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O que a The Economist viu e o que ficou faltando

Quando uma guerra ameaça o estreito de Hormuz, sabemos que o problema não se limita ao Oriente Médio. Segundo a Reuters, por ali passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados no mundo; se essa rota trava, sobem os custos de energia e transporte e, na sequência, o preço de vários produtos. Ainda assim, no auge da tensão, muitos investidores agiam como se a interrupção fosse breve. Foi esse descompasso que a revista britânica The Economist registrou: petróleo ainda longe dos níveis compatíveis com um bloqueio prolongado, Bolsa americana relativamente resiliente e ouro sem se firmar como ativo de segurança.

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Quando o risco é extremo, mas ainda não virou dano consumado, investidores tendem a tratá-lo como improvável demais para rever os preços de forma mais incisiva. É esse o atalho mental que Robert Barro ajuda a iluminar em 2009, ao mostrar que desastres raros pesam muito sobre o valor dos ativos e sobre o bem-estar, mesmo quando sua probabilidade é baixa. Ou seja, o que importa não é a frequência do evento, mas o tamanho da perda quando ele ocorre. Enquanto o choque permanece no terreno da possibilidade, muitos agentes agem como se a normalização do fluxo estivesse próxima; quando a deterioração se impõe, o ajuste pode vir de uma vez.

O modo como investidores leem um choque novo também depende do que aprenderam com os anteriores. Ulrike Malmendier e Stefan Nagel mostraram, em 2011, que experiências macroeconômicas vividas em primeira mão deixam marcas persistentes sobre a disposição a correr risco. Isso ajuda a entender por que, depois de anos em que muitos episódios de pânico foram seguidos por recuperação rápida, tanta gente se acostuma a ver turbulência como oportunidade de compra, não como mudança mais duradoura de cenário. O problema é que esse viés embaralha episódios muito diferentes entre si. Há choques sobretudo financeiros e narrativos, e há choques com componente físico, logístico e inflacionário mais duro; cada tipo exige respostas distintas, de modo que tratar tudo como repetição do passado pode atrasar a reação.

Além disso, investidores costumam reagir primeiro ao que é mais chamativo. Brad Barber e Terrance Odean mostraram, em 2008, que a atenção se concentra de forma desproporcional em sinais fáceis de observar e negociar. Em ambiente saturado de informação, isso dá mais peso a falas de autoridades, rumores de negociação e movimentos bruscos de preço, enquanto empurra para segundo plano mecanismos que demoram mais a aparecer, como o encarecimento dos seguros marítimos, a reorganização das rotas logísticas e o repasse de custos para a inflação. Foi esse padrão que apareceu quando uma fala de Trump sobre conversas "produtivas" com o Irã bastou para aliviar o petróleo e outros ativos por um momento, embora os efeitos mais lentos do choque continuassem sem solução.

Por isso, num primeiro momento, antes que os preços encontrem algum novo patamar, choques severos podem ser tratados como se fossem passageiros e administráveis. Nos dias seguintes, parte dessa leitura começou a ceder: nesta segunda, 30 de março, o Brent voltou a operar acima de US$ 116, o ouro subiu novamente e as bolsas americanas mostraram apenas uma recuperação modesta. Então, a pergunta a se ter em mente, na verdade é o que exatamente esses preços estão sinalizando: uma expectativa de estabilização ou a dificuldade de incorporar, no presente, um dano que ainda está em formação?

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