Montagem mostra o major Oleksandr Ivanov diante da página de título de Harry Potter e a Câmara Secreta, de J. K. Rowling

Crédito, Angelina Korba / BBC

Legenda da foto, Três dos 4 anos de prisão de Ivanov foram passados em uma colônia penal na Mordóvia, região da Rússia
    • Author, Victoria Prisedskaya
    • Role, BBC News Ucrânia
  • Published Há 19 minutos

  • Tempo de leitura: 8 min

Durante 1.495 dias, o major ucraniano Oleksandr Ivanov viveu confinado a uma caixa de concreto.

Capturado durante os combates pela cidade ucraniana de Mariupol, ele passou esse período em uma cela úmida e cinzenta de uma colônia penal na Rússia.

Ivanov, que é fuzileiro naval, não tinha contato com o mundo exterior nem como saber se seu país ainda resistia ou sequer se sua mulher e seu filho pequeno estavam vivos. Mas, em meio àqueles dias difíceis, encontrou algo que o ajudou a seguir em frente.

Antes da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, Ivanov era um homem dedicado ao dever. Ele servia como major na 36ª Brigada de Fuzileiros Navais, mas a primavera de 2022 mudou tudo.

Foto de 2022 mostra a cidade ucraniana de Mariupol, ocupada pela Rússia, em ruínas, com um carro queimado entre os destroços em uma rua deserta

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A última lembrança que Ivanov guarda da Mariupol ocupada pelos russos não é dos combates, mas do "cheiro de morte que tomava conta do ar"

A última lembrança que Ivanov guarda da Mariupol ocupada pelos russos não é dos combates, mas do "cheiro de morte que tomava conta do ar".

Sua mulher, Nelly, lembra da última ligação, carregada de angústia. "Ele disse: 'Esta é a última vez que vou ter contato com você'", afirma.

Dias depois, uma breve mensagem de texto confirmou que ele havia sido capturado. O que se seguiu foram anos de sofrimento psicológico.

Fotografia de um prédio que, segundo relatos, foi usado pelas forças russas como prisão em Izium antes da retirada da região de Kharkiv, na Ucrânia, em setembro de 2022. A imagem mostra uma pequena cela escura, com tinta descascando das paredes, duas camas com colchões sujos e um pedaço de tecido cobrindo parcialmente a janela

Crédito, Metin Aktas / Anadolu Agency via Getty Images

Legenda da foto, Oleksandr Ivanov e seus companheiros de cela passavam a maior parte do tempo em pé

Três dos quatro anos de prisão de Ivanov foram passados em uma colônia penal na Mordóvia, região da Rússia. Ele dividia uma pequena cela com outros oito detentos e passava a maior parte do tempo em pé. O espaço tinha apenas um vaso sanitário, uma pia com água fria, uma pequena barra de sabão, um tubo de pasta de dentes e um único rolo de papel higiênico compartilhado entre todos durante a semana.

A cada três ou quatro dias, eles tinham permissão para caminhar por dois a cinco minutos. Recebiam comida quente três vezes ao dia, mas a qualidade e a quantidade eram tão ruins que Ivanov perdeu 30 kg durante o cativeiro. Para atormentar os presos, os guardas queimavam as cartas que chegavam, enquanto um rádio transmitia propaganda ininterruptamente, afirmando que a Ucrânia havia deixado de existir.

No último ano, as condições melhoraram um pouco, com menos inspeções, durante as quais os presos muitas vezes eram ridicularizados.

Em quatro anos, Ivanov conseguiu enviar uma mensagem de voz à mulher apenas uma vez. Os guardas permitiram que ele ditasse três frases. No dia seguinte, recebeu uma resposta igualmente breve.

Nelly, a esposa, contou que haviam comemorado o aniversário do filho, ido ao cinema e visitado a creche. "Percebi então que, se crianças em Mykolaiv, não muito longe da linha de frente, iam ao cinema, isso significava que tudo estava bem na Ucrânia", diz Ivanov.

Vestindo uma camiseta vermelha, Oleksandr Ivanov aparece entre 13 meninos e meninas dispostos em três filas atrás de púlpitos brancos, diante de uma plateia em um estúdio de TV. Ao centro, uma apresentadora, usando uma blusa em tom pêssego, abraça duas das crianças

Crédito, Oleksandr Ivanov

Legenda da foto, Oleksandr Ivanov (à direita, na segunda fila) participou apenas da primeira rodada do programa de perguntas e respostas para crianças The Smartest, em 2005

Enquanto o marido permanecia preso, Nelly reunia fragmentos de informações sobre o seu marido. Tudo o que descobria sobre sua condição e seus deslocamentos vinha de soldados libertados em trocas de prisioneiros, que memorizavam os números de telefone das famílias dos companheiros de cela.

"Eu ia juntando as peças. Alguém dizia: 'Sim, ele esteve aqui e depois foi transferido para outro lugar'", afirma. "Foi assim que fiquei sabendo de sua saúde e até de seus pensamentos."

Um dia, uma notícia lhe arrancou um sorriso. Ivanov vinha entretendo os outros presos ao recontar a história de Harry Potter.

"Não fiquei surpresa", diz Nelly. "Mas fiquei feliz. Pensei: 'Se ele está contando a história de Harry Potter, talvez as coisas não estejam tão ruins'."

Ivanov conta que uma das formas de pressão psicológica no cativeiro era proibir os presos de conversar entre si. Eles passavam quase todo o tempo na cela, do momento em que acordavam até a hora de dormir, em pé e em silêncio.

Mas, um dia, Ivanov contou aos companheiros de cela que era fã de Harry Potter, e eles lhe pediram que contasse a história.

Ele impôs uma condição: recontaria, de memória e da forma mais fiel possível, os sete livros da série. Todos concordaram.

Usando uniforme camuflado e boinas verdes, o major Oleksandr Ivanov e sua mulher, Nelly, sorriem para uma selfie enquanto seguram o filho pequeno, Demid, vestido com uma regata branca, em 2020

Crédito, Instagram de Oleksandr Ivanov

Legenda da foto, "Quando um prisioneiro acredita que alguém o espera em casa, isso cria um Patrono tão poderoso que nenhum dementador consegue vencê-lo", diz Ivanov

A série Harry Potter, da escritora britânica J. K. Rowling, entrou na vida de Ivanov de forma inesperada. Em 2005, quando cursava o 7º ano, ele participou de um programa de televisão para crianças e sorteou Harry Potter ao acaso como tema.

Ivanov foi eliminado na primeira rodada, mas a série o conquistou para sempre.

Aguardava ansiosamente cada novo livro e, mais tarde, leu Harry Potter e a Ordem da Fênix, o quinto volume da série, em um único dia.

Anos depois, já na universidade, os livros o ajudavam a passar o tempo durante longos deslocamentos em Kiev, capital da Ucrânia.

"Continuei lendo Harry Potter e, sem perceber, acabei decorando a história", diz Ivanov.

O major Oleksandr Ivanov mostra tatuagens inspiradas no universo de Harry Potter, incluindo uma varinha mágica e o número nove e três quartos, na parte interna do antebraço

Crédito, Oleksandr Ivanov

Legenda da foto, Guardas que reconheceram as tatuagens de Harry Potter de Ivanov passaram a demonstrar com ele 'um certo grau de humanidade'

As histórias também fascinaram seus ouvintes na prisão, homens de todas as idades, de avôs a jovens recrutas.

Durante cinco ou seis horas por dia, Ivanov sussurrava para eles as aventuras dos heróis de Hogwarts.

Ele tratava a narrativa como um audiolivro: criava suspense, fazia pausas nos momentos decisivos e deixava ganchos para o dia seguinte.

"Depois de 30 minutos de propaganda, vocês vão descobrir o que acontece", costumava dizer.

Às vezes, Ivanov se empolgava demais, e os outros presos o alertavam para que não chamasse a atenção dos guardas.

Após um mês, chegou ao fim da história. Mas sua plateia pediu que começasse tudo de novo.

Durante aquelas poucas horas por dia, aqueles homens deixavam de se sentir em uma prisão na Mordóvia e passavam a se imaginar nos corredores de Hogwarts.

Vestido como Harry Potter, com capa preta, gorro e cachecol nas cores amarelo e bordô da casa Grifinória, óculos pretos e uma varinha de brinquedo, Demid faz de conta que lança um feitiço

Crédito, Nelly Ivanova

Legenda da foto, Demid, filho de Oleksandr, 'lança um feitiço' para trazer o pai de volta do cativeiro

"Nos sentíamos como prisioneiros de Azkaban, com os 'dementadores' [considerados também vilões dos livros] do lado de fora da cela", diz Ivanov.

"E qual é a melhor maneira de enfrentar os dementadores? Com um Patrono [força mágica que os afasta]. Quando um prisioneiro acredita que alguém o espera em casa, isso cria um Patrono tão poderoso que nenhum dementador consegue vencê-lo."

O conhecimento de Ivanov sobre Harry Potter chegou até a influenciar sua relação com os guardas da prisão. Quando alguns deles reconheceram as tatuagens inspiradas nos livros que ele tinha nos braços e nas pernas, demonstraram o que ele descreve como "um certo grau de humanidade", passando a falar com ele de forma mais normal.

Enquanto isso, do lado de fora, Nelly continuava lutando pela libertação do marido.

Vestindo um moletom azul e calças azuis, o major Oleksandr Ivanov está sentado em um banco de parque entre a sua mulher, Nelly, de camiseta cinza-escura e jeans, e o filho, Demid, de camiseta listrada azul com letras vermelhas e calças pretas. Os três sorriem e se abraçam

Crédito, Nelly Ivanova

Legenda da foto, Ivanov reencontrou a família em maio deste ano

Nelly escreveu para J. K. Rowling, contando como Ivanov havia recontado a saga Harry Potter durante a prisão e como aquelas histórias ajudaram a manter viva a esperança de muitos detentos.

"Nós acreditamos que 'a felicidade pode ser encontrada até nos momentos mais sombrios, se a pessoa se lembrar de acender a luz', escreveu Nelly, acrescentando: "Ivanov se tornou essa luz para muitas outras pessoas".

A autora nunca respondeu.

Mas a notícia que Nelly esperava havia anos finalmente chegou.

Em 15 de maio deste ano, ela recebeu uma mensagem da Coordenação Ucraniana para o Tratamento de Prisioneiros de Guerra informando que Ivanov voltaria para casa. Ele havia sido libertado em uma troca de prisioneiros.

Pouco depois, Ivanov se reuniu novamente com a família.

Agora, no início do processo de recuperação, tenta recuperar quatro anos perdidos. Ivanov diz ter recebido centenas de mensagens de apoio, além de pacotes com lembranças relacionadas a Harry Potter enviados por pessoas que conheceram a sua história.

"Não consigo colocar em palavras o que isso significa para mim", afirma Ivanov. "Sou grato a todos e tenho orgulho de fazer parte deste país."