É o caso do fenômeno OpenClaw, lançado, que chegou com uma promessa bastante sedutora: você instala em sua máquina e delega para ele resolver diferentes tarefas.
Só que pesquisadores de Yale e Columbia decidiram entender o que acontece quando os agentes de IA vão às compras em nosso lugar. O que eles encontraram é que o jogo vai mudar para qualquer pessoa que venda alguma coisa na internet.
Os agentes têm vieses próprios, e eles não são os mesmos que os nossos.
Para entender como esses agentes decidem, os pesquisadores testaram seis modelos de IA em milhares de cenários e mediram o que de fato influenciava as escolhas. Os resultados mostram que esse novo comprador não funciona como se esperava.
O primeiro achado inverte uma lógica que sustenta boa parte da economia digital. Produtos marcados como anúncios patrocinados tiveram queda de 21% na chance de serem escolhidos pelos agentes.
Ao mesmo tempo, aqueles com o selo de "melhor opção", o carimbo dado pela própria plataforma, tiveram aumento de até 340% na probabilidade de escolha.
As marcas gastam fortunas em publicidade construída para capturar atenção humana, o que o agente simplesmente descarta. Ao mesmo tempo, o carimbo da plataforma influencia diretamente a escolha do modelo.
Então, quem acumula poder nesse rearranjo não é a marca, mas a plataforma que controla o selo.
E tem mais. Em 71% dos casos, os agentes falharam em identificar o produto mais bem avaliado. Ou seja, o agente de IA simplesmente não liga tanto assim para as nossas opiniões.
Outro fato relevante é que o viés de posição, a escolha dos primeiros produtos, persistiu mesmo quando os pesquisadores pediram explicitamente ao agente para que ignorasse isso.
O estudo traz um caso que ilustra bem a estranheza desse novo mercado e como ele se torna volátil para influenciar comportamentos. Um produto que tinha 0% de escolha aumentou seu market share para 89% com uma simples mudança de título.
Nenhuma mudança no produto, no preço, nas avaliações, na foto. Só no texto. Algo parecido também acontece com o humano, mas agora os algoritmos também entram para otimizar o próprio processo.
Há décadas, pesquisadores como Daniel Kahneman e Richard Thaler dedicaram seus trabalhos para mapear como os humanos se desviam da racionalidade nas decisões econômicas. Os atalhos cognitivos, os vieses de ancoragem, a aversão à perda.
Tudo isso é o que chamamos de Economia Comportamental, que revolucionou o marketing, o design de produtos e até políticas públicas.
Mas agora, temos uma nova entidade tomando decisões econômicas em nosso nome. Ela também tem vieses, mas ainda são opacos e não bem entendidos por nós.
É por isso que começa a surgir até uma nova área de pesquisa que estou chamando de "economia comportamental agêntica".
O estudo documenta bem o tamanho desse problema.
Um produto era escolhido 45% das vezes por um modelo de IA. Depois de uma atualização da própria IA, passou a ser escolhido 77%. Outro caiu de 25% para 6%.
Nenhum produto mudou nada, mas houve uma flutuação de mercado que ainda não conhecemos. É uma categoria nova de risco que nenhum gestor de marca ainda sabe como precificar.
E tem uma questão que me parece subestimada nesse debate todo. Quando delegamos a decisão de compra para um agente, delegamos junto o nosso julgamento.
E se esse julgamento carrega vieses que não compreendemos, que variam entre modelos e mudam sem aviso, vamos deixando de ser parte da equação.
O cenário é de mudança e incerteza, então o que podemos fazer?
Um primeiro passo é a criação de mecanismos de auditoria contínua para agentes de compra.
É um começo necessário para gerarmos mais dados para entendermos o fenômeno. Só que a velocidade com que esses agentes estão sendo colocados no mercado é maior do que a nossa capacidade de entendê-los.
Enquanto o debate ainda engatinha, o agente já está comprando - ou lendo essa coluna para resumir para você.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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