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EUA trituram frota de caças F-14 para não cair nas mãos do Irã

A lógica era simples: cada peça destruída seria uma a menos que poderia alimentar a frota iraniana de F-14.

Irã e seus F-14

 País persa é o único do mundo a utilizar o modelo atualmente
Caça F-14 usado pelo Irã: País persa é o único do mundo a utilizar o modelo atualmente Imagem: Tasnim News/via Wikimedia Commons

No início dos anos 1970, o xá (soberano) Mohammad Reza Pahlavi era aliado de Washington (EUA) e buscava um novo caça para proteger o espaço aéreo iraniano. Ele visitou os EUA e se impressionou com a demonstração do F-14, capaz de combater alvos a grande distância.

Ele também se destacava pela asa de geometria variável, que se abre para pousos e decolagens em baixa velocidade e se retrai em voo supersônico. O Irã encomendou 80 aeronaves em meados da década de 1970, junto com mísseis e um amplo pacote de suporte, infraestrutura e treinamento de pilotos e técnicos.

Quando a Revolução Islâmica de 1979 derrubou o xá, o novo regime herdou uma frota de F-14 ainda relativamente moderna, pilotos altamente treinados e um estoque significativo de armamentos, mas perdeu o acesso ao suporte dos EUA e ao fornecimento regular de peças.

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Do aliado ao 'Eixo do Mal'

Navio F-14B sobrevoa o porta-aviões USS George Washington (CVN 73) no golfo pérsico em 1997
Navio F-14B sobrevoa o porta-aviões USS George Washington (CVN 73) no golfo pérsico em 1997 Imagem: Tenente Bryan Fetter/24.nov.1997/Marinha dos EUA

Com o rompimento político, o Irã passou de aliado estratégico a adversário declarado de Washington, situação que se consolidaria nas décadas seguintes, culminando na classificação do país como parte do "Eixo do Mal" pelo governo George W. Bush no início dos anos 2000.

Nesse contexto, o F-14 virou um ativo sensível: era um avião avançado, com eletrônica e sistemas de armas que os EUA não queriam ver mantidos em boas condições nas mãos de um rival na região.

O embargo de peças e suporte obrigou Teerã a improvisar. Para manter alguns Tomcats voando, a Força Aérea iraniana passou a canibalizar aeronaves, desmontando parte da frota para fornecer componentes a outros exemplares, além de recorrer a engenharia reversa e redes de contrabando para obter itens críticos.

Hoje, o Irã é o único país que ainda opera o modelo, mas manter essas aeronaves em condição de combate é cada vez mais difícil sob sanções e com uma cadeia logística praticamente inexistente.

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Triturando os F-14 remanescentes

Alguns dos últimos F-14 Tomcat são levados para serem picotados em pequenos pedaços nos EUA
Alguns dos últimos F-14 Tomcat são levados para serem picotados em pequenos pedaços nos EUA Imagem: Reprodução/Revista do 309 AMARG da Força Aérea dos EUA

Quando o F-14 foi retirado de serviço, o plano inicial do Departamento de Defesa dos EUA era destruir apenas peças específicas e vender outros componentes em leilões de excedentes, como costuma acontecer com material militar desativado. Após alertas de que compradores ligados a alguns países vinham explorando brechas para adquirir itens sensíveis, o governo dos EUA suspendeu a venda de qualquer componente de Tomcat e decidiu partir para a solução mais drástica: mandar praticamente todas as células restantes para a sucata, cortadas de forma a impedir reaproveitamento militar.

Na prática, a medida tinha um peso tanto operacional quanto simbólico. Isso reduziu a oferta de peças que poderiam prolongar a vida útil dos F-14 iranianos ao mesmo tempo em que mostrou que Washington estava disposto a abrir mão de um ativo histórico de alto valor para negar vantagem tecnológica a um adversário que luta para manter jatos da Guerra Fria em condições mínimas de uso.

Os poucos F-14 preservados nos EUA estão em museus ou bases sob vigilância, sem sistemas críticos ou com componentes-chave removidos. Isso torna, praticamente, impossível que dali saiam peças úteis para outro operador. Para o Irã, resta a combinação de canibalização, reparos locais e adaptações, uma estratégia de sobrevivência que tende a esbarrar, com o tempo, em limites técnicos e de segurança de voo.

Por que o F-14 era tão avançado?

F-14 Tomcat utilizado pela Nasa para testes de aerodinâmica
F-14 Tomcat utilizado pela Nasa para testes de aerodinâmica Imagem: Divulgação/Nasa
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Quando entrou em serviço, o F-14 Tomcat representava um salto tecnológico em relação a outros caças da época. Ele combinava três elementos que, juntos, o colocavam em uma categoria própria: radar de longo alcance, mísseis guiados de grande distância e asa de geometria variável.

O radar do F-14 permitia detectar e rastrear múltiplos alvos a distâncias muito superiores às de outros caças ocidentais do período. A asa de geometria variável, por sua vez, permitia operar em pistas relativamente curtas e voar em baixa velocidade com segurança, ao mesmo tempo em que oferecia desempenho robusto em voo supersônico quando retraída.

Ao decidir triturar seus próprios F-14 para dificultar a vida do Irã, os Estados Unidos deixaram claro que a disputa em torno do Tomcat já não era sobre qual país conseguia operar melhor o caça, mas sobre quem controlava o acesso à tecnologia e às peças que mantêm esse símbolo da Guerra Fria no ar. No fim das contas, a "vida política" de um avião é mais longa e complexa do que sua vida operacional.

Ficha técnica

F-14D Tomcat, avião que muda a geometria de sua asa, o que facilita em alguns tipos de operação
F-14D Tomcat, avião que muda a geometria de sua asa, o que facilita em alguns tipos de operação Imagem: Smithsonian National Air and Space Museum

Modelo: F-14
Fabricante: Grumman
Produção: De 1969 a 1991
Primeiro voo: 1970
Aposentadoria: 2007
Comprimento: 19,10 metros
Envergadura (distância de ponta a ponta da asa): 19,55 metros (com a asa "aberta") ou 11,65 metros (com a asa enflechada)
Altura: 4,88 metros
Peso máximo de decolagem: 33,7 toneladas
Velocidade: Até cerca de 2.500 km/h
Autonomia (distância máxima voada): Cerca de 3.220 km
Altitude máxima de voo: Em torno de 17 km
Preço: Estimado em US$ 38 milhões à época
Observação: As informações podem ser levemente diferentes entre as variações do F-14 fabricadas ao longo dos anos

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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