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Operação sobre produtora de 'Dark Horse' incomoda Nunes, que fala em 'perseguição política'

A operação da Polícia Civil desta segunda-feira (1º) que teve como alvo repartições da Prefeitura de São Paulo e a sede da produtora do filme "Dark Horse", sobre a facada a Jair Bolsonaro (PL), incomodou o prefeito Ricardo Nunes (MDB), aliado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que falou em motivação política para a ação.

A polícia apura irregularidades na contratação da entidade ICB (Instituto Conhecer Brasil) para gerenciar o programa de Wi-Fi gratuito da Prefeitura. O instituto é presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é dona da Go UP Entertainment, produtora do filme "Dark Horse".

Como a Folha informou, uma das suspeitas investigadas é que dinheiro desviado do programa tenha parado nas contas da produtora. Karina não foi localizada para comentar a operação.

"Se a motivação, conforme vocês estão me dizendo, é por conta do filme, então estou indo atrás de um contrato com a prefeitura de 2024 por causa do filme. Aí é grave. Aí é perseguição política", afirmou nesta segunda-feira (1), ao ser questionado sobre a ligação entre a empresária e o filme sobre Bolsonaro.

"Se por acaso for uma questão política, eu acho que é um erro grave. Eu acho que é um desrespeito à democracia", declarou ainda.

Policiais chegaram por volta das 8h à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, na Rua Líbero Badaró, no centro da cidade, e fizeram buscas em três andares do prédio. Antes das 10h, já haviam deixado o local.

Segundo a Folha apurou, instantes depois da saída dos policiais, o secretário titular da pasta, Humberto Alencar, informou Nunes e os demais secretários que a operação havia sido tranquila e que o material levado pelos agentes fazia parte de processos públicos, disponíveis no site da Prefeitura, e que já haviam sido enviados à Delegacia de Investigações sobre Crimes contra a Administração.

O prefeito recebeu a notícia enquanto se preparava para participar de um evento de entrega de moradias na avenida Prestes Maia, a poucas quadras do local da operação, e decidiu questionar a ação.

"O que eu acho, e aí vocês vão me permitir, sabendo do jeito que eu sou, da sinceridade, que às vezes eu exagero na minha sinceridade, eu acho que está mais por conta de que a pessoa que é dessa entidade, ela participa do filme do Bolsonaro, do que especificamente daquele processo", disse. "Só agora veio essa questão [suspeita de irregularidades], e falando do filme do Bolsonaro", afirmou.

Nunes cogitou com interlocutores, ainda segundo apuração da Folha, que há possibilidade de a polícia ter informações que não são de conhecimento da prefeitura sobre o caso. Mesmo assim, diante do que foi levado pelos agentes na operação, a opção foi por criticar a ação.

Ele afirmou ter pedido duas vezes na semana passada a revisão do processo. "O que eu recebi da minha equipe é a afirmação de que não existe absolutamente nada de errado dentro do processo de contratação", declarou.

Questionado sobre a ausência de notas fiscais e outros documentos apontados pelos investigadores, declarou que o modelo de contratação prevê prestação de contas posterior e disse que despesas sem comprovação já foram desconsideradas pela administração municipal. "Na análise de 2024 foram glosados mais de R$ 2 milhões porque era um serviço que não havia sido comprovado", disse. "Se tiver alguma coisa errada, a prefeitura não vai pagar ou vai descontar."

Nunes também rejeitou suspeitas de direcionamento no chamamento público vencido pelo ICB. "Durante 30 dias somente essa entidade se propôs a fazer esse serviço por esse valor. Não houve nenhum pedido de impugnação, nenhum questionamento, nenhuma outra entidade quis participar", afirmou.

O prefeito ainda disse que a prefeitura irá colaborar com as investigações e voltou a negar irregularidades. "Se tiver alguma coisa de errado, eu vou ser o primeiro a tomar as providências. Mas, até o presente momento, de tudo o que eu vi, não existe absolutamente nada de errado nesse processo."

O inquérito da Polícia Civil foi aberto em março, a pedido do Ministério Público, para a apuração de possíveis irregularidades no contrato da Prefeitura e da entidade para fornecimento de Wi-Fi, pelo custo de R$ 108 milhões.

Ao longo das investigações, policiais levantaram indícios de falhas no processo de seleção da empresa, que nunca operou neste ramo, no valor acertado para cada ponto de acesso e em pagamentos que teriam sido feitos antes de os locais de conexão serem instalados.

No contrato com a gestão Nunes, cada ponto de Wi-Fi contratado por meio do instituto custou R$ 1.800. A Polícia Civil afirma que a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia da prefeitura, presta serviços idênticos pelo custo de R$ 230 para implantação por ponto e R$ 306 para manutenção mensal.

A prefeitura vem negando qualquer irregularidade e tem indicado, quando é alvo de questionamentos, uma página de BI (business intelligence) que monitora o programa em tempo real. Na coletiva, o prefeito questionou os valores apontados pela Polícia Civil.

Ao falar com jornalistas, o prefeito defendeu a possibilidade de Karina ter uma produtora de filmes e uma empresa que gerencia programas de Wi-Fi. "Eu tenho empresa de embalagem, eu tenho empresa de certificação sanitária, eu tenho fazenda, eu tenho várias atividades e eu sou prefeito. Qual é o problema de a pessoa ter várias atividades?"

O filme "Dark Horse" (em inglês; "azarão", em tradução livre), produzido pela Go UP, de Karina, recebeu financiamento de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso em março em meio a uma investigação da Polícia Federal sobre fraude bancária apontada como uma das maiores do país.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro a Vorcaro para a produção do filme, e ao menos R$ 61 milhões foram pagos para financiar a obra. O senador, pré-candidato à Presidência, visitou o banqueiro após ele ter sido preso pela primeira vez, em novembro do ano passado.

Nunes declarou apoio à eleição de Flávio em 1º de março, poucos dias antes da prisão de Vorcaro. Flávio nega que soubesse dos crimes atribuídos a Vorcaro quando buscou recursos para a produção e afirma que os recursos eram privados.

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