3 horas atrás 5

'Nem Comunista, nem Fascista' busca ser guia de conduta contra o extremismo

Qual a melhor maneira de se combater o extremismo político e a intolerância ideológica, à esquerda e à direita?

Aos gritos e de maneira intransigente? Ou com moderação e convite ao debate? A segunda opção, que à primeira vista parece ser a mais razoável, ganhou forte apoio com o lançamento do livro "Nem Comunista, nem Fascista: Guia de Resistência para Moderados", do jornalista Diogo Schelp.

O ex-editor-executivo da revista Veja parte de um diagnóstico claro sobre as ameaças que o extremismo oferece —e por que é preciso combatê-lo. Segundo a definição do cientista político Cas Mudde, citado por Schelp, o extremismo se caracteriza pela "rejeição à soberania popular por meio do voto, à ordem constitucional e, por extensão, à própria democracia". Na paráfrase do jornalista, extrema direita e extrema esquerda "almejam a substituição de regimes democráticos por ditaduras".

Essa é a primeira e fundamental ameaça. Mas extremistas e radicais também criam problemas antes que a ameaça se concretize, enquanto simplesmente trabalham para atingir seus objetivos iliberais. Por exemplo, ao demonizar adversários, incitando atos de violência política, como a bomba que tentaram explodir em Brasília, em dezembro de 2022, ou a depredação das sedes dos três Poderes, semanas depois, já em 2023.

O remédio que Schelp sugere para o mal-estar da política contemporânea —em que o radicalismo parece organizar o debate— se baseia na sua experiência profissional. A receita é de mais diálogo e mediação de conflitos, ele diz.

Depois de levar pedradas da esquerda por seus textos na Veja, Schelp se tornou sparring ideológico na Jovem Pan News, onde funcionou, durante os anos em que Jair Bolsonaro foi presidente, como voz moderada nos debates com a direita radical.

Tudo a Ler

Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

Schelp considera que a experiência valeu a pena. "Eu sentia que havia uma função social no que eu estava fazendo. Um dos grandes debates era sobre a vacina, durante a pandemia. Eu recebia mensagens de pessoas da audiência que se diziam bolsonaristas e que falavam: ‘Você me fez pensar. Eu decidi que vou vacinar minha família porque você comentou no programa hoje que eu não preciso comprar o pacote todo [da direita radical]."

A ênfase do livro está nesse caráter processual da moderação. No modo de interagir com os radicais. Ao debater, é preciso ser tolerante, ter civilidade, prudência, humildade. Ao agir politicamente, é preferível o gradualismo e o reformismo às "rupturas violentas, terrorismos ou revoluções com consequências imprevisíveis".

Os princípios que se pretende proteger, com esse tipo de procedimento, ficam em segundo plano. De maneira proposital, explica Schelp. A moderação política "é uma postura, um modo de lidar com os conflitos inerentes a qualquer sociedade", escreve o jornalista. "Como tal, não se permite ser definida como ideologia [...]. A moderação política não possui um conjunto de crenças ou dogmas aos quais as pessoas aderem e que geram uma identidade de grupo coeso."

É aí que começam os problemas. O próprio Schelp apresenta ao leitor dificuldades que podem surgir da ênfase na forma, e não no conteúdo do debate ideológico.

Dependendo dos princípios que se quer defender, será que a moderação é o melhor caminho? No caso da escravidão, é cabível o gradualismo? E da luta por direitos civis? Schelp cita Martin Luther King, que na década de 1960 criticava os "brancos moderados" que diziam ser contra o racismo, mas que eram "mais devotos da ‘ordem’ do que da Justiça".

Como saída para situações como essa, Schelp propõe, a depender das circunstâncias, "moderar a moderação".

Uma simples defesa dos princípios liberais chegaria mais rápido, e de maneira mais direta, ao apoio à causa de Luther King ou à oposição ao regime de apartheid na África do Sul, também mencionado pelo jornalista.

A defesa que Schelp faz do diálogo não deve ser desmerecida. Ele apresenta com rigor o valor de escuta, de ponderação e de abertura ao outro. Mas a centralidade da retórica faz o livro correr riscos desnecessários. Por exemplo, quando aproxima Lula e Bolsonaro, nas eleições de 2022, tratando ambos como "candidatos que se demonizavam mutuamente".

O quanto a equivalente falta de moderação retórica, de um lado e de outro, realmente importava, naquele momento? Sobretudo em comparação com as atitudes concretas em relação à democracia? Schelp não deixa de registrar, no mesmo parágrafo, que apenas um dos candidatos foi condenado por conspirar "para dar um golpe de Estado e permanecer no poder".

No fim das contas, a moderação não é a única resposta possível aos extremismos. A posição que não é radical de esquerda, nem radical de direita não é apenas reativa: tem princípios e valores próprios, a começar pela defesa da democracia, da garantia dos direitos das minorias, do pluralismo de ideias, do império da lei.

Quem não é "nem comunista, nem fascista" não precisa ser só um acomodador educado de radicalismos, um mediador de despautérios. Não é preciso gritar, mas tampouco deve-se abrir mão dos princípios, do embate de ideias. Contra os extremismos, às vezes é preciso ser intransigente.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro