Jeffrey Epstein em retrato

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Mensagens mostram pagamentos de Epstein a brasileiras, ajuda com logística em viagens e troca de favores
    • Author, Leandro Prazeres
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Há 4 minutos

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O criminoso sexual Jeffrey Epstein comprou, em 2003, um imóvel em um condomínio de alto padrão no bairro Vila Olímpia, um dos mais valorizado na zona sul de São Paulo. O imóvel ficou em nome dele por dois anos e depois foi vendido.

A BBC News Brasil teve acesso ao registro do imóvel e identificou as transferências feitas por ele à antiga proprietária.

Nos últimos dias, veio a público em reportagem do ICL que Epstein tinha um CPF no Brasil. A informação foi confirmada pela BBC News Brasil. O ICL também noticiou que a aquisição de um imóvel no país teria sido intermediada por um escritório de advocacia brasileiro.

Segundo o registro oficial, o apartamento tinha área privativa de 93 metros quadrados. A planta original prevê dois quatros, dois banheiros e dá direito a duas vagas na garagem. No documento, Epstein é registrado como um "consultor".

Dois anos depois, o imóvel foi vendido à modelo e empresária do ramo da moda Ana Maria Gomes Macedo. Segundo o registro cartorial obtido pela BBC News Brasil, o imóvel continua em propriedade dela.

A comprovação de que Epstein teve um imóvel no Brasil é o mais recente indício da sua relação com o país.

Na última semana, a BBC News Brasil revelou que ele tentou se aproximar de empresários brasileiros e autorizou investimentos em ativos atrelados à economia brasileira.

A BBC também divulgou que Epstein mantinha uma intensa troca de mensagens com modelos brasileiras, segundo emails do bilionário que foram divulgados pelo governo americano.

O Ministério Público Federal instaurou, nesta semana, um procedimento para verificar se havia uma rede de aliciamento de mulheres no país ligada a Epstein.

Apartamento em bairro nobre

O registro obtido pela BBC News Brasil mostra que o imóvel foi escriturado no dia 5 de maio de 2003. Ele foi comprado por Epstein de uma médica brasileira por R$ 245 mil em valores da época.

Comparadores de preços e sites especializados em pesquisa imobiliária apontam que hoje, cerca de duas décadas depois, um apartamento no mesmo prédio custa a partir de R$ 1,6 milhão.

Nos documentos divulgados pelo governo norte-americano, aparecem extratos bancários que indicam duas transferências para a conta bancária da médica brasileira que vendeu o imóvel. No total, elas somaram US$ 77,4 mil. Na cotação da época, isso equivalia a pouco mais de R$ 255 mil.

Dois anos depois, no dia 1º de agosto de 2005, o imóvel foi vendido a Ana Macedo. Um dos detalhes que chamam atenção na transação é o valor da venda. O apartamento foi vendido por Epstein a ela por R$ 179,3 mil, um valor menor do que foi gasto pelo financista para adquiri-lo.

A reportagem tenta há uma semana contato com a empresária e atual dona do imóvel por meio de duas de suas contas no Instagram, mas não obteve resposta.

Os documentos divulgados pelo governo norte-americano nos últimos meses apontam que Epstein e Macedo trocaram e-mails entre 2006 e 2011 e mantinham uma relação de relativa proximidade.

Aparecer nos documentos não significa, necessariamente, a prática de qualquer crime, conduta imprópria ou conhecimento dos crimes praticados por Epstein.

'Te amo'

A BBC não identificou, na troca de mensagens entre eles, qualquer menção ao imóvel.

Os e-mails mostram que os dois trocaram mensagens esparsas, em que a modelo comenta, por exemplo, que estaria feliz com o retorno de Epstein a Nova York em meados de 2010, pouco depois de ele ter sido liberado da prisão, em 2009.

"Ótimo que você está de volta! Eu nunca vou esquecer tudo o que você fez comigo, meu amigo. Te amo", diz mensagem do dia 1º de julho de 2010, enviada pela brasileira em resposta a um e-mail de Epstein.

No dia 23 de novembro de 2011, a modelo recorre a Epstein pedindo ajuda financeira. Ela pede que o financista a ajude com seu negócio de roupas.

"Oi, meu amigo. Está de volta a NY (sigla para Nova York)? Você pode me ajudar? Você pode comprar alguns vestidos para as meninas! Eu tenho que colocar dinheiro no meu novo show room, então se você comprar alguns você está me ajudando", diz um trecho do e-mail.

Não fica claro a quais meninas a modelo se refere no e-mail. Não há registro sobre a resposta de Epstein.

Epstein sentado, com mão no queixo

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Novas mensagens do arquivo Epstein foram divulgadas pelo governo americano nos últimos meses

Os documentos mais recentes divulgados pelo governo norte-americano vêm mostrando uma ligação próxima do financista com o Brasil.

Nesta semana, por exemplo, a BBC News Brasil revelou que ele tentou se encontrar com pelo menos três empresários renomados do Brasil: Eike Batista (que já foi o sétimo homem mais rico do mundo, segundo a revista Forbes), Jorge Paulo Lemann, atualmente a terceira pessoa mais rica do Brasil, e o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga.

Os três negam terem tido qualquer tipo de contato com Epstein.

A divulgação dos documentos, no entanto, também revelou que Epstein teria financiado modelos brasileiras.

As suspeitas fizeram com que o Ministério Público Federal (MPF) abrisse uma investigação sobre possíveis tentativas de aliciamento de mulheres brasileiras para abastecer a rede de exploração sexual supostamente utilizada pelo norte-americano. O caso corre em sigilo.

Conforme mostrou a BBC News Brasil, o MPF recebeu uma denúncia na última semana sobre uma troca de emails entre uma outra brasileira e Epstein, ocorrida em 2010, em que eles tratavam de uma viagem de uma mulher de Natal, descrita como alguém de "família simples", aos Estados Unidos.

Na troca de mensagens, Epstein pediu fotos da brasileira de biquíni ou sutiã. Não é possível saber, pelas mensagens, o objetivo da viagem ou se ela ocorreu de fato.

Essa denúncia resultou em um procedimento formal, agora instaurado na Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes. O órgão é uma estrutura especializada no MPF que centraliza todas as investigações e ações judiciais do país nessa área.