Criminosos estão usando o próprio sistema oficial de devolução do Banco Central do Brasil para aplicar um novo golpe do Pix e causar prejuízo em dobro às vítimas. A fraude, conhecida como “golpe do Pix errado”, começa com uma transferência real enviada para a conta da vítima e evolui para um esquema que explora o Mecanismo Especial de Devolução (MED), ferramenta criada pelo BC justamente para combater fraudes. Para entender como o golpe funciona, por que ele ficou mais perigoso com o avanço do MED 2.0 e quais sinais ajudam a identificar a armadilha, o TechTudo conversou com Mario Micucci, pesquisador de cibersegurança da ESET América Latina. Veja a seguir.
Novo golpe do Pix usa sistema oficial do Banco Central para roubar vítimas — Foto: Mariana Saguias/TechTudo - O que é o novo golpe do "Pix errado" e por que ele preocupa especialistas
- Como criminosos estão usando o sistema oficial do Banco Central
- Entenda o que é o MED 2.0 e qual a relação dele com o golpe
- Golpe não depende de invasão bancária nem roubo de senha; veja como funciona
- Como funciona o esquema do "estorno duplo"
- Quais sinais indicam que o contato pode ser uma tentativa de fraude
- O que nunca fazer ao receber pedido de devolução de Pix
- O que fazer imediatamente após cair no golpe
- É possível recuperar o dinheiro? Veja o que influencia nas chances de reembolso
O que é o novo golpe do "Pix errado" e por que ele preocupa especialistas
O golpe do Pix errado não é exatamente novo, mas ganhou uma camada adicional de risco com a evolução do ecossistema de pagamentos instantâneos no Brasil, hoje consolidado como um dos principais meios de pagamento do país. O diferencial dessa versão é a forma como criminosos exploram mecanismos legítimos do sistema bancário para ampliar o prejuízo das vítimas e dificultar a identificação da fraude pelas instituições financeiras.
Os números ajudam a entender o tamanho do problema. Segundo o estudo "Golpes com Pix", realizado pela Silverguard, as fraudes desse tipo cresceram 21% no Brasil em 2025, com perdas médias de R$ 2.540 por vítima. Entre idosos, o valor quase dobra e chega a R$ 4.800. Paralelamente, os pedidos de devolução registrados junto ao Banco Central saltaram de 2,5 milhões em 2023 para quase 5 milhões de ocorrências em 2024.
Entenda o que é o novo golpe do Pix errado — Foto: Mariana Saguias/TechTudo Como criminosos estão usando o sistema oficial do Banco Central
Em seguida, o criminoso entra em contato por WhatsApp, ligação ou mensagem alegando ter feito a transferência por engano e pedindo a devolução com urgência. O ponto central do golpe, segundo Micucci, está na orientação passada à vítima.
Depois que a vítima realiza essa segunda transferência, o criminoso pode acionar o MED sobre a transação original alegando fraude. Como o sistema identifica uma entrada seguida de saída rápida de recursos, a contestação pode resultar no bloqueio do valor inicialmente recebido. O prejuízo, então, se torna duplo.
Mecânica do golpe — Foto: Reprodução/ESET Entenda o que é o MED 2.0 e qual a relação dele com o golpe
O MED 2.0 passou a ser associado ao golpe do Pix errado após a nova versão do mecanismo ampliar a capacidade de rastreamento e bloqueio de valores em transações suspeitas. Criado pelo Banco Central para recuperar dinheiro em casos de fraude envolvendo Pix, o sistema passou, desde fevereiro de 2026, a acompanhar com mais precisão o caminho do dinheiro entre diferentes contas.
A relação entre o golpe e o MED 2.0, porém, não significa que exista uma falha no sistema bancário. Segundo Micucci, os criminosos exploram principalmente o desconhecimento das vítimas sobre o funcionamento correto da devolução via Pix.
Na prática, os golpistas tentam convencer a vítima a fazer uma transferência manual para outra chave Pix, fora da função oficial "Devolver". É justamente essa combinação entre urgência, desconhecimento e manipulação emocional que torna a fraude mais perigosa.
Entenda relação do MED 2.0 com o golpe — Foto: Mariana Saguias/TechTudo Golpe não depende de invasão bancária nem roubo de senha; veja como funciona
Um dos aspectos mais relevantes desse tipo de fraude é justamente o fato de não envolver invasão da conta bancária da vítima. Não há malware, phishing ou acesso indevido ao aplicativo do banco. O golpe funciona inteiramente por persuasão.
Os criminosos combinam uma operação legítima — o Pix real enviado para a vítima — com manipulação psicológica. O contato geralmente vem acompanhado de mensagens urgentes, como necessidade imediata de pagamento, emergência familiar ou suposto cancelamento da operação pelo banco.
Essa aparência de voluntariedade dificulta a reversão posterior, já que a segunda transferência parece legítima para o sistema bancário.
Golpe é acionado de maneira sofisticada — Foto: Reprodução/Freepik Como funciona o esquema do "estorno duplo"
O "estorno duplo" é o cerne da fraude e o que amplia o prejuízo financeiro da vítima. Primeiro, a pessoa recebe um Pix real em sua conta. O dinheiro pode vir do próprio criminoso, de contas intermediárias ou até de outra fraude. Pouco depois, alguém entra em contato alegando erro na transferência e pede a devolução com urgência.
Em vez de orientar o uso do recurso "Devolver", o golpista envia uma nova chave Pix e convence a vítima a realizar uma transferência manual separada da operação original. Na sequência, o criminoso aciona o MED sobre o Pix inicial, alegando fraude. Com isso, a vítima pode perder tanto o valor enviado manualmente quanto o dinheiro da primeira transação.
Veja como funciona esquema do estorno duplo — Foto: Mariana Saguias/TechTudo Quais sinais indicam que o contato pode ser uma tentativa de fraude
Um dos indícios mais comuns desse golpe é o pedido para que a devolução seja feita para uma chave Pix diferente daquela que realizou a transferência original. Segundo Micucci, esse comportamento deve ser tratado como um alerta imediato.
Outros comportamentos também ajudam a identificar a tentativa de fraude, como pressão para agir rapidamente, mensagens com tom emocional, ligações de números desconhecidos e recusa em usar a função oficial "Devolver". Em alguns casos, o criminoso alega que “a conta original está com problemas” para justificar o envio de uma nova chave Pix.
Também é importante desconfiar de comprovantes de Pix agendado. Esse tipo de documento não confirma que o dinheiro entrou na conta, já que a operação ainda pode ser cancelada. Antes de qualquer devolução, o ideal é verificar saldo e extrato diretamente no app oficial do banco.
Pedido para que a devolução seja feita para uma chave Pix diferente é sinal de golpe — Foto: Mariana Saguias/TechTudo O que nunca fazer ao receber pedido de devolução de Pix
A principal regra é nunca fazer uma nova transferência manual para uma chave Pix indicada pela pessoa que entrou em contato. Segundo Micucci, a devolução segura deve sempre acontecer dentro da própria transação recebida no aplicativo oficial do banco.
Segundo o pesquisador, a única forma segura de corrigir esse tipo de situação é usar a ferramenta "Devolver" dentro da transação original no aplicativo do banco, pois isso impede que a vítima envie dinheiro para uma terceira conta, mantém a rastreabilidade da devolução e preserva o vínculo com o Pix original.
Especialista explica o que não fazer se receber pedido de devolução de Pix — Foto: Mariana Saguias/TechTudo O que fazer imediatamente após cair no golpe
Caso a vítima já tenha realizado a transferência manual, agir rapidamente faz diferença. Micucci recomenda:
- Contatar imediatamente o banco pelos canais oficiais e informar que foi vítima de fraude por engenharia social.
- Solicitar abertura do procedimento correspondente, incluindo a possibilidade de acionar o MED.
- Reunir comprovantes, capturas de tela, chaves Pix utilizadas, horários e contatos envolvidos.
- Registrar boletim de ocorrência.
- Monitorar a conta nos dias seguintes para identificar movimentações suspeitas, bloqueios ou estornos.
Segundo o pesquisador, o boletim de ocorrência também ajuda a documentar que a pessoa foi vítima da fraude.
Veja o que fazer se for vítima do golpe — Foto: Marcos Vinícius Pereira / TechTudo / imagem gerada pelo nano banana É possível recuperar o dinheiro? Veja o que influencia nas chances de reembolso
A recuperação do dinheiro é possível, mas, segundo Micucci, não garantida. As chances de ressarcimento dependem "principalmente da rapidez com que a vítima relata a fraude, se ainda houver saldo nas contas receptoras e se a instituição financeira conseguir bloquear os valores antes que sejam sacados ou transferidos novamente."
O Banco Central orienta que o MED deve ser solicitado junto à instituição financeira quando houver fraude, golpe ou crime, dentro do prazo previsto pelo mecanismo. Na prática, quanto mais rápido a vítima agir e apresentar evidências, maiores as chances de recuperação.
O problema é que criminosos costumam movimentar o dinheiro rapidamente entre diferentes contas, o que torna as primeiras horas após o golpe decisivas para tentar recuperar os valores.
🎥 'Caí no golpe do Pix, e agora?' Veja o que fazer e como recuperar
'Caí no golpe do Pix, e agora?' Veja o que fazer e como recuperar

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