O atleta de skeleton ucraniano Vladyslav Heraskevych segura seu capacete, que mostra vítimas da guerra do seu país contra a Rússia, nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026

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    • Author, Emma Smith
    • Role, Jornalista da BBC Sport em Milão (Itália)
  • Há 23 minutos

  • Tempo de leitura: 7 min

O atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych foi banido dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, na Itália, na manhã desta quinta-feira (12/2), como resultado da maior controvérsia da competição.

Heraskevych foi o porta-bandeira do seu país na cerimônia de abertura. Ele desejava participar da competição masculina de skeleton com um capacete especial, ilustrado com imagens de atletas ucranianos mortos durante a invasão russa.

Mas o Comitê Olímpico Internacional (COI) afirma que o ato infringe a Carta Olímpica, que reúne as normas e regulamentos que regem a organização dos Jogos. Por isso, o COI informou a ele na terça-feira (10/2) que não poderia competir usando o capacete.

Após dois dias de discussões, com Heraskevych se recusando a acatar a ordem, o COI confirmou na manhã de quinta (12/2) sua desqualificação do torneio.

O atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych

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Legenda da foto, O atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych usou o capacete durante seus treinos em Cortina

O que dizem as regras do COI?

Heraskevych usou o capacete em todos os seus treinamentos antes do início da competição. E andou com ele pela zona mista, onde fica a imprensa internacional, e em diversas entrevistas.

Mas as regras do COI determinam que ele não poderia usar o capacete durante a competição oficial.

O organismo mencionou a regra 40.2 da Carta Olímpica, que diz o seguinte:

"Todos os concorrentes, autoridades e outros membros das equipes nos Jogos Olímpicos deverão ter liberdade de expressão, preservando os valores olímpicos e os princípios fundamentais do Olimpismo, segundo as orientações determinadas pelo Comitê Executivo do COI."

Elas determinam que "o foco dos Jogos Olímpicos deve se manter no desempenho dos atletas, no esporte e na harmonia que os Jogos procuram promover".

"É um princípio fundamental que o esporte nos Jogos Olímpicos seja neutro e separado de interferência política, religiosa e de qualquer outro tipo. Especificamente, o foco no campo de jogo durante as competições e cerimônias oficiais deve ser a celebração do desempenho dos atletas."

As normas dizem que os atletas podem expressar suas opiniões durante os Jogos Olímpicos, em pronunciamentos à imprensa, nas redes sociais e no campo de jogo, no início da competição ou durante sua introdução.

Mas o COI proíbe essa expressão durante as cerimônias de entrega de medalhas, nas competições e na vila olímpica. E, se as regras forem desrespeitadas, os participantes "podem ficar sujeitos aos procedimentos disciplinares do COI".

O Comitê declarou que essas medidas foram definidas após consultas a 4,5 mil atletas, ressaltando que o foco no campo de jogo deve ser o esporte.

O COI indicou inicialmente, de forma errônea, que a regra 50 teria resultado na desqualificação de Heraskevych. Ela indica que "nenhum tipo de demonstração ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em qualquer local olímpico".

Mykhailo, o pai de Vladyslav Heraskevych

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Legenda da foto, O pai de Heraskevych, Mykhailo, recebe o consolo de membros de outras federações após a tomada da decisão

O que disse o COI?

A presidente do COI, Kirsty Coventry, visitou Heraskevych e seu pai em Cortina às 7h30 da manhã no dia da competição. Ela fez um último apelo para que ele não usasse o capacete.

Coventry declarou que eles tiveram um encontro longo e respeitoso. Mas, por fim, o acordo não foi possível.

"Ninguém está discordando da mensagem", disse ela à imprensa. "Esta é uma mensagem poderosa de lembrança, uma mensagem de memória, e ninguém discorda dela."

"O que propus esta manhã a ele e ao seu pai (porque ele também disse que, quando está descendo, a imagem fica borrada e você, na verdade, não pode vê-la) foi: 'Podemos encontrar uma solução, prestando homenagem à sua mensagem, ao seu capacete antes da prova e assim que ele terminar e for para a zona mista, onde podemos ver as imagens?'"

"Infelizmente, não conseguimos chegar a esta solução. Eu realmente queria vê-lo participar hoje. Esta é uma manhã de grandes emoções."

Coventry foi vista em lágrimas após deixar a reunião. Ela é ex-atleta olímpica e ganhou duas medalhas de ouro pelo Zimbábue, na natação.

O COI também restabeleceu o credenciamento de Heraskevych, permitindo que ele permaneça presente aos Jogos e na vila olímpica pelo restante da competição.

Em uma tensa entrevista coletiva na manhã de quinta (12/2), o porta-voz do COI Mark Adams defendeu sua decisão de banir Heraskevych.

Adams declarou que, se eles permitissem que os atletas usassem um kit homenageando os mortos em guerras, os Jogos seriam abertos à exploração.

"Existem 130 conflitos em andamento a todo instante, segundo a Cruz Vermelha", segundo ele. "Não podemos ter a todos em competição entre si nos Jogos."

"O campo de jogo poderia se tornar um campo de expressão e poderíamos vê-lo ser levado ao caos. Não podemos ter atletas pressionados por líderes políticos para se manifestar durante as competições."

"Fazemos o melhor para criar um campo de jogo adequado e não me desculpo pelo ocorrido", declarou Adams.

O porta-voz do COI também negou que a entidade tenha sido pressionada pelo Comitê Olímpico russo ou pelo governo de Moscou para banir Heraskevych.

Paralelamente, Heraskevych declarou à rede CNN Sports que pretende apresentar um recurso urgente contra a decisão à Corte de Arbitragem do Esporte (CAS).

O CAS pode reunir comitês com fins específicos durante os Jogos. Por isso, seu recurso pode ser julgado horas depois da proibição.

A presidente do COI, Kirsty Coventry

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Legenda da foto, A presidente do COI, Kirsty Coventry, estava visivelmente emocionada ao atender a imprensa, após sua reunião com Heraskevych

Quais foram as reações?

A decisão de banir Vladyslav Heraskevych causou comoção e a condenação de muitos atletas olímpicos, atuais e do passado.

Lizzy Yarnold, duas vezes medalhista de ouro olímpica no skeleton pelo Reino Unido, declarou à BBC Sport: "Acho, na verdade, muito surpreendente. Existe surpresa e comoção entre os praticantes da modalidade."

"O uso do capacete foi uma reação a algo que era um ato memorial, com uma importância incrivelmente emocional para ele. Acho que o COI deve a ele um pedido de desculpas e que esta decisão foi errada."

O atleta do bobsled John Jackson, que competiu em duas Olimpíadas, se mostrou igualmente insensível em relação ao COI.

Jackson serviu na Marinha britânica. Ele disse à BBC que "sua intenção foi relembrar os que caíram".

"Como militar e, agora, como veterano, a memória é muito importante para todos os veteranos. Todos nós perdemos amigos e colegas em conflitos. Todos nós conhecemos alguém que não está presente e fez o último sacrifício."

"Eu o apoio no que ele estava tentando fazer. É muito importante relembrar aqueles que deram sua vida por algo que, em última análise, não precisa acontecer", concluiu Jackson.

Paralelamente, Heraskevych declarou à BBC que a proibição gerou nele uma sensação de "vazio".

"Ontem e anteontem, eu vinha treinando bem", ele conta.

"Eu poderia estar entre os medalhistas deste evento, mas, de repente, devido a alguma interpretação das normas com a qual eu não concordo, não posso competir."

"As orientações sobre expressão — o que você considera como expressão? Muitos outros aqui, nesta arena, têm capacetes com cores diferentes e acredito que isso também é uma forma de expressão", prossegue o atleta.

"Outros tinham símbolos nacionais, o que também é expressão. Por alguma razão, os seus capacetes não foram verificados e eles puderam competir, mas eu, não."

"Acredito que eles [os que caíram] mereçam estar aqui, devido ao seu sacrifício. Quero homenagear a eles e às suas famílias", conclui Heraskevych.

Seus colegas de equipe também demonstraram apoio ao longo de todas as competições desta quinta-feira (12/2) na Itália.

Dmytro Shepiuk, do esqui alpino, exibiu, depois de competir, uma nota com os dizeres "Heróis ucranianos conosco". Já Olena Smaha, do luge, expressou seu apoio a Heraskevych usando uma luva com os dizeres: "Relembrar não é uma infração."

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, acusou o COI de "fazer o jogo do agressor russo", após a desqualificação de Heraskevych.

"O esporte não deve significar amnésia e o movimento olímpico deve ajudar a impedir as guerras, sem fazer o jogo dos agressores", escreveu Zelensky no X, antigo Twitter.

"Infelizmente, a decisão do Comitê Olímpico Internacional, de desqualificar o atleta ucraniano do skeleton Vladyslav Heraskevych, diz o contrário."