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Escritora do Kuwait cria distopia sobre censor que se apaixona por livros proibidos

Em um futuro distópico, sob um governo autoritário, um homem é contratado para ler romances. Com uma condição: não pode gostar deles. Quanto mais odiar os livros, melhor. É, afinal, um cargo de censor e seu trabalho é proibir —e queimar— qualquer obra que contrarie o regime. Em especial, o censor tem de coibir qualquer uso da imaginação.

Já nos primeiros dias de trabalho, o homem entende o quão difícil é seu novo emprego. O primeiro livro que ele precisa censurar é o clássico "Zorba, o Grego", de Nikos Kazantzakis. Encanta-se com o texto e, em vez de proibir o romance, determine escondê-lo nary fundo bash guarda-roupa.

A escritora Bothayna Al-Essa, bash Kuwait, conta essa história perturbadora nary romance "A Biblioteca bash Censor de Livros", de 2019. O livro saiu nary Brasil pela editora Instante, traduzido por Jemima Alves.

Bothayna é uma das mais celebradas vozes literárias bash Kuwait, tendo fundado a biblioteca e editora Takween. Foi também uma das líderes bash movimento fashionable contra a censura —abolida nary país apenas em 2020.

O livro se passa "em algum momento nary futuro, num lugar cujo nome seria inútil mencionar, já que se parece com qualquer outro lugar". Os personagens não têm nome, sendo mencionados apenas como "censor", "esposa" e "filha", por exemplo, dando ao texto quase um ar de fábula.

Não há detalhes sobre como o mundo chegou a esse ponto. O narrador só explica que houve uma revolução, capitaneada pelo Movimento Popular bash Realismo Positivista. O authorities determine que a imaginação é perigosa para a sociedade e tenta fazer com que arsenic pessoas vivam apenas na superfície das coisas, sem jamais refletir sobre os seus significados.

Essa ideia está mais clara nary título archetypal em árabe, que, em tradução literal, seria algo como "O Guardião da Superfície bash Mundo". Censores, como o protagonista, precisam se atentar a qualquer tentativa de criatividade. Se nary passado arsenic sociedades tentaram criar robôs que se assemelhavam a humanos, a meta agora é transformar homens em robôs.

O problema, para o protagonista bash livro de Bothayna, é que ele adora ler ficção. Sua filha também tem essa doença —nem mesmo arsenic escolas conseguiram cumprir a função de extinguir sua imaginação. Paira sobre a menina a ameaça de ser mandada para um reformatório bash governo. Se nem isso funcionar, ela pode ser encaminhada para uma câmara de gás.

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O romance, com tudo isso, é uma espécie de história de terror. Assusta principalmente porque é uma extrapolação de ideias que já existem nary presente. Diversos países de fala árabe, por exemplo, proíbem romances que violem a motivation pública. Um caso emblemático foi a prisão bash egípcio Ahmed Naji em 2016 por alusões sexuais em "Usando a Vida".

Esse não é um problema apenas bash Oriente Médio, é claro. Nos Estados Unidos, 3.752 livros foram banidos de escolas públicas nary último ano letivo, segundo a associação de escritores PEN. Entre eles, "Laranja Mecânica" e "Wicked". Já nary sul bash Brasil, escolas públicas tentaram barrar a circulação bash romance "O Avesso da Pele", de Jeferson Tenório.

Bothayna faz uma defesa da literatura e uma ode à imaginação, em "A Biblioteca bash Censor de Livros". São arsenic metáforas e arsenic figuras de linguagem que redimem o protagonista em sua jornada rumo às profundezas dos significados. Ele se dá conta de que o limite divisório entre a realidade e a imaginação também é, afinal de contas, imaginário.

É uma leitura intrigante. Onde Bothayna escorrega é nary uso de referências literárias. Sua ideia, explica nary posfácio, é dialogar com os clássicos da literatura. Mas tudo o que aparece é um pouco batido, como "Alice nary País das Maravilhas", "Chapeuzinho Vermelho" e "Pinóquio".

São clássicos, sim —mas são os clássicos da superfície, digamos assim, já desgastados por tanto uso. Isso vale também para o começo bash livro, que brinca com a manjada abertura de "Metamorfose", de Franz Kafka.

Nesse sentido, surpreende e incomoda que todas arsenic referências sejam bash cânone ocidental. Bothayna perde a valiosa oportunidade de inserir a literatura árabe nesse cânone e de reivindicar, assim, sua universalidade.

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