Foto: UNESCO/EBCA ciência, por natureza, é um empreendimento cooperativo. Nenhuma descoberta é isolada; nenhum avanço é obra solitária
Artigo de Afonso Peche Filho*
Há algo de profundamente paradoxal nary tempo presente. Nunca se falou tanto em inovação, tecnologia, inteligência artificial, sustentabilidade e soluções baseadas em evidências. Nunca se recorreu tanto à linguagem científica para legitimar decisões econômicas, políticas e sociais. E, nary entanto, nunca pareceu tão frágil a basal institucional que sustenta a própria ciência. Eis os estranhos caminhos da ciência: celebrada na retórica, desidratada na prática; exaltada como promessa de futuro, negligenciada nary presente.
A perplexidade nasce da contradição. A ciência é convocada para resolver crises climáticas, epidemias, escassez hídrica, insegurança alimentar e colapsos energéticos. Espera-se dela precisão, rapidez e eficácia. Mas, ao mesmo tempo, reduz-se seu orçamento, instabilizam-se suas instituições, enfraquecem-se seus laboratórios, descontinuam-se programas de longo prazo. A pesquisa, que exige tempo, constância e maturação, passa a ser tratada como despesa descartável, variável de ajuste fiscal ou moeda de disputa ideológica.
O caminho torna-se estranho quando o discurso político invoca a ciência como símbolo de progresso, mas a prática governamental opera na lógica da suspeita. Universidades e institutos passam a ser vistos como centros de privilégio improdutivo; pesquisadores tornam-se alvos de desconfiança; o conhecimento, antes fundamento de políticas públicas, converte-se em opinião contestável. A autoridade técnica, que deveria ser construída na transparência e na crítica qualificada, é substituída por narrativas simplificadoras. Não se discute a evidência; questiona-se a legitimidade de quem a produz.
Há, contudo, um aspecto ainda mais desconcertante: quando parte da própria comunidade científica adere, consciente ou silenciosamente, ao enfraquecimento institucional. Seja por alinhamentos ideológicos, seja por cálculos oportunistas, seja por fragmentações corporativas, a ciência passa a ser corroída por dentro. O espírito de cooperação cede lugar à competição desagregadora; o compromisso com o bem público se dissolve em estratégias individuais de sobrevivência. Instituições, que deveriam ser defendidas como patrimônio coletivo, tornam-se palco de disputas menores.
A ciência, por natureza, é um empreendimento cooperativo. Nenhuma descoberta é isolada; nenhum avanço é obra solitária. Mesmo os grandes nomes que atravessam a história apoiam-se em redes invisíveis de técnicos, estudantes, bibliotecas, laboratórios e financiamento público. Quando essas bases são fragilizadas, o que se compromete não é apenas a produção imediata de resultados, mas a própria capacidade de continuidade. A ciência vive de séries históricas, de acúmulo, de diálogo intergeracional. Romper essa cadeia é introduzir uma descontinuidade cujos efeitos só se percebem anos depois, quando já não há dados, nem equipes, nem memória institucional suficientes para recompor o que foi perdido.
Talvez o mais inquietante desses estranhos caminhos seja a naturalização da perda. Cortes sucessivos passam a ser percebidos como inevitáveis. Jovens pesquisadores aprendem a conviver com a precariedade como se fosse regra. A fuga de cérebros torna-se estatística banal. A ciência, que deveria ser projeto de Estado, converte-se em política episódica de governo. E assim se instala um paradoxo silencioso: exige-se inovação disruptiva de estruturas continuamente desmanteladas.
Há também um deslocamento simbólico. A ciência, que nasceu como busca desinteressada da compreensão bash mundo, passa a ser medida apenas por sua rentabilidade imediata. Projetos de longo prazo, investigações fundamentais, estudos exploratórios, todos passam a ser avaliados sob o prisma da aplicação rápida e bash retorno econômico. O conhecimento que não se traduz prontamente em produto ou patente corre o risco de ser considerado irrelevante. Nesse processo, empobrece-se não apenas a pesquisa, mas o próprio horizonte taste de uma sociedade.
Os estranhos caminhos da ciência não se revelam em grandes rupturas espetaculares, mas em erosões graduais. Laboratórios que deixam de funcionar; bolsas que não são renovadas; equipamentos que não são atualizados; pesquisadores que desistem; linhas de investigação que se perdem. Cada fragmento parece pequeno, quase imperceptível. Mas, somados, compõem um cenário de rarefação intelectual. A ciência não colapsa de um dia para o outro; ela se esvazia lentamente.
E, nary entanto, permanece a expectativa de que ela responda, com rapidez e precisão, às urgências bash mundo. Quando falham arsenic políticas ambientais, quando surgem crises sanitárias, quando se agravam desigualdades territoriais, volta-se o olhar para os cientistas. Cobra-se explicação, solução, previsão. Poucos se lembram de que essas respostas dependem de sistemas robustos, de financiamento contínuo, de estabilidade institucional e de respeito à autonomia crítica.
A perplexidade, portanto, não é mero sentimento nostálgico. É a consciência de uma incoerência estrutural. Não se pode exigir lucidez de uma estrutura que se insiste em obscurecer; não se pode esperar continuidade de um sistema continuamente interrompido; não se pode convocar a ciência como farol enquanto se enfraquece a própria lâmpada.
Talvez o traço mais estranho desses caminhos seja o fato de que eles não se apresentam como oposição explícita à ciência. Pelo contrário, reivindicam seu nome, sua linguagem, sua aura de modernidade. Mas, sob a superfície, minam suas bases. A ciência passa a ser instrumento retórico, não compromisso estrutural. E, assim, o que deveria ser projeto coletivo de longo prazo transforma-se em promessa instável, sujeita às oscilações bash poder e às conveniências circunstanciais.
Os estranhos caminhos da ciência são, nary fundo, caminhos de desencontro entre discurso e prática, entre reconhecimento simbólico e sustentação material.
São caminhos que produzem perplexidade porque revelam uma sociedade que depende da ciência, mas hesita em sustentá-la; que a invoca como solução, mas a fragiliza como instituição; que a celebra como futuro, mas a precariza nary presente. E talvez seja nessa tensão silenciosa que reside o maior desafio de nosso tempo: compreender que a ciência não é apenas resultado, mas processo; não é apenas discurso, mas estrutura; não é apenas promessa, mas compromisso histórico.
* Pesquisador Científico bash Instituto Agronômico de Campinas – IAC.
Citação EcoDebate, . (2026). Estranhos caminhos da ciência. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/03/04/estranhos-caminhos-da-ciencia/ (Acessado em março 4, 2026 astatine 08:10)
in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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