Desde o segundo semestre de 2025 que o Waze passou a emitir alertas de áreas com risco de assalto.
Mas a novidade começou a aparecer para os paulistanos, mesmo, agora em março.
Como tudo por ali, a notificação é colaborativa: se um motorista reportar um incidente, o ícone aparece para geral na região e fica ativo por 15 a 30 minutos.
Eu fiquei bastante incomodado, pois há algo profundamente revelador nessa feature.
O Waze funciona porque as pessoas reportam o que o poder público não consegue monitorar.
Buracos que a prefeitura não tapa.
Obras que o trânsito não sinaliza.
E, agora, áreas de crime que a polícia não cobre.
O filósofo francês Michel Foucault descreveu o panóptico como um sistema de vigilância onde as pessoas internalizam o olhar do Estado: passando a se comportar como se estivessem sempre sendo observadas.
Na capital paulista, o processo se inverteu de forma perturbadora: somos nós que precisamos vigiar o tempo todo.
O Estado não nos observa para nos proteger: agora somos nós que nos observamos uns aos outros para sobreviver.
O ícone do ladrão no Waze não é uma solução.
É um sintoma.
É a confissão coletiva, em tempo real e com geolocalização, de que o direito básico acabou.
A cidade de São Paulo encerrou 2025 com mais de 154 mil celulares roubados ou furtados.
Dá uma média de 17 ocorrências por hora.
Ah, apenas 6% dos aparelhos são devolvidos.
Grupos organizados atuam, principalmente, em congestionamentos, aproveitando o trânsito parado.
Os criminosos quebram os vidros dos veículos e roubam objetos em poucos segundos.
O foco são os celulares de quem está distraído com o carro parado.
Até nome os meliantes já têm: Gangue do Quebra-Vidro.
E os celulares roubados? Têm destino certo: um "ninho de celulares roubados".
Não é piada: fica na Rua Guaianases, na região central da capital paulista.
Toda crise tem quem lucre com ela.
E a crise de segurança urbana de São Paulo criou um mercado próspero.
Veja o caso da Rhino, uma startup de mobilidade fundada em 2023 por Daniil Sergunin, um executivo russo que se mudou para o Brasil em 2020.
A empresa trabalha apenas com uma frota de carros de luxo blindados e, em sua comunicação, sempre foca na comodidade e na segurança de executivos trabalhando dentro dos veículos.
Em menos de dois anos de operação, a Rhino dobrou seu valuation, acumulava 250 mil usuários cadastrados e crescia 30% ao mês (dados do início de 2025)
O que o Waze, a Gangue do Quebra-Vidro e a Rhino têm em comum?
Eles são três faces do mesmo fenômeno: o colapso progressivo do espaço público como lugar seguro para todos.
O Estado não consegue cobrir esse vácuo.
A tecnologia chega antes, mas para documentar o problema, não para resolvê-lo.
E o mercado enxerga nisso uma oportunidade: cobra pelo que deveria ser garantido.
O resultado é uma cidade que se segmenta pelo medo.
Quem pode, paga por um blindado até o aeroporto.
Quem não pode, olha o mapa do Waze, desvia da rua com o ícone de ladrão, e torce para não estar no lugar errado na hora errada.
Foucault diria que vivemos num panóptico às avessas: não é o Estado que nos observa para manter a ordem.
Somos nós que nos vigiamos coletivamente para compensar a ausência dele.
Cada usuário que reporta um assalto no Waze está fazendo o trabalho de inteligência que caberia à segurança pública.
Cada passageiro que entra num blindado da Rhino está pagando pelo direito que a Constituição deveria garantir de graça.
O alerta do ladrão no mapa não é uma feature.
É um atestado de que São Paulo falhou.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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3 dias atrás
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