Keir Starmer

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Legenda da foto, Keir Starmer é mais um premiê britânico a enfrentar problemas para se manter no cargo
    • Author, James Landale
    • Role, Da BBC News em Londres
  • Published Há 16 minutos

  • Tempo de leitura: 9 min

A história da política britânica de hoje pode ser contada por números. Cinco primeiros-ministros em sete anos, nenhum dos quais cumpriu um mandato completo do Parlamento. No mesmo período, sete ministros de Relações Exteriores, seis ministros da Economia e quatro ministros de gabinete.

O que está impulsionando essa narrativa? Por que o Reino Unido está descartando seus líderes quase tão rapidamente quanto a Itália fazia? Por que eleitores e parlamentares concedem e retiram seu apoio com tanta facilidade? Em resumo, o Reino Unido está se tornando ingovernável?

Para Starmer, a resposta é clara. Em uma entrevista coletiva nesta semana, o primeiro-ministro disse: “Não, não acho que o Reino Unido seja ingovernável”. Sua rival, a líder conservadora Kemi Badenoch, concordou, dizendo na Câmara dos Comuns: "O Reino Unido não é ingovernável."

Theresa May ao declarar que renunciará

Legenda da foto, O Reino Unido teve cinco primeiros-ministros em sete anos, como Theresa May

Mas Starmer e Badenoch lideram parlamentares que, nos últimos tempos, demonstraram gosto pelo regicídio político; eles precisam governar por meio de uma estrutura administrativa, regulatória e judicial complexa que pode dificultar a implementação de políticas; e atraem eleitores que parecem cada vez mais impacientes por resultados e não querem aceitar que o jogo político envolve concessões.

Este é um momento particularmente turbulento na história britânica que deixou os líderes à mercê dos acontecimentos? Ou a turbulência em Londres reflete problemas profundos e sistêmicos na política?

Tempos desafiadores

A primeira resposta pode ser simplesmente que esses são tempos difíceis para a classe política.

Esse período da história seria considerado desafiador para qualquer geração: a crise financeira de 2008, o caos político do Brexit (saída britânica da União Europeia), o golpe econômico da covid, a guerra na Ucrânia e o choque energético posterior e, claro, a ruptura sistêmica do presidente dos EUA, Donald Trump.

Esses são desafios que não são específicos do Reino Unido; eles são enfrentados por outros líderes mundiais que também estão tendo as mesmas dificuldades. Em toda a Europa, os governos em exercício enfrentam obstáculos econômicos e eleitorados impacientes.

Uma pessoa anda em uma rua passando por fachadas de lojas fechadas

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Legenda da foto, Enfrentar os problemas no Reino Unido envolve escolhas difíceis

Os líderes políticos no Reino Unido estão conseguindo enfrentar todos esses desafios? Hannah White, CEO do centro de estudos Institute for Government (IFG), tem suas dúvidas.

“O Reino Unido não é 'ingovernável'”, diz ela. “Mas seus partidos políticos entregaram ao país uma série de primeiros-ministros sem habilidades essenciais de liderança em um momento em que as crises surgiram em rápida sucessão e várias tendências estão tornando o ato de governar consideravelmente mais difícil.”

O professor Anand Menon, diretor do centro de estudos UK in a Changing Europe, concorda.

“Nosso sistema concede poder significativo a um governo com maioria”, diz ele. “O fato de essa maioria não ter sido utilizada [para promover mudanças] até o momento é uma falha de liderança, em vez de ser indicativo de uma tendência sistemática de ingovernabilidade.”

Anthony Seldon, historiador e biógrafo de muitos primeiros-ministros, argumenta que alguns titulares recentes — como Boris Johnson, Liz Truss e Keir Starmer — não tinham as habilidades políticas para dar conta do trabalho e a humildade para procurar ajuda.

“Eles não tinham as habilidades e não estavam dispostos a trazer outras pessoas”, diz ele. “Outros primeiros-ministros tinham mentores. Até Margaret Thatcher tinha Willie Whitelaw [político conservador que serviu como uma espécie de vice-primeiro-ministro de Thatcher nos anos 80].”

Atritos

Mas o fato de muitos primeiros-ministros serem eleitos com menos experiência do que no passado não é o único problema. Alguns parlamentares dizem que os servidores públicos do Reino Unido não estão conseguindo apoiar adequadamente seus primeiros-ministros.

Camilla Cavendish, ex-diretora de políticas do ex-premiê David Cameron, disse à BBC: “Todo governo parece entrar e ficar surpreso com o quão difícil é fazer as coisas”.

Em uma admissão franca perante um comitê dos Comuns em dezembro passado, Starmer reclamou que até mesmo ele tem dificuldade para fazer as coisas acontecerem: “Minha experiência como primeiro-ministro é frustrante porque toda vez que eu puxo uma alavanca, existem vários regulamentos, consultas e órgãos que fazem com que o tempo entre acionar a alavanca e obter resultados seja maior do que eu acho que deveria ser”.

Funcionários públicos, que não podem dar entrevistas, pela lei britânica, rebatem essas acusações em privado — alguns culpando ministros por não fornecer instruções claras. Eles questionam se a classe política esqueceu como governar.

As rebeliões contra o primeiro-ministro se tornaram mais comuns.

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Legenda da foto, As rebeliões contra o primeiro-ministro se tornaram mais comuns.

Uma pessoa com muita experiência política nos corredores do poder em Londres me disse: “O desprezo pelo funcionalismo público, agora amplamente retribuído, deixou assustados e cautelosos os meios pelos quais os políticos implementam suas políticas”. Ele disse que os políticos “estão cada vez mais como crianças. Deslumbrados e impressionados ao conquistar o poder e com muito medo de fazer qualquer coisa depois que estão lá.”

Alguns funcionários e conselheiros dizem que a própria Downing Street, a sede do gabinete do primeiro-ministro, está lamentavelmente mal preparada e com falta de pessoal para administrar um governo moderno. No entanto, sucessivos governos centralizaram ainda mais o poder no prédio. Alguns dizem que isso deixa as decisões acumuladas sem solução — e os ministros sem poderes.

Jonathan Hill, secretário político de John Major na década de 1990, disse: “A centralização do poder no número 10 (onde trabalha o primeiro-ministro) e no Gabinete — e a obsessão pelo gerenciamento da pauta de notícias — tornaram o trabalho de um ministro muito menos relevante e poderoso. É um milagre que as pessoas ainda estejam preparadas para entrar na política e se tornarem ministros.”

Mas eventos contemporâneos, liderança fraca e um funcionalismo público sobrecarregado são suficientes para explicar nossa atual desordem política?

Vício em drama

Alguns culpam as redes sociais por acelerar o processo político a um ponto quase incontrolável. Theo Bertram, ex-assessor de Tony Blair e Gordon Brown e atual diretor da Social Market Foundation, disse: "Há um problema estrutural: todas as coisas que precisamos fazer para consertar o país levarão 10 anos. Mas, se você é primeiro-ministro, não tem 10 anos. Na era das redes sociais, o que temos é muito curto-prazismo."

As redes sociais, incluindo aplicativos de mensagens pessoais, facilitam rebeliões no Parlamento e dificultam o debate de políticas. Steve Baker, ex-deputado conservador e arquiteto do Brexit, escreveu: "Líderes de partido e ministros chegam tarde demais a uma conversa que as redes sociais encerraram uma hora antes. Hoje, os mesmos mecanismos estão sendo usados dentro do Partido Trabalhista: minicentros de poder construídos em torno de listas de WhatsApp, organizando-se contra seu próprio líder em dias, não meses."

Membros da mídia relatam do lado de fora da 10 Downing Street, em Londres, Reino Unido

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Legenda da foto, Alguns argumentam que a sede do público por notícias e caos torna mais difícil governar

Outros dizem que a mídia é responsável. Nick Bryant, comentarista político e ex-jornalista da BBC, acredita que a “excitação dos jornalistas” é “parte do problema”, argumentando que o “vício em drama entre os políticos e os repórteres políticos alimenta o ciclo constante de caos e incerteza que está se tornando tão democraticamente desestabilizador”.

Por exemplo, a politicagem em torno do Brexit foi tão polêmica que alguns acreditam que isso envenenou o ambiente político, criando uma cultura de constante turbulência e rebelião. Os parlamentares conservadores se acostumaram a substituir seus líderes.

Será que a atual geração de deputados trabalhistas assistiu e absorveu essa cultura, e a normalizou? Estudos sugerem que os parlamentares sem cargos no governo estão se tornando menos obedientes. A rebelião era rara nos parlamentos do pós-guerra, mas se tornou mais comum nos governos de John Major, Tony Blair e David Cameron, à medida que esses parlamentares ganharam confiança e o controle partidário enfraqueceu.

David Cameron

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Legenda da foto, As rebeliões parlamentares aumentaram durante os anos do governo de coalizão liderado por David Cameron

Mas será que essa é a explicação completa?

Alguns dizem que a natureza da nossa política está mudando. Eles apontam para a ascensão de partidos menores que estão desafiando o duopólio do Partido Trabalhista e dos Conservadores. Isso deixou o atual governo com uma maioria parlamentar significativa, mas sem muitos votos populares, já que o voto no Reino Unido não é obrigatório — e, portanto, um mandato mais fraco junto aos eleitores. Essa tendência pode seguir com o aumento do apoio popular a partidos novos, como o Reform UK, de direita, e aos Verdes, da esquerda.

Stewart Wood, ex-conselheiro de Gordon Brown, diz: “Ambos os principais partidos tiveram problemas no governo devido a questões internas. As dificuldades do Partido Conservador no governo foram em grande parte o resultado do Brexit ter fraturado o partido e impossibilitado a gestão partidária."

"O Partido Trabalhista foi estranhamente afetado por sua vitória esmagadora em 2024, sem uma agenda clara de governo para unir o partido e definir o rumo após chegar ao poder."

John Major

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Legenda da foto, John Major diz que os líderes contemporâneos tem dificuldades para fazer escolhas

Alguns argumentam que o problema é mais profundo do que isso e que a fratura das linhas partidárias tradicionais reflete o fracasso das classes políticas em lidar com a escala dos problemas que o Reino Unido enfrenta — fraqueza econômica estrutural, imigração persistentemente alta, enfraquecimento das relações com aliados tradicionais na Europa e nos EUA e dependência energética de um tumultuado Oriente Médio.

Gerenciando expectativas

Isso aponta para uma questão mais ampla, a da liderança política.

Os primeiros-ministros esqueceram como argumentar, apresentar a seus partidos e eleitores escolhas políticas honestas ou compensações? Onde antes prometiam dor de curto prazo para ganhos de longo prazo, agora oferecem satisfação instantânea que quase sempre não é alcançada? Isso pode alimentar a desilusão e a perda de confiança. Na última eleição, nenhum dos dois maiores partidos foi sincero sobre as perspectivas de aumentos de impostos e cortes de gastos.

Hill diz que muitos no centro do poder esqueceram que política significa definir o que se quer, construir um argumento e persuadir o maior número possível de pessoas a apoiá-lo em uma eleição geral.

"Em vez disso, acreditam que seu trabalho é descobrir o que diferentes grupos querem, conciliar todas as posições e reunir votos suficientes para vencer", argumenta. "Passamos de um mecanismo de transmissão de governo e parlamento para um que recebe mensagens como uma enorme máquina de lobby."

Theo Bertram, do centro de estudos Social Market Foundation, acrescenta: “Uma das coisas que não vimos muito nos últimos primeiros-ministros é a capacidade de enfrentar sua própria base parlamentar, enfrentar o público e dizer coisas difíceis”.

Liz Truss

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Legenda da foto, Liz Truss foi muito criticada durante seu curto mandato

Alguns dizem que os políticos ainda não foram honestos com o eleitorado sobre a necessidade de cortar gastos com bem-estar social, aumentar os gastos com defesa, reformar o sistema de saúde e tornar a economia mais produtiva – tudo isso implicaria dor no curto prazo e, segundo alguns, um reequilíbrio do apoio estatal dos mais velhos para os mais jovens.

A política envolve persuasão, até mesmo sedução, e os primeiros-ministros parecem ter esquecido que este é um processo quase constante de conquistar eleitores, parlamentares e funcionários públicos para manter sua agenda avançando.

Talvez os eleitores também tenham se tornado impacientes demais? Em uma era de compras online instantâneas entregues em poucas horas, exigimos resultados políticos mais rápidos do que qualquer governo pode oferecer?

O aumento do apoio a partidos antiestablishment como Reform e os Verdes é resultado do descontentamento dos eleitores com os partidos tradicionais que, segundo eles, não conseguiram enfrentar os problemas do Reino Unido.