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- Author, Ayelén Oliva
- Role, Da BBC News Mundo
Published Há 25 minutos
Tempo de leitura: 6 min
Incêndios, fogos de artifício e pichações contra o presidente Rodrigo Paz surgiram nesta semana na Plaza Murillo, em La Paz — sede de alguns dos principais escritórios do governo da Bolívia.
Seis meses após assumir o cargo, Paz enfrenta intensos protestos de diversos setores com diferentes demandas por uma mudança na direção política do governo.
Os setores mais críticos, incluindo agricultores e trabalhadores ligados a organizações sociais associadas ao ex-presidente Evo Morales (2006-2019), chegam a pedir a renúncia de Paz.
O governo afirma que Morales está por trás dos protestos, algo que o ex-presidente nega.
Morales foi declarado em situação de desacato a autoridade judicial em 11 de maio, após o líder social não comparecer ao início de seu julgamento por suposto tráfico de pessoas.
Os protestos, que começaram há mais de três semanas com bloqueios de estradas, se intensificaram e afetam o cotidiano de grande parte da população boliviana, que sofre com a escassez de alimentos, combustível e medicamentos.

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"O presidente é teimoso, não quer ouvir nada, as pessoas estão revoltadas", afirmou Eddy, um motorista particular em La Paz que diz ter votado em Rodrigo Paz na última eleição, à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).
Os protestos mascaram um profundo descontentamento com Paz entre aqueles que votaram no presidente, mas sentem que, em seu primeiro mandato, ele não está atendendo às suas demandas.
"A novidade é que esta é uma mobilização multissetorial que adota uma postura abertamente desestabilizadora, que não se limita mais a pedir demandas específicas, mas sim a exigir a renúncia do presidente", disse a cientista política Luciana Jáuregui à BBC News Mundo.
O departamento de Estado dos EUA descreveu a situação na Bolívia como uma "crise humanitária" e classificou os protestos como "ações destinadas a desestabilizar o governo democraticamente eleito de Rodrigo Paz". A Argentina enviou uma aeronave militar de sua Força Aérea "para realizar pontes aéreas para o transporte de alimentos", enquanto o presidente colombiano, Gustavo Petro, descreveu a situação como um "levante popular".
Quais são os motivos por trás dos protestos cada vez mais frequentes na Bolívia?

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1. Propriedades rurais
Os protestos começaram no final de abril, depois que o presidente Paz anunciou uma reforma agrária com o objetivo de transformar pequenas propriedades rurais em propriedades de médio porte.
A Lei 1720 autorizou o Instituto Nacional de Reforma Agrária a converter uma pequena propriedade rural em uma propriedade de médio porte, desde que o proprietário o solicite voluntariamente.
Segundo o governo, o objetivo da medida é permitir que os proprietários de pequenas propriedades rurais as utilizem como garantia para obter crédito e, assim, reativar investimentos.
No entanto, diversos grupos camponeses interpretaram a medida como uma tentativa de promover a venda de terras agrícolas para grandes proprietários.

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A Federação Camponesa Túpac Katari, apoiada pela Central Operária Boliviana (COB), a maior central sindical do país, bloqueou importantes rodovias em mais de 30 pontos, paralisando efetivamente a nação.
"Todas as estradas estão bloqueadas. As pessoas estão muito revoltadas", afirma o motorista Eddy.
Em resposta aos protestos, o presidente revogou a iniciativa na semana passada.
"Ela não existe mais, essa lei acabou", declarou Paz em um vídeo divulgado pela presidência boliviana.
2. Baixos salários
Além disso, em abril, os professores lideraram uma série de protestos exigindo aumentos salariais em um país que enfrenta uma inflação alta, de 15% ao ano, tornando o custo de vida uma grande preocupação para os bolivianos.
Embora a tendência inflacionária tenha se revertido e esteja em declínio nos últimos meses, a Bolívia encerrou 2025 com uma taxa de inflação de 20%, um dos níveis mais altos dos últimos anos. Paz assumiu o cargo com o objetivo declarado de controlar a disparada dos preços no país.
Após semanas de negociações, o Ministério da Educação anunciou um acordo com os professores, que aceitaram um bônus e declararam que suspenderiam os protestos.
No entanto, as manifestações não só continuaram como se espalharam para novos setores.

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3. 'Gasolina de má qualidade'
"Eles nos venderam gasolina de má qualidade, gasolina ruim que estraga os motores dos nossos carros", reclama Eddy.
Após o aumento do preço dos combustíveis, consequência da decisão de Paz de eliminar os subsídios herdados do governo anterior, os bolivianos questionam a qualidade do produto vendido na tentativa de reduzir custos.
O Instituto de Pesquisa Química da Universidade Superior de San Andrés (UMSA) realizou uma análise técnica que concluiu que as gasolinas testadas não atendiam aos padrões de qualidade.

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"[O combustível] não deve ser aceito e deve ser devolvido ao fornecedor", recomendam especialistas.
Sindicatos de transporte convocaram uma greve no último mês devido a preocupações com o abastecimento.
Questões sobre a qualidade do produto, seus altos preços e a escassez causada pelos bloqueios de estradas nas últimas semanas paralisaram grande parte do país.
É o caso da prefeitura de La Paz, que anunciou no sábado (16/05), em comunicado, a suspensão temporária dos serviços de coleta de lixo devido à falta de combustível.
4. Reforma constitucional
Em 9 de maio, o presidente da Bolívia anunciou a criação de uma comissão para realizar uma "reforma parcial" da Constituição que rege o país desde 2009, com o objetivo de facilitar o investimento na economia boliviana.
"Será uma comissão aberta para que todos possam participar, representando seus setores e regiões", anunciou Paz em Cochabamba.
A Constituição atual, aprovada durante a presidência de Evo Morales, transformou a Bolívia em um Estado plurinacional — reconhecendo a existência de múltiplas nações e estabelecendo novos métodos para a gestão de recursos naturais.
A reforma visa modificar setores como o de hidrocarbonetos e o de mineração, levando movimentos sociais alinhados a Morales a criticarem as reformas econômicas por excluírem o Estado como ator fundamental.

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"Na Bolívia, eclodiu uma revolta que não é apenas uma resposta à crescente deslegitimação do governo, mas sim a um problema estrutural associado ao rompimento do pacto entre as comunidades e o Estado", afirma Jaúregui.
Segundo críticos, as mudanças constitucionais visam viabilizar a privatização da gestão de recursos naturais, argumento negado pelo governo.
"Aqui, ninguém quer privatizar, ninguém quer aumentar tarifas, ninguém quer fazer muitas das coisas que algumas pessoas, alguns líderes e alguns interesses políticos estão tentando usar para confundir a população", disse Paz na semana passada.

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