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'Love Story' e a comédia romântica que a internet matou

O problema é que perdemos a capacidade de consumir ficção como ficção.
Hoje tudo vira razão para gatilho. Tudo tem um trauma embutido.
É tudo branco ou preto, herói ou vilão, comportamento saudável ou 'red flag' .
A ambiguidade, que é exatamente o ingrediente principal de qualquer boa história de amor, virou zona de perigo.

E daí fica impossível escrever uma comédia romântica.
Porque o roteiro clássico do gênero exige imperfeição, exige conflito, exige que o personagem aja de forma errada antes de agir certo.
Num mundo onde qualquer passo em falso vira material para um carrossel de "comportamentos abusivos que você normalizou", não tem como contar essa história.

A comédia romântica exige obstáculos, e o celular eliminou todos.
O gênero vive de mal-entendidos, de não conseguir falar com a pessoa, de cartas que chegam tarde, de recados que não são entregues.
O smartphone resolveu todos esses problemas: e matou o roteiro junto.

Por isso Hollywood investe cada vez mais em reality shows de casais e menos em comédias românticas.
O conceito de comfort food televisivo mudou.
Porque ali é tudo dopamina, imediatismo e julgamento em tempo real.
Não tem arco narrativo, não tem nuance, não tem final. É tudo imediatista.
A historinha morreu. E, com ela, um jeito inteiro de se apaixonar.

Carolyn Bessette era, por qualquer métrica atual, uma mulher incrível.
Executiva de moda, responsável por campanhas que definiram uma estética, a pessoa que colocou Kate Moss no mapa.
Era livre sexualmente, competente, estilosa.
E ainda assim, ela escolheu abrir mão de grande parte disso para estar com John John.

Aliás, vale aqui um parêntese importante: a série trata com mais sutileza do que os tabloides da época.
Carolyn foi pintada várias vezes como adicta e megera, ao contrário do marido, o queridinho da América.
Ao ver a série, porém, é John Kennedy Jr. quem se revela pessoa menos admirável do casal.
A lista é longa.

Reprovou duas vezes no exame da Ordem dos Advogados.
Vivia assombrado pela aprovação de uma mãe impossível de satisfazer e pela sombra de um sobrenome que nunca pediu para carregar.
Lançou uma revista política que, a cada edição, flertava com a falência.
Tinha uma vida fácil demais, com tantos privilégios que era OK ser medíocre.

Tanto que o capítulo mais sombrio dessa história é que ele foi o responsável direto pela morte de Carolyn, da irmã dela e a dele.
A queda do avião não foi tragédia, foi falha humana. A dele.

Será que essa história seria viável em 2026?
Provavelmente não, pelo menos não do jeito que foi contada.
E tá tudo bem.

O problema é que essa mesma consciência coletiva que aprendeu a questionar o herói de "hairline" perfeito também tornou quase impossível a existência da comédia romântica.
Porque o gênero precisa de um protagonista com falhas romantizadas.
Precisa de ambiguidade moral. Precisa que você torça para o casal mesmo sem saber se deveria.
A internet não tolera mais isso. Ela quer o veredito antes do segundo ato.

Então ficamos com esse paradoxo bonito e melancólico: evoluímos o suficiente para ver John John como ele realmente era.
Mas talvez, no meio do caminho, tenhamos perdido um pouco do romance e da esperança que faziam uma história como essa parecer possível.
E talvez essa seja a grande razão do sucesso de "Love Story".

A gente não quer só ver uma história de amor.
A gente quer lembrar como era quando histórias de amor podiam acontecer antes de virar conteúdo, antes de virar análise, antes de virar terapia.
Antes de alguém fazer um carrossel nas redes sociais sobre as red flags do episódio dois.
Às vezes a nostalgia não é de um tempo melhor. É de um tempo mais ingênuo.
E ingenuidade, nesse caso, tem um valor que a gente só percebe quando já perdeu.

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