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Hiperinflação era 'tortura cotidiana', diz Gustavo Franco, um dos mentores do Real

Em entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio durante sua participação no Fórum da Liberdade deste ano, um dos mentores do Plano Real, o ex-presidente do Banco Central e sócio fundador da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco, fez uma reflexão sobre os 30 anos da moeda brasileira. Para o economista, o grande diferencial do plano foi ter feito, à época, o correto diagnóstico do problema inflacionário do Brasil e, a partir disso, ter colocado em prática ações para a “cura da doença” ao invés de agir apenas sobre os seus sintomas. "O Real veio com a ideia de trazer o ‘antibiótico’ aliada a ações que tratariam os sintomas. Tudo isso ao mesmo tempo e de uma forma transparente", disse. A entrevista integra a série de reportagens sobre os 30 anos do Plano Real, que se estende até esta sexta-feira. 

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Em entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio durante sua participação no Fórum da Liberdade deste ano, um dos mentores do Plano Real, o ex-presidente do Banco Central e sócio fundador da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco, fez uma reflexão sobre os 30 anos da moeda brasileira. Para o economista, o grande diferencial do plano foi ter feito, à época, o correto diagnóstico do problema inflacionário do Brasil e, a partir disso, ter colocado em prática ações para a “cura da doença” ao invés de agir apenas sobre os seus sintomas. "O Real veio com a ideia de trazer o ‘antibiótico’ aliada a ações que tratariam os sintomas. Tudo isso ao mesmo tempo e de uma forma transparente", disse. A entrevista integra a série de reportagens sobre os 30 anos do Plano Real, que se estende até esta sexta-feira. 

Jornal do Comércio - Como se deram as ideias iniciais que originaram o Plano Real?

Gustavo Franco - A origem do Plano Real é uma longa história e uma mistura de muitas coisas. A experiência do modelo alemão (para combater a hiperinflação do país germânico) nos anos 1920 é uma delas. Porém, mais importante foi a reflexão anterior ao plano, feita aqui mesmo no Brasil, sobre possibilidades de estabilização com ou sem moeda indexada. Já tínhamos tido cinco congelamentos e choques heterodoxos em sequência. E havia estudiosos que escreveram tanto sobre os choque heterodoxos quanto sobre moeda indexada. André Lara Rezende, Pérsio Arida e Chico (Francisco Lafaiete) Lopes e outros estudiosos da PUC (RJ) eram parte de um grupo que estudou a inflação alta no Brasil, com a análise sobre os planos que fracassaram e suas respectivas lições. Quando começamos a fazer o Real, todas essas influências estavam sobre a mesa. Este foi o começo. Passado o momento inicial, é natural aparecer novos problemas de tal forma que a formulação do plano seguiu durante e depois da sua implementação. Reformulamos muita coisa que precisava ser consertada durante o ‘voo’. Tínhamos uma equipe numerosa, com muita experiência e as coisas correram bem. Conseguimos desviar os obstáculos e as dificuldades até chegarmos aqui. Nestes 30 anos.

JC - Qual o principal legado do plano para a economia brasileira?

Franco - A inflação era uma coisa tão aflitiva, era uma dor tão grande, uma espécie de tortura cotidiana, que todo mundo que viveu nunca vai esquecer. Mas todo mundo já sentiu dor e quando se sente dor, você não consegue pensar nem fazer outra coisa que não seja fazer parar essa dor. O Real foi o responsável por parar aquela dor. A partir daí, abre-se muitos horizontes. Descobrimos problemas e ambições no Brasil, que, antes, não podiam sequer serem pensados. O Real não era para resolver todos os problemas. Era para resolver aquela dor, que era a maior de todas naquele momento.

JC - O que foi preponderante para que o Plano Real obtivesse sucesso no controle da inflação após uma sequência de tentativas fracassadas?

Franco - Foram várias coisas. A primeira está relacionada ao diagnóstico que foi feito. De que a inflação não era um acidente, não era um assunto fácil, algo a ser resolvido com mecânicas de correção monetária, o que tinha se tornado habitual no Brasil. O diagnóstico correto nos levava ao assunto das reformas e a começar a colocá-las em prática. Demonstrar a real intenção de levá-las adiante, portanto, tratar a doença. Assim, qualquer remédio dirigido aos sintomas iria funcionar. Os congelamentos (de preços) nos planos anteriores trouxeram essa sensação de que as autoridades estavam tratando a ‘febre’ com ‘banho frio’. Já o Real veio com a ideia de trazer o ‘antibiótico’ aliada a ações que combateriam os sintomas. Tudo isso ao mesmo tempo e de uma forma transparente. Outra novidade importante foi o estilo, a fórmula de explicar, de se comunicar e responder as críticas, mesmo quando infundadas, pois criticar e responder a crítica fazem parte da democracia. É do jogo. E fizemos isso da forma correta.

JC - Entre os desafios no momento da implementação do Real, qual o sr. destacaria?

Franco - Um grande desafio que tivemos naquele momento foi o de explicar coisas que pareciam complicadas para o País. Mas essa parte acabou sendo muito mais fácil do que imaginávamos, porque conceitos como o da URV (Unidade Real de Valor) explicados hoje podem parecer complexos, mas para as donas de casa daquele momento, não era complicado explicar o valor real das coisas. Todo mundo sabia. A inflação acabou sendo uma ferramenta de educação financeira, porque você era obrigado a aprender em meio aquele momento tão difícil. Avalio que soubemos tirar proveito dessa sabedoria.

JC - Os mais jovens têm consciência do ganho que o País teve com o fim da hiperinflação?

Franco - Muita gente neste congresso (Fórum da Liberdade) não era nem nascido quando tudo isso aconteceu. É muito difícil transmitir o que foi o caos vivido naquele período. Também não faz sentido pensar que precisamos viver isso de novo para os mais jovens aprenderem e, então, ficarem com medo. Devemos seguir prevenindo a ‘doença’. O convencimento com os mais jovens deve ser o de ‘tomar a vacina’ para não ter a ‘doença’. A vacina é a organização institucional da moeda que a protege de ambições irresponsáveis, sobretudo, de políticos. Essa vacina institucional está bem estabelecida e forte. Já durou 30 anos e vai durar outros 30, tranquilamente. 

Em abril, o economista Gustavo Franco participou de painel no Fórum da Liberdade e lembrou dos 30 anos do Plano Real 

Em abril, o economista Gustavo Franco participou de painel no Fórum da Liberdade e lembrou dos 30 anos do Plano Real  FERNANDA FELTES/JC

JC - Na época da implementação e mesmo depois, o plano real foi alvo de críticas. Como o sr. lidou ou lida com isso?

Franco - Críticas ao Plano Real ficaram para trás. Quando as ouço hoje em dia a minha dúvida é a seguinte: como poderíamos ter feito diferente e termos colhido os mesmos resultados? Não vale dizer que deveríamos também ter resolvido o problema da pobreza ou do meio ambiente. Isso é ‘história da carochinha’. Fizemos algumas coisas mais polêmicas, mas que ficaram para trás. Foram todas resolvidas. Está tudo estabelecido. Passaram-se 30 anos e deu certo. Quem acha que estava errado, por favor, diga como poderia ter sido melhor. 

JC - A condução da política monetária no Brasil de hoje, conduzida pelo Banco Central,  também costuma ser alvo de críticas. Qual a sua avaliação?

Franco - As autoridades de hoje tomam decisões sobre política monetária que vejo como muito bem fundamentadas. São decisões tomadas sobre incertezas. Sempre vai aparecer um 'sabichão' para dizer que a decisão foi errada por um lado ou pelo outro, com o benefício de saber o que aconteceu depois. Aí não vale. É uma falsa sabedoria. Estou muito satisfeito com a atuação do nosso Banco Central. É um BC e uma política monetária de primeiro mundo. É (a instituição) que nos defende do retorno daquela doença. É a ‘vacina’ que está funcionando.

JC - No painel que participou durante o Fórum da Liberdade, o sr. comentou que o Plano Real foi ‘a reforma das reformas’. O que deveríamos priorizar no momento atual?

Franco - Não acho que tenha uma reforma necessária hoje, mas um cardápio de reformas. Basta observar o que as agências internacionais de risco soberano olham quando atribuem ao Brasil uma nota de crédito hoje. Temos uma nota baixa. O pessoal de Brasília precisa olhar para isso e tratar de endereçar todos esses temas, ver onde precisamos melhorar. É simples assim.

JC - É possível fazer um paralelo daquele período do Plano Real para o momento que a Argentina vive hoje?

Franco - Acho que sim, existe um paralelo. Aqui, nós acertamos na sexta tentativa. Eles já fizeram várias tentativas. Não saberia dizer quantas, mas estão prestes a deslanchar mais uma, que também deve ser criativa. Provavelmente, tentarão aproveitar as lições dos fracassos anteriores e, até mesmo, observar o que fizemos aqui. Parece que estão olhando a experiência do Equador e dos países da Europa e vai vir uma novidade. Vamos aguardar. Tomara que dê certo. 

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