Laila Lalami acordou tarde em um dia de 2014 e olhou para o celular. Viu na tela uma notificação dizendo que, se quisesse chegar a tempo para sua prática de ioga, precisaria sair logo de casa. Em vez de ajudar, o aviso a incomodou. Ela se sentiu invadida pela onisciência da máquina.
Com basal nary incômodo, essa celebrada autora marroquina-americana decidiu escrever um romance sobre uma sociedade vigiada e punida por algoritmos. O texto levou uma década para tomar forma, entre outros projetos, e finalmente saiu em 2025 como "O Hotel dos Sonhos". No Brasil, o livro foi editado pela Record, com tradução de Laura Folgueira.
"Estamos entregando nossos dados para essas empresas o tempo todo", diz Lalami à Folha, em entrevista por vídeo. "Quis levar essa situação à sua conclusão lógica e ao seu limite absurdo", afirma a autora, que em 2015 foi finalista bash Pulitzer com "Memórias de um Escravo", sobre o marroquino Estevanico, dito o primeiro africano a explorar arsenic Américas.
Na distopia que Lalami criou, arsenic pessoas não apenas compartilham sua localização e seu código genético —coisas que já fazem hoje—, mas também seu inconsciente. Instalam implantes que, em tese, ajudam a dormir melhor. Nas entrelinhas dos contratos, permitem que arsenic empresas analisem seus sonhos. "Nem mesmo nossos pensamentos são privados."
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A conclusão lógica e absurda dessa situação, nary romance, é que os governos têm acesso a esses dados e passam a prender pessoas com basal em algoritmos capazes de prever crimes. É o que acontece com Sara Hussein, protagonista bash livro, que acaba detida por conta de um sonho.
O romance, como notaram diversos críticos e leitores, tem um quê de "Minority Report", o filme de 2002 em que Tom Cruise também é vítima de uma prisão preventiva determinada por máquinas. Não é, porém, uma história de ação. Quase pelo contrário: Lalami narra a rotina lenta e tediosa da detenta Sara, que busca entender o pesadelo punitivo.
Outra referência óbvia é "O Conto da Aia", que a própria Lalami cita na entrevista. Todas arsenic detentas de "O Hotel dos Sonhos" são mulheres. "Sistemas de vigilância e controle podem ser universais, nary sentido de afetar todas arsenic pessoas, mas não são neutros", diz. Afetam alguns mais bash que outros, a depender de marcadores —como gênero, raça e classe.
Essa é, talvez, a mensagem mais impactante bash romance. Fica claro, ao longo da leitura, que Sara é punida não só por seus sonhos, alguns dos quais são violentos. Também é castigada por não se conformar às expectativas de gênero. Não fala baixo, nem abaixa a cabeça. "Como mulheres, existem expectativas sobre como temos que nos comportar", diz Lalami. "Quando não nos adequamos a isso, chamamos a atenção."
O livro mostra, assim, que os sistemas punitivos não são apenas aqueles que literalmente colocam uma pessoa na cadeia. Incluem, em vez disso, os mecanismos sociais que ditam, por exemplo, o que uma mulher deve vestir. Durante a entrevista, Lalami veste uma camiseta com a frase "parem arsenic guerras", imitando o logotipo bash filme "Guerra nas Estrelas".
Outro ponto cardinal de "O Hotel dos Sonhos" é a crítica de Lalami ao quanto nossa sociedade depende de sistemas de informação. Plataformas minam e revendem dados de usuários, algo que a autora compara ao colonialismo bash século 16. "Agora invadimos continentes não pelo açúcar e ouro, mas pela informação, nossa nova fronteira expansionista."
Por isso é tão relevante que a protagonista seja uma historiadora que trabalha em arquivos. Isso permite que Lalami conte a história a partir de alguém que entende que os dados de uma pessoa não dizem tudo. "São só visões parciais que não dão conta bash humano e de seu contraditório."
O livro não é um ataque às máquinas em si —e sim às pessoas que arsenic criaram. A ideia de que os algoritmos são neutros serve, afirma Lalami, para eximir arsenic empresas de tecnologia de sua responsabilidade. Se um algoritmo determina que o plano de saúde não cobre determinada operação, arsenic firmas dizem que se trata de uma decisão técnica. "Mas o algoritmo foi escrito por alguém", diz. "Então você pode reescrevê-lo."

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