
Crédito, Daniel Arce-Lopez / BBC News Brasil
- Author, Matheus Gouvea de Andrade
- Role, De São Paulo para a BBC News Brasil
Published Há 19 minutos
Tempo de leitura: 10 min
"Vc (sic) entendeu que ficar com gordinha no Brasil não ia te dar futuro, hoje vive na Rússia bem."
"Você é pedreiro mas está na Rússia namorando uma loira."
"Você tem skin saBOOUR pedreiro mas está na Rússia".
As frases acima foram encontradas pela BBC News Brasil em postagens de influenciadores do Brasil feitas ao longo do último ano no TikTok.
Usando hashtags como #partiuRússia e #mulheresrussas, eles promovem conteúdos sobre as supostas vantagens que brasileiros encontram ao se relacionar com mulheres russas.
Os perfis contam com uma série de estratégias para ganhar dinheiro com o conteúdo que publicam. A maioria diz trabalhar com marketing digital e oferece cursos e mentorias que ajudariam quem compra seus serviços a atingir o mesmo estilo de vida (o que envolve coisas como nomadismo digital, faturamento com produção de conteúdo online, carros de luxo e viagens pelo mundo), além das parceiras estrangeiras.
Outros elementos presentes comuns são viagens a destinos nos Emirados Árabes Unidos e fotos com carros esportivos.
No exterior, esse tipo de conteúdo ficou famoso especialmente entre americanos, que gravam mulheres em países como Colômbia, Filipinas, Ucrânia e até Brasil, muitas vezes sem permissão.
Nas postagens, os influenciadores contam como viajam ao exterior para encontrar mulheres para se relacionar e costumam listar aspectos que tornariam as mulheres locais mais "fáceis" e os estrangeiros, desejados. Os homens, em sua maioria de países ocidentais, que fazem isso são conhecidos como "passport bros".
"É um tipo de conteúdo click-bait que chama muito a atenção online", afirma Julia Meszaros, socióloga com foco em globalização, gênero e migração internacional, e professora na East Texas A&M University, nos Estados Unidos.
"Há diversas formas de ganhar dinheiro com isso. É uma venda de uma série de fantasias que é muito lucrativa."
No caso brasileiro, os conteúdos ressaltam como é "fácil conseguir uma namorada em uma semana" na Rússia, alegando que é possível ser atraente no país mesmo "sem dinheiro" e "skin", termo frequentemente usado por esses influenciadores para descrever atribuições físicas.
Em contraponto, as mulheres brasileiras são desqualificadas de uma série de maneiras. Estariam "interessadas só em dinheiro", alguns alegam. Outros destacam como as brasileiras seriam vulgares e promíscuas, enquanto as estrangeiras estariam ligadas a valores mais tradicionais e à feminilidade.
"Há uma reestruturação econômica em curso, e muitos homens creem que não conseguem acessar o papel visto como masculino na própria sociedade. Desta forma, quando vão a outro país, eles se sentem empoderados", aponta Meszaro.
"Há ainda uma ideologia muito presente entre o chamado movimento red pill de que as mulheres não são tão femininas em casa", pontua.
Além da manipulação de conteúdos, que pessoas ligadas ao tema afirmaram à reportagem serem frequentes, há temores de que a prática impulsione outros tipos de abuso. Além de filmagens não autorizadas, há o receio de que estes conteúdos disseminem o turismo sexual.
A BBC News Brasil entrou em contato com os responsáveis pelos perfis mencionados na reportagem. O único que respondeu, de forma breve, negou que haja problema com os conteúdos ou que eles passem alguma imagem deturpada sobre as mulheres da Rússia. Segundo ele, uma prova disso seria que sua namorada é russa.
Optamos por não mencionar nesta reportagem os nomes dos influenciadores ou seus canais. Não há em princípio nenhuma ilegalidade nas ações deles, ainda que possa haver questionamentos morais sobre suas postagens.

Crédito, Reprodução/Redes sociais

Crédito, Reprodução/Redes sociais
Oportunidade na guerra
Nestes perfis, a guerra entre Rússia e Ucrânia nunca é descrita como um problema ou desafio. Normalmente, é tratada como meme. Brincadeiras sobre terminar no Exército sob o comando do presidente russo, Vladimir Putin, são comuns.
Atualmente, o Itamaraty cita oficialmente 30 brasileiros mortos no conflito, mas quase todos pelo lado ucraniano. No caso de Kiev, há uma série de registros de grupos recrutando voluntários em redes sociais na região, o que não teria ocorrido na mesma intensidade com Moscou.
Em outras postagens, a guerra é tratada como uma oportunidade. Muitos criadores chegam a dizer que o número reduzido de homens russos é algo que torna os estrangeiros mais desejados.
A Rússia registrou entre 275 mil e 325 mil mortes em combate na Ucrânia, segundo relatório do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais.
Em uma página chamada International Love Scout, dedicada à classificação das alegadas vantagens de buscar mulheres no exterior, e popular entre os passport bros, a demografia russa é citada como uma das grandes atrações do país.
Segundo estimativas derivadas do banco demográfico da Organização das Nações Unidas (ONU), a Rússia possui cerca de 53,6% de mulheres e 46,4% de homens. Assim, existem aproximadamente 10 milhões a mais de mulheres do que homens no país.
O êxodo econômico dos homens após o fim da União Soviética é apontado como um dos fatores, além de uma expectativa de vida masculina mais baixa que entre as mulheres. Os conteúdos combinam gráficos socioeconômicos com as fotos de supostas modelos locais para ressaltar a beleza das mulheres russas.

Crédito, Reprodução/Redes sociais
Ekaterina Fedorova, de 27 anos, é russa e mora no Brasil há cinco anos. Ela acompanhou de perto o avanço do fenômeno.
Ela é produtora de conteúdo nas redes sociais, onde se denomina "a russa mais russa" e conta à reportagem que já teve seus conteúdos manipulados por perfis deste tipo.
"Pegaram um vídeo do meu canal sem autorização e mudaram todo o contexto. Era sobre um auxílio do governo às mulheres que tivessem filhos e que deve ser gasto com as crianças", conta Ekaterina.
Nas redes, ela conta, estas medidas foram vinculadas a uma possibilidade de os brasileiros receberem uma quantia em dinheiro caso se relacionem com russas.
Thiago de Melo, criador do canal de YouTube "Vem a mim língua russa", que inicialmente falava de elementos da vida no país, criou uma consultoria sobre viagens à Rússia.
"As pessoas me perguntavam como eu havia feito para ir para a Rússia e comprado passagens mesmo com as sanções", diz ele, em referência às dificuldades de viajar para o país com as medidas aplicadas por outros países em retaliação à invasão da Ucrânia.
"Percebi que as pessoas queriam informações mais detalhadas, como fazer pagamentos e agendar hotéis. "Depois que as pessoas viram que era seguro mesmo com a guerra, me procuraram para saber como visitar o país."
Em fevereiro deste ano, Moscou fez uma proposta de retomada de voos diretos entre o Brasil e a Rússia. Desde o começo da guerra em 2022, as ligações diretas foram interrompidas, com anúncio oficial sendo feito em 8 março daquele ano por meio da companhia Aeroflat. Ainda não houve uma resposta oficial do governo brasileiro.
Para Thiago Melo, os vídeos sobre as supostas conquistas fáceis de mulheres que viralizaram nas redes são "uma estratégia criada por marketeiros brasileiros que descobriram a Rússia recentemente" sem nenhuma ligação com o governo russo.
A BBC News Brasil entrou em contato com a embaixada da Rússia para questionar se tinha conhecimento dos conteúdos e eventuais vínculos com programas de promoção do país, mas não houve resposta.
"Os vídeos são manipulados e não condizem com a realidade. Foram colocadas legendas absurdas e mentirosas exclusivamente com o intuito de viralizar para conseguir novos seguidores", afirma Melo, que não teve seus conetúdos pessoais manipulados.
Atualmente, brasileiros podem entrar na Rússia sem necessidade de visto para turismo, por até 90 dias. Para estudo e trabalho, licenças especiais são necessárias.
O último dado oficial do Itamaraty apresentava 600 brasileiros vivendo no país em 2023. Não há uma estimativa oficial do número de estadias curtas, com muitos turistas embarcando por rotas alternativas aéreas e cruzando por terra.
No geral, Melo afirma que os visitantes que contrataram seu serviço não tiveram problemas com a estadia na Rússia, mas diz que soube de casos de brasileiros que tentaram contornar as regras migratórias.
"Conheço pessoas que tentaram dar um jeitinho brasileiro. Alguns tentaram passar mais tempo do que os 90 dias para turistas, pensando que não haveria problema. Na hora de sair do país, enfrentaram deportação e multa", conta.

Crédito, Reprodução/Redes sociais
'Homens tentam mostrar seu valor tratando mulheres como troféu'
A socióloga Julia Meszaros diz que a prática não é nova, sendo parte de uma "indústria internacional dos encontros".
Nos Estados Unidos, a procura de mulheres no exterior, frequentemente de países com menores recursos econômicos, é conhecida como "noiva por correspondência".
Segundo ela, isso faz parte de uma busca masculina dos "homens tentarem mostrar seu valor tratando estas mulheres como troféu". Em sua visão, grande parte do movimento se baseia na venda de fantasias, uma vez que "a realidade nunca é a mesma coisa".
Para Meszaros, os conteúdos fazem parte de um contexto em que o "feminismo abriu porta para mulheres, mas não para os homens". "Muitos estão perdidos, buscando encontrar algum papel como provedor."
Na sua visão, em certos segmentos masculinos da internet, há uma frustração com a dinâmica dos relacionamentos online, que seriam dominados pelas mulheres. "São elas que escolhem seus parceiros", resume.
Além disso, atualmente, pessoas de um país que estariam frustradas em se relacionar com seus compatriotas abririam abre espaço para essa busca que vem no exterior. "O exotismo ajuda", aponta.
"Cerca de 90% dos encontros virtuais nunca se concretizam pessoalmente. As pessoas costumam estar satisfeitas apenas em contar sobre e exibir os supostos relacionamentos", afirma.
Neste cenário, aplicativos prometendo mulheres estrangeiras se proliferam. No caso de brasileiros buscando as russas, já existem versões locais em português.
As diferenças em relação à realidade que os vídeos vendem são marcantes, diz a produtora de conteúdo Ekaterina Fedorova, que é casada com um brasileiro.
"Os homens criam um conto de fadas, não entendem a realidade, nem quanto dinheiro e paciência necessita um relacionamento, que nestes casos costumam ser ainda mais difícil", diz ela.
"Há um mito de que o homem não vai gastar um centavo [com a relação], e a mulher vai cuidar da casa."
Muitos conteúdos são baseados na ideia de que mulheres russas supostamente não se importam com quanto os parceiros ganham, o que seria diferente das brasileiras. Em algumas entrevistas sobre o tema, legendas em português deturpam as respostas originais em russo.
Um caso clássico são entrevistas perguntando o quanto um homem deve ganhar para namorar uma brasileira ou uma russa, perguntando a alguém de cada nacionalidade.
No caso da resposta brasileira, muitas apresentam algum valor, enquanto que, quando uma russa é questionada, há uma troca na legenda afirmando que isso não é importante para ela, sem corresponder à fala original.

Crédito, Reprodução/Redes sociais
Funk e embaixadinhas
Uma surpresa para Meszaros é que o Brasil, um país que costuma ser um alvo dos passport bros, tenha se tornado um exportador desse tipo de comportamento.
No mesmo site que descreve a mulheres russas, o Love Scout, a descrição para o Brasil é a seguinte: "Muitas brasileiras lindas procuram caras como você. Sim, como você, se for honesto, paciente, trabalhador e, de modo geral, seguir as normas sociais aceitas sobre como os homens devem tratar as mulheres no mundo ocidental moderno".
E prossegue: "As mulheres brasileiras procuram homens normais. Você não precisa ser sarado, bonito ou rico. Claro que nada disso atrapalha, mas não é de forma alguma necessário".
Grande parte do conteúdo dos brasileiros produzido na Rússia agrega elementos do imaginário do país no mundo. Camisas da seleção de futebol são onipresentes, assim como o funk como trilha sonora de fundo. Em alguns vídeos, os criadores se arriscam a fazer as chamadas embaixadinhas em lugares públicos da Rússia.
Outro elemento mais comum nas versões brasileiras é a prática de pedir que as estrangeiras repitam expressões e frases de conotação sexual em português.
No Brasil, a prática de filmar mulheres sem autorização ou fazendo de forma com que elas não entendam o contexto da gravação vem se popularizando nas plataformas digitais, pontua Bruna Camilo, doutora e pesquisadora em gênero e misoginia.
"Com os formatos de conteúdo viral, há uma economia da atenção, sendo que conteúdos com mulheres desconhecidas geram alto engajamento", explica.
"Há uma normalização em comunidades online, na qual os grupos reforçam essas práticas como inofensivas ou de entretenimento. As mulheres são tratadas como um objeto visual, não como pessoas. Além disso, há a sensação de baixo risco social e impunidade."

Crédito, Reprodução/Redes sociais
O comportamento dos influenciadores brasileiros que publicam conteúdo sobre relacionamentos com mulheres russas envolve uma obsessão com a pele branca e os cabelos loiros, diz Camilo.
"O contexto brasileiro é marcado pela colonização e a escravização. O que é ligado à branquitude, aos povos europeus, é visto como superior", afirma a pesquisadora.
Assim, posar ao lado de mulheres russas e apresentá-las como suas parceiras envolve uma busca por certo status.
A russa Ekaterina Fedorova aponta que a cor do cabelo e da pele pode ser mais relevante que a própria nacionalidade para os conteúdos.
Ela conta que já viu vídeos com mulheres que sequer eram russas ou que estivessem no território do país, com ucranianas, polonesas e suecas entrando no pacote de "ostentação". "É uma forma de ostentação", diz Camilo.
"Nestes ambientes, incluindo carros e viagens de luxo, as mulheres aparecem como uma extensão do estilo de vida. Dentro da machosfera, ter uma namorada loira é uma forma de ascensão social. O jovem venceu."
Arte por Daniel Arce-Lopez, da Equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil

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