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Não era amor, era cilada: a IA vai acabar com os estágios?

Explico: após três anos ouvindo que a Inteligência Artificial generativa nos deixaria mais produtivos, o que vemos em 2026 são sinais de que ela deixou de ser apenas uma assistente virtual para, de fato, tornar-se a infraestrutura invisível da economia digital.

Em outras palavras, a IA evoluiu de simples ferramenta de trabalho para se tornar "o" centro de uma empresa.

E é melhor o trabalhador estar preparado, principalmente quem trabalha no setor de tecnologia.

Segundo a Fast Company, em todo o ano de 2025 cerca de 55 mil empregos foram eliminados globalmente por conta da Inteligência Artificial.

Somente no final de fevereiro, Jack Dorsey, fundador do Twitter, desligou 40% da força de trabalho de sua atual empresa, a Block (antiga Square).
De acordo com o executivo, 4 mil vagas se mostraram redundantes com as ferramentas de IA que a companhia passou a adotar -- a grande maioria ligada a programação.

Historicamente, o que o Vale do Silício assopra costuma causar ventania ou estragos piores no mundo todo rapidamente.
Lembra que, há 20 anos, as empresas de tecnologia começaram a ter escritórios custosos que mais pareciam playgrounds infantis?
De repente, até escritórios de contabilidade passaram a ter mesa de ping-pong e pizza com cerveja às sextas-feiras.

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Quando veio a pandemia, as big techs foram as primeiras a decretar a era do trabalho remoto.
Durou pouco e, ainda em 2022, muitas começaram a realizar cortes gigantescos e a pedir aos funcionários que voltassem aos escritórios, cada vez mais enxutos.

(Enquanto escrevia este texto, a brasileira Stone anunciou uma onda de demissões. A justificativa? Adivinhem: IA e eficiência.)

O anúncio da Block, acompanhado do manifesto de seu fundador, teve dois pontos interessantes.
Primeiro: a empresa tem apresentado lucro nos últimos meses e um modelo de negócios bastante sólido.
Segundo: após o layoff, as ações dela dispararam 20%.
Acredite se quiser.

O curioso é que o mercado reagiu com otimismo poucos dias depois de um relatório estilo Black Mirror ter causado pânico no setor e desvalorizar ações de empresas como IBM, Uber e Datadog.

O documento, produzido pela pouco conhecida Citrini Research, parece mais um exercício de futurologia: em 2028, os EUA teriam uma taxa de desemprego acima de 10% e as principais empresas listadas na bolsa americana valeriam quase 40% menos.

De acordo com a Citrini, isso aconteceria porque agentes de IA irão provocar demissões em massa em setores como os de colarinho-branco e TI.
E tais postos de trabalhos deixariam se existir ao serem 100% automatizados, ou seja:

Esses profissionais de alta renda, substituídos por máquinas, teriam de buscar empregos menos remunerados -- e isso afetaria uma cadeia inteira da economia de consumo.
O aumento de produtividade e riqueza seria ilusório, pois o dinheiro deixaria de circular.
O nome dessa bola de neve? PIB Fantasma.

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A questão é que a publicação pintou um cenário para daqui dois anos, na teoria.
Só que ele já se demonstra real: e estamos apenas em março de 2026.

A Anthropic, empresa por trás do Claude, e maior rival do ChatGPT, lançou recentemente um relatório sobre o impacto da IA no mercado de trabalho.
Segundo ele, em setores como Computação e Matemática a IA já tem capacidade técnica para resolver 94% das tarefas, mas o uso real ainda está em apenas 33%

Ainda de acordo com o documento, as profissões mais afetadas são as de programadores de computador (74,5%) e profissionais de atendimento ao cliente (70,1%), seguidas de digitadores de dados, analistas de marketing e analistas financeiros.

Tudo a ver com os layoffs recentes e o relatório da Citrini, não?

Já os trabalhadores menos impactados são aqueles cujas profissões exigem presença física: profissionais da saúde, construção, agricultura e afins.

O que chama mais a atenção no documento da Anthropic é o efeito colateral da IA nas vagas de entrada.
Não é só o emprego de hoje que está em risco.
É o emprego de amanhã que está deixando de ser criado: os estágios.

Os números confirmam: a contratação de jovens entre 22 e 25 anos caiu 14% nos setores de tecnologia e finanças.
A porta de entrada está sendo fechada.
E ninguém parece muito preocupado com quem fica do lado de fora.

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O educador Allan Pscheidt tem um nome para isso: "Caixa Preta da Carreira".
Quando uma empresa automatiza as tarefas consideradas básicas, ela economiza no curto prazo e destrói, sem perceber, os andaimes que formavam os profissionais do futuro.
Aquelas tarefas chatas e repetitivas eram, na verdade, a escola real do mercado de trabalho.

Então, voltando à pergunta lá do início: como você se vê, com a IA, daqui a cinco anos?

Se a tua resposta ainda for vaga, fica o alerta.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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