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Existe algo secreto em 'Agente Secreto'

Os mais jovens, para quem a ditadura é uma experiência transmitida e não vivida, vão ver referências opacas: o Fusca, o refrigerante Crush, os enlatados americanos na TV e personagens hoje esquecidos.

Mas essa partilha de segredos desvendados cria algo decisivo: pequenos pactos de reconhecimento —para quem conhece as lendas urbanas pernambucanas, para quem viveu os tempos de silenciamento e a clandestinidade, para os que viveram a redemocratização, para os que cresceram no Brasil do automóvel e até para os que estão nas universidades de hoje com professores de ontem.

O filme não tem um bom roteiro, traz uma sequência de esquetes e intrusões que ganham vida própria (a La Ursa, a Perna Cabeluda, o Gato de Duas Caras). Mas e se essa fragmentação e o caleidoscópio de tipos exilados fosse uma forma de mimetizar a maneira desconjuntada como fazemos memória e história no Brasil?

A unidade narrativa da democracia em contraponto à dispersão de pequenas histórias transforma em solução irônica o que, para muitos, foi visto como defeito.

É isso que nos lembra que existem várias formas de saber: o não saber (ignorância), o que sabe que não sabe (segredo), o que não sabe (inconsciente) e a indiferença (fetichista), o que Freud descreveu como "eu sei muito bem, mas continuo a agir como se não soubesse".

O Anjo da História de Klee vira o Anjo da História de Kleber e produz fábula onde falta história.

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O filme usa fatos reais (a colaboração de empresas e universidades com o regime, a função crítica e ideológica do cinema, os aparelhos de sobrevivência e refúgio) para contar uma história mentirosa. O truque é misturar o real que não pode ser dito com o simbólico que precisa ser dito.

A Perna Cabeluda e O Tubarão é uma alegoria que representa os órgãos em busca de corpos (os desaparecidos políticos dos anos 1970 ou os mortos por balas perdidas, chacinas e feminicídios), de um lado para outro, sem nada ver. Na cena do posto de gasolina, como no conto de Edgar Allan Poe, A Carta Roubada, a polícia procura para não achar.

É nesse sentido que Agente Secreto é mais um capítulo da oniropolítica (a política do sonho) brasileira, da qual o diretor é um de nossos melhores.

A fabulação transmite a gramática opressiva da ditadura militar — que ainda presente entre nós como sonho fascista. Ela não precisa de tubarões e pernas andantes para ser mais verdadeira.

Invertendo a lógica de Walter Benjamin — cujo "Anjo da História" é empurrado pelo progresso —, o anjo de Mendonça Filho olha para o futuro como um território que já habitamos: um acúmulo de destroços, não de melhorias.

Não celebra perdedores como vencedores, mas relega derrotados e mortos ao apagamento desleixado de um pendrive. A violência da ditadura não é vista como uma etapa. Não se trata de destruir uma civilização, mas de reconhecer que ela nunca existiu, só secretamente no sonho das pessoas.

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Nem surrealismo de vanguarda, nem realismo mágico sul-americano. Uma espécie de neobarroco feito de acumulação de antíteses sem síntese.

Agente Secreto promete ação, mas é uma ação adiada. O filme recusa o caminho do suspense clássico, ao mesmo tempo em que o pressupõe. Não há revelações espetaculares ou catarse investigativa, mas um acúmulo de indícios: encontros truncados, escutas invisíveis, arquivos incompletos, ruídos fora de quadro.

O Recife não é cenário, mas dispositivo histórico, como uma espécie de Macondo nordestina, que respira o mesmo ar pesado da repressão.

A violência explícita dos corpos jogados ao rio combina com a violência implícita dos arquivos, gestos administrativos e rituais de necrotério.

O desfecho não é heroico, mas de desdém, ignorância e desleixo com a história política e familiar.

Na persistência cotidiana do medo, do silenciamento e da autocensura, todos podem ser operadores involuntários da ditadura.

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Essa estética do não-dito e do desaparecimento leva o espectador a inferir e remontar o filme, daí sua sensação de desconexão e falta de continuidade. Essa escolha reproduz a experiência de saber demais como perigoso e saber de menos, também.

Nisso, o filme é uma crítica ao próprio cinema de denúncia, que se inscreve psiquicamente como apagamento.

Wagner Moura faz um registro opaco e antiespetacular. Seu personagem, Marcelo, não é um espião tradicional, mas um professor implicado em uma trama que o ultrapassa. Seu passado político e sua morte, não explicitados, funcionam como um vazio ativo e um ponto cego que organiza o olhar do espectador.

A força da atuação está na economia gestual e no cansaço progressivo para aquele que percebeu tarde demais seu envolvimento.

E isso não poderia ser mais atual: o suspeito e acusado não é um militante armado ou um líder popular, mas alguém tentando fazer pesquisa e transmitir conhecimento.

Há um fio condutor também nas mulheres protagonistas. Sonia Braga, em Aquarius, grita com o corpo. Domingas, de Bacurau, é o feminino explosivo, atravessado por luto, raiva e memória. A que bebe, acusa, sangra. Mas Tânia Maria é uma mulher do cotidiano ordinário e não uma militante "exemplar" ou heroína da resistência ou delatora caricata. Ela murmura, cuida, calcula, protege e ocupa a resistência mínima —de quem não entra para a história, mas sem a qual a história não continuaria.

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Enquanto Bacurau autoriza a vingança e a contraviolência, Agente Secreto se passa num tempo em que não há saída coletiva possível, mais próximo das mulheres oprimidas e silenciadas de O Som ao Redor, submetidas à vigilância permanente, sem voz.

Nos filmes de Mendonça Filho, as mulheres não são capturadas pela fantasia paranoica do poder total, que paralisa muitos personagens masculinos. Não acreditam completamente no Outro, não esperam garantias e não buscam redenção.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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