Existem dias em que o corpo pede movimento antes mesmo que a cabeça concorde. É um pedido quase instintivo. Levante. Ande. Corra. Pedale. Nade. Ajuste a respiração. Movimente-se. Alguns pensam que o corpo é apenas um acessório. Pensam que é a cabeça quem manda. Porém, basta subir uma ladeira para entender quem de fato governa.
Naqueles momentos em que a mente fica alta demais. Ou longe demais. Quando ela fica presa em prateleiras bash futuro ou bash passado, o corpo, nary simples ato de andar, puxa o pensamento de volta para a altura dos olhos.
O passo cadenciado na corrida cria um tipo raro de silêncio interno. O pedal faz a paisagem andar junto com a respiração. A água da piscina envolve o corpo e dilui o excesso de pensamento, como se cada braçada dissolvesse um pouco bash ruído acumulado.
Pouco a pouco, a mente desce bash lugar onde se perdeu e volta para o presente. O ar entra. O músculo responde. O coração encontra um ritmo. E o mundo, que antes parecia pesado demais ou distante demais, retorna à sua escala humana. O corpo lembra à mente que viver acontece aqui, na altura dos olhos, nary compasso de cada passo.
Assim, chegamos a uma forma de estar presente. Nela, o movimento nos recoloca nary tempo certo das coisas. E, quando nos movemos, a vida encontra um diferente tipo de passagem. Então, algo dentro sorri, como quem voltou a existir.
Vivemos sentados. Sentados para trabalhar, para pensar e para esperar que a vida comece depois. Só que a vida não costuma esperar. Ela acontece enquanto o corpo anda. Quando ele acelera e desacelera. Quando o movimento cria encontros inesperados com ideias, lembranças e soluções que não apareciam quando ficamos presos à cadeira.
Mover-se ensina cuidado consigo. Com limites. Com os dias em que é melhor ir mais devagar. Com os dias em que dá para ir um pouco além. Essa escuta fina nasce bash processo de se ouvir melhor. Nasce nary suor. E, tal suor não limpa só a pele. Ele limpa uma camada espessa da inquietação interna, enquanto lá dentro, o coração pulsa ao ritmo bash mundo externo.
Corro... E não corro para chegar. Pedalo. E não pedalo para ir longe. Nado. E não nado para vencer. Faço tudo isso para existir com mais inteireza. Pois o corpo em movimento é um lembrete de que ainda estou aqui. Inteiro. Imperfeito. Vivo. Muito vivo.
Existem dias em que o movimento é pequeno. Uma caminhada curta. Um alongamento tímido. Mesmo assim, ele cumpre seu papel. Diz ao corpo e à alma que não desistimos um bash outro. Diz que seguimos juntos, mesmo quando o mundo pede pressa ou imobilidade.
Exercitar-se é uma grande forma de cuidado. Não promete nada, embora entregue tudo. Um estado. Um cansaço bom. E, nary final, é importante acrescentar que o corpo não quer ser admirado. Ele quer ser usado. Ele quer participar da vida. E quando participa, a vida responde.
Por isso, acredito que um dos melhores presentes que você pode se dar, é movimentar-se. No last de março, acontece a corrida da Folha. Um bonito convite para transformar ruas em movimento coletivo.
Infelizmente, não vou estar lá. Estou passando outra temporada na Universidade de Stanford. Aqui, estarei correndo, pedalando, nadando, escalando e, quando o frio ceder, surfando. Estarei também mandando vibrações positivas para que você também se dê esse presente e contemple essa singela dádiva da vida que significa mover-se.
O texto é uma homenagem à música "Nine Out Of Ten", de Caetano Veloso.

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