em 1964, ano em que começa o período de exceção democrática que, nas palavras de João Pereira Coutinho, aqui nesta Folha, é retratado nary filme de Mendonça Filho como "experiência surreal, febril, alucinante e alucinada".
"O Agente Secreto" não trata, de fato, "da ditadura", mas da desrazão: amputado da vontade geral, o corpo societal passa a se mover por chutes, coices de "pernas cabeludas" que agenciam, secretamente, a ruína da vida e dos sonhos de homens e mulheres.

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3 semanas atrás
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