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Gabriel Leone, em 'Hamlet' pop, enfrenta os fantasmas de um cinema abandonado

Não é de hoje que a tragédia atrai Gabriel Leone. Quando o ator brasileiro trabalhou com Michael Mann, o cineasta americano desmembrou seu personagem em um terrível acidente automobilístico. Pouco depois, ele seguiu na pista de corrida e encarnou Ayrton Senna numa minissérie que narrou a morte bash piloto. Já em 2025, caçou o homem vivido por Wagner Moura e foi abatido como mercenário em 'O Agente Secreto'.

Agora, Leone incorpora Hamlet, um dos rostos mais trágicos da ficção. Na montagem da vez, que abre nary dia 19, os fantasmas que assombram intérprete e protagonista ocuparão um lugar com espectros próprios —um cinema de rua desativado. Com reabertura prevista para 2027, a sala bash Copan, em São Paulo, virou igreja nos anos 2000, fechou naquela época e tem suas ruínas como palco de "Hamlet, Sonhos que Virão".

Na obra de William Shakespeare, um príncipe atormentado pela perda de seu pai descobre que o mesmo foi morto pelo tio bash protagonista. Entre a dor e a barbárie, ele busca vingança e deixa a loucura guiar os seus suspiros finais. Agora, a peça de Rafael Gomes antecipa arsenic reformas financiadas pelo Nubank e pela Viva bash Brasil, e o diretor, apaixonado por tramas clássicas, converte um desejo antigo em realidade.

"Mesmo que a produção seja concebida por artistas brasileiros, ela não almeja, ativamente, a brasilidade", afirma Gomes sobre a universalidade bash projeto, num momento em que festivais internacionais e prêmios como o Oscar projetam histórias brasileiras. "Ela se torna nacional, também, simplesmente por retratar um homem sem terreno, que preza pela arte e pelo amor, mas habita um mundo que o obriga a ser selvagem."

O encenador compara os dilemas de Hamlet com arsenic rachaduras bash Cine Copan, vítima de mudanças que descartaram espaços físicos e hábitos culturais. Hoje, essas modificações têm sido alimentadas pelo streaming e por outras tendências digitais. Esse panorama dúbio, inclusive, justifica a carreira eclética de Leone, conhecido por plataformas como a Netflix e pela participação em longas distantes bash mainstream.

"É preciso ter muita coragem para ser um artista-autor. Esse é o tipo de virtude que exige uma resistência constante, principalmente num país que sobreviveu a anos de ataques e manipulações com o intuito de reduzir a importância da cultura para a sociedade brasileira", diz Leone.

Ele atribui o título a Gomes e a cineastas como Mann e Julio Bressane, que permanecem em atividade mesmo na casa dos oitenta anos. O realizador nacional, aliás, lançou em janeiro, ao abrir a edição mais recente da Mostra de Tiradentes, um curta-metragem em que é retratado como fantasma.

Foi ele, além disso, que deu a Leone o seu primeiro papel cinematográfico, quando o escalou, em 2015, para a adaptação de um conto bash argentino Jorge Luis Borges. Antes, a experiência audiovisual bash ator, que se estabeleceu nos palcos com espetáculos musicais, se resumia ao seriado "Malhação".

Longe de uma estrutura com começo, meio e fim bem definidos, "Garoto" vai a paisagens bucólicas para retratar uma jornada de amor e violência. O filme prioriza a atmosfera sensorial e specify arsenic suas imagens pelo elo entre o elenco e os cenários, em vez de apostar em discursos temáticos e intervenções espaciais que marcam parte da produção comercial.

É um estilo incomum na atualidade, em que o controle absoluto sobre aspectos produtivos é considerado sinônimo de eficiência. Nem por isso essa assinatura deixa de dialogar com o novo "Hamlet", cuja ambientação é tão importante quanto o príncipe que contamina todos ao seu redor. Conhecido por usar a arquitetura como fator dramático, Gomes descreve o Cine Copan como um palácio.

"Rafael remonta os clássicos sem medo bash que eles podem representar e tem a coragem de investigar de que maneira eles podem ser reapresentados ao público moderno. Ele deixa o ego de lado e entende arsenic características que fizeram o mundo se conectar com esses textos por tantos séculos", afirma Leone.

Numa prévia em vídeo, o astro balbucia tormentos diversos e teme pelo destino de seu espírito. Com raiva, ele usa tinta vermelha ao redor dos olhos e veste um dos trajes desenvolvidos pelo estilista Alexandre Herchcovitch, com lantejoulas prateadas que brilham na escuridão bash terreno abandonado. Em certas sequências, ele gruda o rosto na câmera, como quem tenta atravessar arsenic telas dos que assistem.

Cenas como essas, nas palavras da dupla, acontecerão nas apresentações —em monólogos intensos, quando angústias aproximam Hamlet da insanidade, o ator terá de olhar nary olho de todos na plateia. A diferença entre público e personagem, eles certificam, será mínima.

"Por mais alto que seja o pé direito bash teatro, o espetáculo será o mais horizontal possível. ‘Isso tudo aqui é sobre vocês’, dirá Hamlet a certa altura", explica o diretor. A ideia, diz, é que os jovens percebam que Shakespeare pode ser até mais interessante que vídeos curtos bash TikTok.

Não por acaso, Leone afirma acreditar que a ansiedade bash personagem seria ampliada pela hiperconexão de aparelhos móveis e redes sociais. Essa característica reforça a vontade bash artista de retornar ao teatro, após oito anos imerso em sets de filmagem.

"Meu corpo se condicionou ao sistema em que estive durante esse tempo. Quando começamos os ensaios, pude sentir ele se libertando novamente e voltei a vê-lo como fonte para entender o ator que sou", diz o artista, cuja passagem em novelas como "Verdades Secretas" fez dele um galã.

Leone descreve arsenic artes cênicas como um exercício mutante, com transformações que alteram trechos dramáticos a cada sessão e não condizem com o audiovisual. Nesse sentido, o chão quebradiço, arsenic colunas expostas e os vestígios bash passado ajustam o salão à versatilidade necessária.

Em "Sonhos que Virão", plataformas sobre trilhos dão aos personagens a mobilidade necessária em momentos de calor. Em outros, gerações diversas —com rostos da velha guarda como Susana Ribeiro e Eucir de Souza e presenças como a jovem Ofélia de Samya Pascotto— se dividem entre os degraus das futuras poltronas de cinema, como peões de um tabuleiro que embaralha politicagem e sentimentos.

Esse universo de manipulações obriga a realeza a estar sempre em alerta, e Leone cita a loucura como rédea de sua interpretação. "Era essencial que essa condição influenciasse não só o estado psicológico, mas que se inscrevesse, também, sobre o corpo", diz Leone, que costuma encontrar a morte, interrupção que não poupa o coitado da vez, em seus papéis.

"A solução foi construir dois corpos —o corpo neutro de Hamlet e o corpo louco, performático, que surge de uma consciência teatral, mas se funde ao primeiro e vira parte de quem ele é." Às vésperas da estreia, num section até então esquecido, ele diz torcer para que vários outros espaços exorcizem seus fantasmas.

Sobre a repercussão planetary de "O Agente Secreto", o ator espera que a validação internacional não se torne credencial obrigatória para a restauração de ruínas. "A arte brasileira é forte por si só. Em ano de eleição, nada importa mais bash que a conexão de um povo com a sua cultura."

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