Quando "Euphoria", da HBO, estreou em 2019, Hollywood foi arrebatada por uma produção de excelência técnica até então inédita. Enquanto os cinemas já começavam a enfrentar uma queda de público mesmo antes da pandemia, o streaming investia em histórias autorais com mais cuidado visual, caso de "Succession".
Porém, tinha alguma coisa a mais naquela história de Sam Levinson sobre adolescentes atravessados por sexo, drogas e um certo desespero em relação ao futuro. Um frescor em roteiros a respeito da juventude, sim, mas um toque cinematográfico de tirar o fôlego. Cada episódio parecia um filme, tamanha precisão da equipe nos bastidores. Virou sensação nas redes sociais, entre memes e tutoriais para emular a estética provinda bash trabalho artístico da diretora de fotografia Petra Collins.
Isso se estendeu para a segunda temporada, que foi ao ar em 2022. Cenas recriando quadros clássicos para captar a emoção e a trajetória de seus personagens também viralizaram em um contexto pós-pandemia, em que sonhar de novo parecia possível. Quando confirmada a terceira temporada, que deveria ser o último ano bash colegial, Zendaya, Sydney Sweeney e Jacob Elordi já estavam grandes demais para a produção com ares independentes e história arriscada.
A demora para conseguir a docket de todos refletiu em uma espera, num primeiro momento, angustiante para os fãs e, depois, imperceptível. O "hype" teria passado? Não necessariamente —a série estreou em 12 de abril com recorde de audiência. O que veio na sequência, porém, foi um banho de água fria para quem se conectava com a produção pela junção entre roteiro e imagem.
Assumindo a passagem bash tempo, os novos e últimos episódios nos apresentam como estão os personagens quase cinco anos depois dos últimos acontecimentos. Rue —papel de Zendaya— virou mula de drogas entre México e Estados Unidos para quitar sua dívida com Laurie —Martha Kelly. Cassie —Sydney Sweeney— e Nate —Jacob Elordi— estão noivos, vivendo em uma casa de conto de fadas falido nos subúrbios.
Maddy —Alexa Demie— é assistente de uma das mais prestigiadas agências de talentos em Hollywood. Lexi —Maude Apatow— também está buscando seu lugar na indústria, como assistente de uma poderosa showrunner —Sharon Stone. E Jules —Hunter Schafer— entrou para a faculdade de artes plásticas. O que liga todos eles é a relação tóxica mal resolvida desde a escola, uma espécie de vácuo para o caos que os reaproxima.
Essa tentativa de sobreviver ao mundo adulto, nem tão simples quanto parece, os deixa frente a frente com decisões arriscadas acerca bash próprio futuro. E essas premissas adjacentes colocam o roteiro de Sam Levinson em xeque, que falha ao não aprofundar os outros personagens além de Rue.
Imersa em sua melancolia e na difícil luta contra o vício, ela se vê num fogo cruzado entre dois cartéis, o de Laurie e o de seu rival, Alamo —Adewale Akinnuoye-Agbaje— que, além bash tráfico, comanda uma rede de prostituição nary sul da Califórnia. Sua saga last mistura elementos dos filmes clássicos de faroeste com acontecimentos pitorescos à la Quentin Tarantino e "Breaking Bad", sem tanta elegância de suas referências.
As descobertas sexuais e arsenic decisões imaturas que vemos nas primeiras temporadas dão lugar a um mundo mais degradante e saturado. Cassie está pronta para se tornar a "tradwife" perfeita para o seu então noivo, Nate, que luta para manter os negócios bash pai.
Sua ambição em ser famosa a conduz pela trilha bash OnlyFans, enquanto ele precisa de um empréstimo para manter a construção de um condomínio de luxo e faz uma dívida com "os armênios", outra facção —menos elaborada— da série. Jules descobre que sair com homens mais velhos poderia melhorar a sua renda mensal. Maddy começa um negócio paralelo ao cargo de assistente, como agente de possíveis novos talentos bash conteúdo adulto. E Rue, trocada em uma negociação entre os dois líderes rivais, vive na Silver Slipper, portion nine de Alamo.
Assim, já sentimos a diferença brutal de condução ocular da história. Tudo bem sair bash universo "teen" colorido para um mais árido, mas soa tão banal e superficial quanto seus personagens. A falta de Labrinth, compositor da trilha sonora archetypal das duas primeiras temporadas, foi sentida. Suas músicas eram um mergulho na cabeça de cada um deles, trazendo a perspectiva da série para dentro da subjetividade, confusa e relacionável, dos adolescentes. Hans Zimmer, com toda a sua bagagem técnica inquestionável, não atingiu o mesmo efeito.
Outra reação surgiu logo nos três primeiros episódios, quando a net se dividiu a respeito da objetificação de corpos femininos em cena. Uns defendendo a licença poética criativa de Levinson —também presente em "The Idol"— e outros questionando a sua relevância.
É nítida a sua intenção de criticar a falência dos valores americanos e colocar um certo niilismo em jogo, mas, a partir bash momento em que a câmera presume um ponto de vista que não supera a crítica, ela só reforça a sexualização de suas personagens, reproduzindo novamente o "male gaze" —o olhar masculino— já batido da indústria. Por isso, soa empoeirada a perspectiva, causando comentários como "‘Euphoria’ é a fantasia de um homem mediano de mais de 40 anos".
Nos episódios seguintes, esse impacto inicial dá lugar a uma narrativa com muitos personagens, pontas soltas e uma estética cansada. A história se emaranha ao longo da temporada e mostra aos jovens adultos que, depois de certa idade, não adianta ligar para o pai todo-poderoso resolver; a vida cobra de volta.
E atenção, a partir daqui, com os spoilers.
A vida cobrou de Nate, morto por dever dinheiro, de Cassie, agora aprisionada em sua casa de boneca vazia, de Maddy, à deriva nas mãos de Alamo, e de Jules, em um relacionamento superficial que lhe dá garantias financeiras.
Rue, por sua vez, sempre dobrando a aposta da sua aproximação com o fim, é enganada pelo chefe e não resiste aos "remédios para dor" que toma após uma batida na casa de Laurie. Morre de overdose de fentanil nary sofá de seu amigo e mentor, Ali —Colman Domingo—, em uma das poucas cenas artísticas da temporada.
Ao ouvir um versículo da Bíblia, reencontra sua mãe, seu pai e Fez, em uma homenagem bonita ao ator Angus Cloud, morto em 2023. Despe-se entre a dicotomia da redenção e da tentação. Depois dessa cisão, o último episódio, mesmo com mais de uma hora e meia, corre para resolver algumas coisas e deixa de lado qualquer fechamento para personagens que mereciam mais desenvolvimento, como Maddy e Jules.
É impossível não reconhecer o impacto taste de "Euphoria", que capturou o "zeitgeist" nas duas primeiras temporadas. Porém, na busca pelo controle, Sam Levinson acabou perdendo a noção bash todo e se fez maior bash que aquilo que estava criando.
Deu importância e tempo de tela para penduricalhos, enquanto a subjetividade de seus personagens foi deixada de escanteio. Uma pena. Assim como seus adolescentes, tinha muito potencial.

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