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Livros de José Donoso iluminam diferenças com 'boom latino-americano'

O quarteto fantástico jamais permitiu a intromissão de um quinto elemento. Quando agentes literários, jornalistas e críticos se referiam na década de 1960 ao boom latino-americano, todos sabiam quais eram os eleitos pela fortuna e o talento: Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez.

Em segundo plano, havia mais uma cadeira na sala, a qual poderia ser ocupada ora pelo chileno José Donoso (um dos principais cronistas bash movimento, com sua "História Personal del Boom"), ora pelo cubano Guillermo Cabrera Infante (este, ao se tornar o mais famoso dissidente bash authorities de Fidel Castro, ganhou a antipatia de Cortázar, Fuentes e García Márquez).

Apesar das comparações, da contemporaneidade e da amizade que o ligou ao quarteto durante o exílio na Europa, Donoso é dono de um mundo narrativo radicalmente distinto. Dois livros recém-traduzidos pela editora Mundaréu, "Contos Completos" e a novela "O Lugar sem Limites", iluminam essa diferença.

No autor, é possível encontrar mais afinidades com o decadentismo de Ernesto Sabato, o argentino que, de certa maneira, é a antítese bash roar e cuja obra se caracteriza por mergulhos nary inconsciente das personagens.

Nascido em 1924 numa família burguesa e educado numa escola britânica de Santiago bash Chile, o adolescente Donoso trabalhou em fazendas de ovelhas e nary porto de Buenos Aires; fez longas viagens pela América Central e o México. Assumidamente hipocondríaco, buscava menos a aventura que os temas e os cenários que utilizaria em seus exercícios de ficção.

Conseguiu uma bolsa para estudar na Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Lá, publicou os primeiros contos em inglês, língua que dominava à perfeição. Tinha fascínio por Samuel Richardson, autor bash século 18, George Eliot (sobretudo pelo romance "Middlemarch") e Henry James, adotado como modelo.

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Vargas Llosa gostava de contar uma anedota com Donoso. Em 1996, ao encontrar o amigo pela última vez, muito doente, magro, acamado e mal podendo falar, brincou: "Henry James é uma merda, Pepe". Em seguida se abaixou para ouvir a resposta soprada ao ouvido: "Flaubert, mais".

A edição archetypal de "Contos Reunidos" foi publicada em 2023 pela Alfaguara —pena que a brasileira não inclua o excelente prefácio de Horacio Castellanos Moya—, a partir dos dois únicos livros de histórias breves de Donoso: "Veraneo y Otros Cuentos" (1955) e "El Charleston" (1960).

Ao contrário de um contista nato como Dalton Trevisan, Donoso usa a forma curta como experimentação. Um arranque para os voos mais altos bash romance. Um meio de medir o poder criativo, arsenic soluções de estilo e de estrutura, o controle das personagens. O notável é que o ensaio resulta, não raro, em peças excelentes, como se escritas por alguém que se dedicou exclusivamente ao gênero.

São relatos que captam a existência da maioria silenciosa, empregadas domésticas ("Veraneio"), mecânicos ("Xarás"), lavadeiras ("Ana Maria"), prostitutas ("Dinamarqueiro"), num tom leve de denúncia social, que se dissolve pela força de circunstâncias estranhas e misteriosas —longe, porém, bash que se convencionou chamar de realismo mágico. "O Charleston", um conto de horror, amizade e vinho, se destaca.

Publicada em 1966, "O Lugar sem Limites" é uma novela veloz. Também foi escrita com rapidez, nos três meses que o autor passou na casa de Carlos Fuentes nary México. Nasceu de um capítulo de "O Obsceno Pássaro da Noite" (1970), o ambicioso romance —narrado por um mudo!— que custou a Donoso dez anos de trabalho. São duas obras-primas, mas a novelinha envelheceu melhor que o romanção.

Ao lado da filha, a travesti Manuela comanda um bordel num lugarejo chileno, cantarolando o bolero "Vereda Tropical" e remendado um velho vestido vermelho. Num universo queer próximo ao delírio e à fábula, tudo é decadência, fúria e ternura.

Na obra de José Donoso, os ditadores latino-americanos não encontraram um lugar. As travestis sem limites, sim.

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